Entrevista a Alex Saab

5/03/2021 20:05 - Modificado em 5/03/2021 21:49
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“O PM de Cabo Verde podia e devia ter intervindo para impedir o meu sequestro, mas falhou no seu dever com a Venezuela e com o povo cabo-verdiano”

Como resumiria a forma como Cabo Verde o tem tratado nestes últimos nove meses? Está aliviado por estar finalmente sob prisão domiciliária?

 Alex Saab  – Deixe-me esclarecer algumas coisas. A minha mudança  de uma detenção ilegal para outra é uma farsa apenas para fins de relações públicas.

Fui sequestrado durante o desempenho das minhas funções oficiais, levando a cabo uma Missão Especial humanitária. Cabo Verde faria crer que de alguma forma seguiu o Estado de Direito, mas isto é uma mentira. O Estado de Direito afirma que eu nunca deveria ter sido detido em primeiro lugar.

Portanto, sejamos claros – Cabo Verde levou a cabo o sequestro de um diplomata de um Estado soberano, um Estado que é membro das Nações Unidas, cuja Carta proíbe a interferência de um Estado membro nos assuntos internos de outro. No entanto, foi precisamente isto que Cabo Verde fez. Não procurei entrar em território soberano cabo-verdiano e não quis desembarcar. Foi a força policial de Cabo Verde que me obrigou a sair do meu avião, me obrigou a comprar um visto e depois me sequestrou enquanto aguardava ordens dos Estados Unidos!

O Primeiro-Ministro de Cabo Verde podia e devia ter intervindo para impedir o meu sequestro, mas falhou no seu dever não só para com a Venezuela (para assegurar o meu trânsito seguro e sem entraves), mas também para com o povo cabo-verdiano, causando danos irreparáveis à sua reputação. Compreendo que o povo de Cabo Verde está a começar a compreender as implicações mais amplas para o seu país. Uma recente sondagem de opinião indicou que 80% dos cidadãos desaprovam fortemente a forma como tenho sido tratado e o desrespeito demonstrado à Venezuela pelo Primeiro Ministro e pelo seu governo.

Sou vigiado por 50 guardas armados, os meus advogados são revistados quando chegam e quando saem, os meus frascos de medicamentos são esvaziados – mesmo quando novos e selados. Se me aventurar lá fora no jardim, a Polícia Nacional segue todos os meus movimentos com drones. Não me é permitido o acesso à Internet e se desejar falar com a minha família, devo fazê-lo utilizando um telemóvel fornecido e monitorizado pela Polícia Nacional.

A polícia tem todas as chaves da casa, pelo que não tenho absolutamente nenhuma privacidade. Podem vir, e vêm, quando querem de dia ou de noite. Não posso trancar nenhuma porta que só a polícia pode.

Cabo Verde afirma ser um “modelo para a democracia africana”, mas desafiou abertamente a decisão unânime e vinculativa do Tribunal de Justiça da CEDEAO de 2 de dezembro de 2020, incluindo permitir-me o acesso aos cuidados médicos especializados que eu, como doente com cancro, necessito.

Não foi por acaso que Cabo Verde concedeu a minha prisão domiciliária imediatamente antes da reunião do Conselho de Ministros da CEDEAO de 21-22 de janeiro e da reunião dos Chefes de Estado da CEDEAO de 23 de janeiro. Este foi um passo calculado e cínico para permitir a Cabo Verde continuar a esconder-se atrás da fachada de “uma história de sucesso africana” ou “o modelo da democracia africana”. Tudo isto é realmente irónico uma vez que este atual governo de Cabo Verde nem sequer tem a certeza se quer ser “africano”.

Pediu a prisão domiciliária por razões de saúde. A sua saúde melhorou?

AS – Solicitei que me fossem concedidas instalações que fossem proporcionais ao meu estatuto de Enviado Especial de um Estado soberano que estivesse legalmente envolvido numa Missão Especial humanitária e que não tivesse cometido qualquer crime. Parece que o Primeiro-Ministro de Cabo Verde e os seus colegas gostam de proporcionar aos narcotraficantes os seus direitos, mas não aos diplomatas. Talvez tenham mais a ganhar com os narcotraficantes.

Cabo Verde continua a recusar-me o acesso a médicos especialistas em quem confio – mesmo às minhas próprias custas. Com tantos guardas armados à minha volta, estou muito stressado. O jogo cabo-verdiano de tortura psicológica, começado na prisão, prossegue sob esta falsa prisão domiciliária. Ouço constantemente os guardas a engatilharem as suas armas e receio que seja preciso apenas um erro, um dedo que escorrega e quem sabe o que pode acontecer.

O stress está a agravar a minha insónia que, por sua vez, está a afetar a minha alimentação e, por isso, continuo a perder peso. Acredito ter perdido cerca de 30 kg de peso corporal desde o início da minha detenção ilegal.

Então, o meu estado melhorou? Não.

A Venezuela assegura que é um “cidadão venezuelano”, algo que não era do conhecimento público quando ocorreu a sua detenção. Tem dupla cidadania? Renunciou à sua nacionalidade colombiana e é apenas venezuelano?

AS – Não tenho a certeza porque é que a minha cidadania precisava de ser “conhecida publicamente”. Sou um funcionário público, mas não sou uma figura pública. Nunca procurei e nem procuro qualquer fama nem reconhecimento público. Sinto-me honrado por me ter tornado um cidadão venezuelano e, como já afirmei em várias ocasiões, sinto orgulho das minhas raízes colombianas, bem como da minha herança libanesa/palestina.

Sou simultaneamente um cidadão venezuelano e colombiano.

Como começou a trabalhar com o governo do Presidente Maduro? Conhecia Maduro antes de ele ser presidente da Venezuela? Em caso afirmativo, como se conheciam?

AS – Estou muito grato aos Presidentes Chávez e Maduro e ao povo venezuelano por me terem dado as oportunidades que me foram surgindo desde 2000. Conheci o Presidente Maduro pela primeira vez quando ele era Ministro dos Negócios Estrangeiros sob o Presidente Chávez.

Comecei a trabalhar com departamentos da República Bolivariana da Venezuela durante o tempo do Presidente Chávez. A partir de 2011, com a construção de um projeto de habitação social, pude demonstrar que posso entregar projetos importantes a tempo e dentro do orçamento.

Os Estados Unidos, em busca do seu alcance judicial extraterritorial politicamente motivado e do bloqueio económico de facto da República Bolivariana da Venezuela, tornaram necessário procurar soluções internas para criar novas cadeias de abastecimento, logística, financiamento e relações comerciais. A experiência que adquiri ao gerir e organizar a logística envolvida no contrato de habitação social foi reconhecida pelo governo do Presidente Maduro e foi-me adjudicado o meu primeiro contrato para me tornar fornecedor do programa alimentar de bem-estar social do governo em 2015. Tenho o prazer de dizer que, mais uma vez, fui capaz de entregar dentro do prazo e do orçamento.

Isto permitiu-me empregar atualmente 100 000 pessoas na Venezuela e noutros locais, em várias empresas que desenvolvi enquanto empresário.

Senti-me honrado e humilde por ter sido nomeado Enviado Especial do Governo Bolivariano da Venezuela em abril de 2018 para continuar a colaborar no fornecimento e abastecimento de alimentos e medicamentos de primeira necessidade. Este é um papel que assumiu maior importância desde o início da epidemia da COVID-19.

Mais recentemente, foi-me atribuída uma responsabilidade adicional ao ser nomeado Representante Permanente Alterno junto da União Africana. Isto não é apenas uma tremenda reconfirmação da confiança do Presidente Maduro em mim, mas também um reflexo da importância que o Presidente Maduro e os seus colegas atribuem ao desenvolvimento de laços com as nações de África para além das relações históricas com os membros africanos da OPEP.

Desde o início da sua detenção em Cabo Verde, que comunicação teve com o Presidente Maduro e outros membros do governo?

AS – Desde que fui sequestrado, não tenho falado com o Presidente Maduro, mas estou encantado por ter recebido, através dos canais oficiais, uma mensagem de apoio e encorajamento pela qual estou grato. Tenho sido também honrado com outras mensagens de apoio de membros superiores do governo.

Os EUA alegam que é um “testa de ferro” do Presidente Maduro e acusam-no de ter lavado, juntamente com o seu parceiro, Álvaro Pulido, até 350 milhões de dólares. O que tem a dizer em relação a isso?

AS – Desde a minha acusação e designação em julho de 2019, os Estados Unidos não conseguiram produzir um único fragmento de prova para apoiar as alegações que foram feitas. Nem um só. A única prova consiste em insinuações e meias-verdades que vieram de testemunhas desacreditadas que receberam em troca a cidadania americana. Os Estados Unidos estão tão embaraçados por terem ouvido os meus chamados coconspiradores que os descrevem como “antigos cidadãos colombianos” no pedido de extradição. Os Estados Unidos não podem sequer reconhecer estes informadores como seus próprios cidadãos, então como podem então depositar alguma confiança nos seus testemunhos?

Permitam-me também salientar que ao pedido de extradição faltam várias páginas, contém um mandado de captura que não está em meu nome e faz alegações sobre pagamentos que totalizam um pouco mais de 300 000 USD a “funcionários corruptos”, que pudemos demonstrar serem pagamentos de contas de cartão de crédito.

Quanto ao número de $350 milhões, acredita realmente que tais somas poderiam passar pelo grande sistema bancário norte-americano e não ser notadas pelos departamentos de fiscalização adequados e sinalizadas se houvesse algo de errado nessa altura? Porque é que estas “transferências suspeitas” só se tornaram públicas cinco anos mais tarde, quando foi útil para o alcance judicial extraterritorial politicamente motivado do regime Trump? A minha equipa de defesa reuniu uma poderosa refutação das alegações e sei que, se chegar a altura, poderemos refutá-las.

Acredita que os Estados Unidos estão a utilizar o seu pedido de extradição como uma forma de atingir o Presidente Maduro?

AS – Repito que não só a minha detenção é ilegal, como também fui sequestrado por Cabo Verde sob as instruções dos Estados Unidos. O facto é que Cabo Verde não podia e não devia ter-me sequestrado. Eu era (e continuo a ser) um Enviado Especial da República Bolivariana que estava a empreender uma Missão Especial humanitária para obter alimentos básicos, medicamentos e equipamento médico muito necessários para o povo da Venezuela. Tenho imunidade e inviolabilidade, tal como estabelecido sob leis seculares que regem o movimento dos diplomatas e agentes políticos. Além disso, desde 24 de dezembro de 2020, a minha imunidade foi reforçada pela minha nomeação para a União Africana.

A minha detenção ilegal e sequestro é completamente motivada politicamente, e é patético que o governo de Cabo Verde se tenha ajoelhado à vontade política dos Estados Unidos em vez de preservar a sua própria dignidade e recusar envolver-se nesta charada de alcance judicial extraterritorial politicamente motivada.

A oposição na Venezuela não governa há mais de 20 anos e não tem noção do que significa governar quando tem de lidar com um bloqueio económico e sanções que não só foram declaradas ilegais pela Relatora Especial das Nações Unidas após a sua recente visita à Venezuela, mas são sem precedentes na história. É preciso liderança e determinação para governar, que é precisamente o que o Presidente Maduro e os seus colegas têm demonstrado.

O Presidente Chávez e agora o Presidente Maduro realizaram eleições a tempo e horas, mas nenhum deles recebeu ainda qualquer reconhecimento pela defesa do processo democrático. Qualquer eleição em que a oposição não ganhe é considerada “não livre e justa”. Assim, a Venezuela vai ser mantida refém até que a resposta “certa” ocorra? Uma e outra vez os verdadeiros venezuelanos, não os que estão sentados nos seus condomínios em Miami, votaram aos milhões no Presidente Maduro.

A Venezuela é abençoada com uma incrível riqueza de recursos naturais. Ouro, petróleo, carvão – a Venezuela tem tudo, mas parece que elementos externos os querem reclamar para si próprios.

Os críticos de sofá politicamente motivados só vêm o que querem ver. Não irão reconhecer o progresso da economia. Basta olhar para a Bolsa de Valores de Caracas que está a atingir novos máximos e é provável que o PIB veja crescimento após anos de números negativos e que as prateleiras dos supermercados estejam relativamente cheias. Tudo isto aconteceu devido à cuidadosa gestão da economia pelo Presidente Maduro através de tempos incrivelmente difíceis causados pelos Estados Unidos.

O pedido para a sua prisão veio do Governo de Donald Trump. O que espera da Administração Biden no seu caso?

AS – O Presidente Biden anunciou que “a América está de volta”! Que os EUA estão prontos “a retomar o seu lugar à cabeça da mesa das nações que respeitam o Estado de Direito e as suas obrigações internacionais”. Os atos falam mais alto do que as palavras, pelo que só posso esperar que os atos do Presidente Biden correspondam às suas palavras.

Considera que Cabo Verde agiu sob pressão dos EUA, detendo-o e não respeitando a imunidade que a Venezuela afirma ter como “Enviado Especial”?

AS – Sim, claro, como disse anteriormente, o meu sequestro é claro e inequívoco.

Se o Tribunal de Justiça da CEDEAO decidir contra o seu processo de extradição, confia em Cabo Verde para cumprir essa decisão?

AS – Se, com a ajuda do Todo-Poderoso, o Tribunal da CEDEAO decidir desta forma, só posso rezar para que o atual regime cabo-verdiano aproveite a oportunidade para salvar o que resta da fachada de “uma democracia africana modelo” e se livrar do feitiço político lançado pelo regime Trump e honrar tal decisão.

Se Cabo Verde finalmente aprovar à sua extradição para os Estados Unidos, estaria disposto a colaborar com o Departamento de Justiça dos Estados Unidos? Acha que continuaria a ter o apoio da Venezuela?

AS – Não, eu não colaboraria com os Estados Unidos.

Em primeiro lugar, não cometi nenhum crime. Os meus advogados e eu, se necessário, lutaremos em todos os tribunais para o provar com o apoio total e inabalável da Venezuela. Em segundo lugar, o Presidente Maduro apenas procurou fazer o melhor para o povo da Venezuela, que luta para fazer face aos problemas causados pelos Estados Unidos, que é algo com que concordo e apoio de todo o coração.

Os únicos culpados aqui são os Estados Unidos, que orquestraram uma campanha de hegemonia política contra a Venezuela.

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