Contacto de Blinken com Rui Figueiredo coloca Cabo Verde no centro da ofensiva americana contra a influência da China na África Ocidental

26/02/2021 22:38 - Modificado em 26/02/2021 22:38
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O telefonema efectuado terça-feira pelo Secretário de Estado norte-americano, Antony Blinken, ao seu homólogo cabo-verdiano Rui Figueiredo, foi o segundo contacto bilateral da nova administração dos Estados Unidos com responsáveis de países africanos, e isso tem um significado especial, de acordo com analistas de política externa e relações internacionais.

Para esses especialistas, Blinken está a mostrar que Cabo Verde é chamado a ocupar um lugar de destaque no xadrez geoestratégico mundial, na lógica da confrontação política, diplomática, comercial e eventualmente militar, que opõe os Estados Unidos e a China, “país que se tem posicionado activamente, com fortes investimentos, no cenário geográfico africano”, visando demarcar uma zona de influência que, neste quadro, lhe possa ser útil no presente e no futuro.

É assim que se interpreta o telefonema feito a Rui Figueiredo por Antony Blinken, que apenas ligou, nesse primeiro contacto formal com o continente, ao seu homólogo sul-africano – o grande aliado dos EUA nesta parte do globo – ao presidente da União Africana e ao Ministro dos Negócios Estrangeiros da Etiópia, além do ministro cabo-verdiano.

Num artigo intitulado “A Grande Competição pelo Poder – Estados Unidos impulsionam diplomacia no mar e em terra, em Africa”, o jornal japonês Asia Nikkei, um dos quatro de maior tiragem naquele país, destaca a importância desse contacto, considerando que “a decisão de telefonar para o arquipélago, antes de outros 52 membros da União Africana, é uma mensagem forte da administração do presidente Joe Biden no sentido de avisar que encara com seriedade o presente jogo de poder com a China”.

A publicação lembra que Cabo Verde é um pequeno Estado Insular com pouco mais de 550.000 habitantes, querendo, com isso, salientar o facto de, apesar da sua pequenez, os Estados Unidos lhe atribuírem, na actual administração, uma importância que os anteriores governos de Washington não lhe reconheceram.

Tomando como pano de fundo as relações comerciais que a China vem estabelecendo, em crescente dinâmica, com a África, os investimentos feitos em várias áreas, nomeadamente a das infra-estruturas, e os apoios financeiros em regime de doacções e empréstimos, concedidos aos países africanos, o Asia Nikkei ilustra a ofensiva chinesa na parte ocidental do continente, mas dando conta do despertar do Governo dos Estados Unidos para essa realidade. 

A iniciativa de Blinken, segundo aquele jornal, configura uma nova atitude e significa o lançar de uma nova visão sobre Cabo Verde, apresentado como um excelente hub estratégico em pleno Oceano Atlântico, para abastecimento, tanto de barcos como de aviões, numa perspectiva comercial e de investimentos, mas igualmente do ponto de vista militar.

A esse propósito, o Asia Nikkei recorda que a China implantou a sua primeira base militar extraterritorial no Djibouti, na costa leste-africana, dando a entender que poderá estar nos seus planos utilizar também Cabo Verde para o mesmo fim, na costa ocidental do continente.   

“Garantir o acesso às ilhas será uma vitória geopolítica para Washington ou Pequim” assegura o artigo do Asia Nikkei, que cita os elogios feitos pelo Secretário de Estado norte-americano à governação e à democracia cabo-verdianas como uma tentativa de chamar a si as simpatias dos dirigentes cabo-verdianos tendo em vista um futuro entendimento e compromisso naquele sentido.

De momento, apenas se fala, de acordo com um porta-voz da Secretaria de Estado dos EUA citado pelo jornal, de um “diálogo bilateral planeado” para “identificar prioridades compartilhadas, expandir as relações comerciais e fortalecer a parceria de segurança”, acrescentou, mas o que estará por detrás de tudo isso será algo muito maior, cujas bases foram já lançadas, refere o aludido artigo, que dá o exemplo do acordo SOFA, que vincula os dois países desde 2017.

O Asia Nikkei fala igualmente dos múltiplos projectos de cooperação protagonizados no domínio da segurança pelos dois países, através de acções concretas implicando visitas de vasos de guerra americanos aos portos de Cabo Verde, manobras navais e operações de vigilância e protecção levadas a cabo por embarcações e aeronaves dos Estados Unidos nos espaços marítimos e aéreos de Cabo Verde.

“Mas a importância geopolítica de Cabo Verde parece aumentar cada vez mais à medida que os EUA e a China intensificam o jogo de xadrez visando a projecção do seu poder marítimo” considera o jornal, que recorda as palavras do senador republicano Mitt Romney numa audiência do Comitê de Relações Exteriores do Senado em 2019: “Claramente, a localização geográfica desta Nação [Cabo Verde] é de grande importância estratégica para quem queira expandir o seu comércio marítimo ou, talvez até, projectar a sua ambição naval”.

O Asia Nikkei cita igualmente Lauren Johnston, investigadora associada do centro de pesquisas chinesas do Instituto da Universidade de Londres, para quem “qualquer país com bom posicionamento é importante para uma agenda de conquista do poder marítimo”. Aquela especialista recorda que a China pretende investir 1 bilião de dólares num novo porto de águas profundas e em instalações marítimas no Senegal, o que, na sua opinião, “torna Cabo Verde ainda mais importante do que antes” para os interesses norte-americanos na região.

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