Sal: Pescadores de Santa Maria entre a “agonia, fome e desespero” causados pela pandemia e “tuninhas”

26/02/2021 01:45 - Modificado em 26/02/2021 01:45

Os pescadores manifestaram-se à frente da Associação de Pescas, na cidade turística de Santa Maria, na ilha do Sal, visando alertar as autoridades da situação de “desespero” por que passam, por conta da pandemia de COVID-19, agora complicada pelos ataques de “tuninhas”, no mar de Santa Maria impossibilitando- lhes de exercerem a sua faina diária.

Segundo, Abílio Lima, presidente de Associação de Pescadores e também, armador, há quatro anos que os “tuninhas” chegaram ao mar de Santa Maria, mas nos últimos tempos tem sido impossível conseguir uma faina, porque atacam todo e qualquer peixe e, por conta disto, os pescadores não têm conseguido tirar o seu sustento.

“Quando aqui chegaram os “tuninhas” comiam pouco peixe, mas nos últimos cinco meses os pescadores vão ao mar e praticamente sempre voltam com as mãos a abanar, porque eles atacam os peixes e deixam apenas as cabeças. Como armador tem sido muito frustrante e complicado, porque se conseguirem as vezes uns 2.000$00 mil escudos na venda do pescado, este vai praticamente em combustível. Se sobejar 1.000$00 escudos, não tenho coragem de os tirar, porque eles precisam comer. Tenho também as minhas responsabilidades, logo se for apenas eu a custear o combustível, fica impossível ajudá-los. E, estou a ficar sem onde recorrer”, desabafa.


Herculano Violante, armador de pesca artesanal, vive no Sal desde 1982, e diz, nunca antes ter passado por uma situação de tamanho desespero em termos de pesca.

“Uma situação como esta, ainda complicada com pandemia, deixa-nos sem opções. Sabemos que as autoridades não podem acabar com os “tuninhas”, mas devem procurar fazer alguma coisa para auxiliar pescadores e armadores. Tem que haver alguma iniciativa, porque daqui a alguns dias vamos ter pessoas a morrer. Temos gente a passar fome em Santa Maria, ainda com responsabilidades familiares.” alerta o sr. Herculano, avançando que no seu caso, tem uma renda mensal de 35 mil escudos por pagar e a
proprietária já chegou chamou as autoridades por falta de pagamento.


Dizem ainda que há mais de três meses que vivem no sufoco, sem qualquer apoio, mesmo depois de no início da pandemia o Governo, através da Câmara Municipal, ter solicitado a documentação de todos para atribuir algum subsídio que até agora não receberam.

“A Câmara deu algumas cestas básicas há cerca de quatro meses, mas desta data para cá, não temos recebido nada. Estamos com famílias a passar fome em Santa Maria. Eu tenho o bote no mar, tenho a minha própria casa e estou a passar por aperto, imagina eles que dependem apenas disto”, alerta, André Lima, que é armador, explicando que estão a viver completamente abandonados à sua própria sorte.

“Tenho notado que há sempre apoio a pescadores e armadores nas outras ilhas do país e aqui no Sal ficamos sempre para trás. Sabemos que não podem resolver tudo, mas é uma tremenda injustiça resolver para alguns e deixar outros filhos na agonia. Estamos numa situação de desespero, não há mais trabalho diante destas duas desgraças [Covid-19 e “Tuninhas”]. Eu tinha algumas economias, mas, agora, nada tenho. Começo a entrar em aflição, imagine como estão os pescadores”, sublinha lançando um apelo ao governantes pela situação desastrosa desta classe na ilha.

A mesma opinião tem o pescador, Bernardino Dias, que vive no Sal há mais de 23 anos.
“Dos meus 23 anos aqui, nunca recebi nada dos governantes. Sempre vivemos com o que temos. Vejo como muitos dos meus colegas que viviam aqui e depois foram para a cidade da Praia e todos já têm barco e melhores condições, mas aqui no Sal, nada. Ninguém, nos ajuda. Nós sofremos muito, porque ninguém quer saber de nós”, desabafa.

“As coisas estão deveras difíceis aqui em Santa Maria e ninguém quer reparar na situação dramática em que estamos vivendo. Têm de entender que não temos por onde recorrer. Temos filhos, renda e responsabilidades. Hoje em dia é assim. Se tiver para comer comemos, se não tiver é deitar e dormir com a barriga vazia”, conta com tristeza nos olhos, Ary Fernandes, também ele pescador.


“As peixeiras têm mais direito do que nós? Nós estamos a sofrer, são várias horas no mar para depois não ter nada. Normalmente socorremos uns aos outros, mas nem isso já conseguimos fazer, porque temos um “inimigo” em terra e no mar agora”, desabafa revoltado, Aditon Gabriel, pescador, lembrando que no início da pandemia, foi atribuído a um grupo de peixeiras 10 mil escudos e a eles nada, considerando ser uma injustiça, visto que são os únicos que arriscam a vida no mar para ter peixe para ser vendido.

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