“Recuperei da Covid em casa. Nunca fui medicado”

18/02/2021 23:53 - Modificado em 18/02/2021 23:54

“Estive quase duas semanas com sintomas à procura dos serviços de saúde e apenas 10 dias depois, consegui fazer o teste de PCR e ter os resultados da confirmação… Minha mulher e filhas, nunca foram testadas, recebi alta por telefone… Nunca recebi nenhuma indicação de tratamento ou medicamento. Fiz como eu pude, sem saber como seria o dia de amanha…”, este é um depoimento de um recuperado de Covid-19 em São Vicente.

Até a tarde desta quinta-feira (18), Cabo Verde tinha confirmado 345 casos ativos de Covid-19 e 14.393 casos recuperados da doença.

São Vicente tem neste momento 2.079 recuperados. Não são só números. São pessoas que venceram a Covid-19, doença causada pelo novo coronavírus (Sars-CoV-2) e que, aliviadas, embora muitos tenham ficado com fortes sequelas, vão contando como foi a experiencia.

“Atualmente não consigo andar mais de 10 minutos sem me cansar. Antes podia correr por vários minutos e manter muita energia”, começa por nos dizer o nosso entrevistado

Em dezembro, no final do ano, “Pedro”, que não quis se identificar publicamente devido a sua profissão, conta que começou a notar alguns dos sintomas que ninguém deseja durante a pandemia da covid-19: febre, dor no corpo, falta de apetite e dores de barriga.

Ele que faz parte dos recuperados da covid-19 na ilha de São Vicente, diz que apesar de ter sido dado como “recuperado”, este não é o fim da doença. Ela pode representar a transição para uma progressão de etapas e que durante este tempo, as sequelas, como falta de ar constante, dor no corpo e cansaço sejam algumas delas.

Pedro faz parte do grupo de doentes que ficou em casa, isolado durante 11 dias, tempo estabelecido pelas entidades de saúde para que a pessoa deixe de ser transmissora do vírus. Durante este tempo contou apenas com a família e se automedicou-se, não tendo em nenhum momento recebido uma prescrição médica de como enfrentar a doença, isto segundo o seu relato.

Atleta, praticante de desportos, enfrentou várias cirurgias ao longo da vida e apesar deste histórico, foi surpreendido por um adversário que pela primeira vez, o deixou com medo.

Conta que não sabe como é que foi contaminado. Se foi por contacto directo com familiares que testaram positivo, se foi no trabalho, ou entre amigos, embora suspeita da primeira hipótese, diz que começou no dia 31 de dezembro a sentir fortes dores nas costas, mas que pensou que poderia ser excesso de trabalho.

No entanto, dois dias depois piorou, as dores atravessaram todo o corpo, começou a sentir febre, dores de cabeça e indisposição foram outros sintomas notados.

Foi assim que optou por ligar para a linha de Covid-19 e descrever os sintomas, e após ser ouvido, foi aconselhado a dirigir-se ao Centro de Estágio. “Cheguei ao local, expliquei a situação, mas como o meu nome não estava na lista, embora estivesse com muita febre, dificuldade em respirar e os sintomas acima referidos, a enfermeira que me atendeu disse, não poderiam fazer nada por mim e que deveria ira ao Banco de Urgência do Hospital Baptista de Sousa”, explica.

Ao chegar ao Banco de Urgência, tomaram os seus dados à entrada, mas “como não tinha tosse não foi isolado como os restantes suspeitos, embora suspeitasse que estava infetado”.

Relata que pouco antes de ser chamado bebeu um sumo de manga. Ao entrar explicou os sintomas ao médico e ao ser examinado, este disse-lhe que estava com a garganta infetada. “Acredito que quando viu a cor meio alaranjada, confundiu os sintomas” e receitou alguns remédios para a patologia. E sobre as dores, o médico afirmou que eram devido a tosse, embora este não fosse um dos sintomas. “Quando temos infeção na garganta, pode causar outras dores e que poderia ira para casa e tomasse os remédios”, cita as alegadas declarações do médico.

Ficou dois dias em casa a tomar os remédios, ao segundo dia voltou a piorar e teve de se dirigir ao hospital novamente. “Neste dia não sentia quase nenhum cheiro e o meu paladar estava horrível”. Apesar de tudo isso, aliado aos outros sintomas, o teste rápido deu negativo.

“Mas não estava satisfeito com os resultados e falei com a médica, que admitiu que os sintomas, são suspeitos de covid-19, mas que não seria submetido ao PCR, porque estavam a seguir o protocolo”, desabafa o nosso interlocutor que se disse decepcionado.

De regresso a casa, passou o fim de semana, mas na segunda-feira, a saga continua. “Neste dia, já não sentia nenhum cheiro, ou gosto e as dores no corpo estavam mais constantes, tinha febre e cansaço”.

Optou por se dirigir ao Centro de Saúde de Fonte Inês, onde expôs a sua situação. “Conversei com uma enfermeira que tomou meu contacto telefónico e me mandou para casa”, refere “Pedro”, que diz já não sabia o que fazer, mas felizmente uma hora depois foi contactado por uma médica que o encaminhou para o Centro de Estágio, para fazer o teste no dia seguinte, isso na terça-feira. “Desta vez o meu nome já estava ali”, ri de forma irónica.

Dois dias depois veio a confirmação do resultado, estava com Covid-19 e que deveria ficar em isolamento em casa durante 11 dias. Isso após 12 dias, de dores e sofrimento.

Agora é que começa outra situação. Preocupado com a família, já que vive com a mulher e duas filhas, solicitou, já que ouviu pela Direcção Nacional de Saúde que os contactos diretos devem ser testados.

Entretanto, foi-lhe informado que não iriam fazer testes, porque não tinham e que seriam considerados positivos. “A minha mulher trabalha num local onde tem contacto com várias pessoas. As minhas filhas estudam e uma delas nasceu com um problema respiratório, mas nada disso foi levado em conta”, critica esta atitude dos serviços de saúde que após várias insistências conseguiu que uma das filhas fosse testada. O resultado, no entanto, foi inconclusivo e não repetiram e que segundo a enfermeira, a filha poderia seguir a vida e regressar à escola. “Mas nunca soubemos se tinha ou não e optamos por ficar todos em casa durante o tempo estabelecido”.

Passado este tempo de confinamento, eis que recebe alta. “Um funcionário, nem enfermeiro, nem médico, deu-me alta”.

Irritado com toda a situação. “Mas alta de quê, se em nenhum momento, tive acompanhamento, tratamento, medicamentos e exames”.

No entanto, no dia 25 janeiro regressou ao trabalho e dois dias depois, após caminhar até ao posto de trabalho, as dores que não tinham desaparecido voltaram mais fortes e um aperto no peito o fez cair no chão.

Ao regressar ao hospital, foi-lhe informado, não examinado e analisado, que estes eram sintomas pós-covid.

Após todo o desabafo, o nosso entrevistado, apela aos serviços de saúde mais humanização nesta questão, embora entenda que estão sobrecarregados, mas pede encarecidamente que os protocolos de contacto direto devem ser cumpridos. “O que não aconteceu no meu caso”, declara.

São muitos os Pedros ou Marias que carregam histórias de vida e superação diante de uma doença contagiosa.

São Vicente tem neste momento 2.177 casos acumulados da doença e 2.103 recuperados, visto que nas últimas 24 horas mais 24 pessoas receberam alta do isolamento.

O país contabiliza neste momento 345 casos ativos, 14.393 casos recuperados, 142 óbitos, 3 óbitos por outras causas e 2 transferidos, perfazendo um total de 14.885 casos positivos acumulados.

Elvis Carvalho

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