“Bairros” de lata continuam a crescer em São Vicente

24/01/2021 23:19 - Modificado em 24/01/2021 23:19
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Os “bairros de lata”, são a demonstração mais intensa de pobreza e desigualdade social presente em meios rurais, mas sobretudo em meios urbanos.

Novos empreendimentos em edificação em São Vicente, Mindelo estão a marcar algumas mudanças na cidade que cresce verticalmente. Na periferia, nas encostas dos bairros, onde não se vê ao longe, a não ser se nos dirigirmos ao local, os bairros de lata, continuam a crescer a bom ritmo. São as zonas mais desfavorecidas na ilha.

Na passada sexta-feira, 22 janeiro, a ilha celebrou os 559 anos do seu descobrimento e, após mais de meio milénio, o problema habitacional continua a ser um dos obstáculos do governo e da edilidade que querem ver o problema resolvido.

De acordo com o presidente da Câmara Municipal de São Vicente, Augusto Neves, na sessão solene do dia da ilha, no contexto atual, o mandato será voltado para a “problemática da habitação”, com a construção de mais habitações para famílias vulneráveis e para os jovens, pois representam um “fator fundamental de inclusão social e produtiva”.

E volvidos 11 anos, da implementação do Programa governamental “Casa para Todos” que visava promover perto de 20 mil habitações, bem como outros programas municipais, através do qual se pretendia erradicar bairros de barracas e realojar os seus moradores, ainda há milhares de famílias a viverem em condições precárias.

Por estarem desempregados ou por terem rendimento insuficiente, não estão em condições de suportar os custos de um apartamento ou outra moradia.

No bairro de Portelinha, em Ribeira de Craquinha, por exemplo está a ser erigido um projecto, que prevê a construção de 88 habitações tipo T2, divididos em quatro blocos. E mesmo ao lado, crescem a bom ritmo várias construções de barracas que albergam dezenas de famílias.

Em Monte Sossego, sob diferente contexto, nas encostas da zona mas populosa da ilha a situação de moradias de latas a serem levantadas todos os dias para servirem de abrigo a jovens que, desempregados e sem rendimento construíram as suas moradias para fugir das noites a céu aberto e ter um local, onde “meter a cabeça”.

Em Ribeirinha a situação é idêntica, é sempre nas encostas que se encontram o maior número de casas de “tambor”, numa situação que se repete em Espia, Ribeira de Julião, Chã de Alecrim, Pedra Rolada, Pedreira, entre outros bairros. Histórias semelhantes de uma realidade longe dos olhares da cidade.

Segundo os moradores, quando chove, duas coisas acontecem. As casas ficam inundadas e, se for a noite, as pessoas não dormem. O nosso entrevistado na zona de Pedra Rolada, que construiu a sua moradia numa das encostas, e que quis ser identificado apenas por “Kelton”.

Kelton, a mãe e a irmã moram numa destas casas de tambor. Há quase seis anos, que vivem neste aglomerado de casas pobres, sem infra-estruturas fundamentais, são normalmente habitado por pessoas carenciadas, dizem que a vida os empurrou para esta situação.

A mãe devido a problemas familiares, acabou por perder o emprego e como consequência, sem rendimentos viram-se obrigados a sair do local e a solução, foi erguer uma casa de tambor.

“Estou desemprego e sem trabalho fixo para arranjar um espaço onde posso pagar renda e ter as mínimas condições de habitabilidade”, explica Kelton, que tem a mãe doente e uma irmã menor para ajudar a sustentar.

Apesar da situação, diz-se confortável entre as pessoas no ‘bairro de lata’, apesar dos pesares. “Não temos saneamento, as condições de habitabilidade são poucas”, refere o jovem de 28 anos, que conta ainda que também que os moradores não têm água nas suas próprias casas, apesar de terem luz.

“O que acontece é que têm uma conta de luz que está no nome de outro morador e que, “partilha” electricidade com os restantes moradores do bairro, o que, considera seu uma situação complicada porque alguns moradores, por acreditarem que por possuírem apenas uma televisão não devem pagar igual a outro, que por exemplo tem frigorifico, retrata.

Uma situação que leva muitos ao roubo de energia e fugirem da responsabilidade de pagar uma conta de luz. “Assim ninguém se mete em confusão”, explica.

Os moradores reclamam casas condignas e insistem junto da Câmara Municipal, alegando que por várias vezes já se dirigiram à câmara, mas a promessa que sempre ouvem todos os anos “é que vão resolver e até então, não resolveram nada mesmo”.

EC

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