O Caso Caeser DePaço: A intervenção na campanha eleitoral dos atores ocultos da conexão portuguesa

21/01/2021 15:56 - Modificado em 21/01/2021 15:56
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CaeserDePaço e esposa com Marcelo Rebelo de Sousa, Presidente da República
de Portugal

No passado dia 12 de janeiro, Luís Filipe Tavares, vice-presidente do MpD, apresentou a sua demissão do cargo de Ministro da Defesa e dos Negócios Estrangeiros, depois da emissão de um programa pela estação televisiva SIC, de Portugal, sobre as ligações do recém-empossado cônsul honorário de Cabo Verde na Flórida, Caeser DePaço, ao partido Chega, conotado com a extrema-direita portuguesa.

O pedido de exoneração prontamente aceite pelo Primeiro-Ministro, Ulisses Correia da Silva, visou encerrar de imediato qualquer leitura política que confundisse o Governo de Cabo Verde com o partido Chega de Portugal.

Num comunicado emitido pelo próprio Luís Filipe Tavares, o ex-governante justificou a escolha de Caeser DePaço com base no facto de, até à sua recente nomeação, todas as referências recolhidas indicarem o visado como uma pessoa idónea, um empresário de sucesso nos EUA, proprietário da empresa Summit Nutritionals e detentor da Fundação DePaço.

Para além disso, Caeser DePaço havia sido cônsul honorário de Portugal em Palm Cost, entre 2014 e 2020, enquanto a sua esposa, Deanna Padovani DePaço, era coordenadora-geral do partido português CDS-PP na América do Norte, desde julho de 2019. O casal era aliás conviva do poder político em Portugal, incluindo membros do partido do Governo, como o Secretário-Geral Adjunto do Partido Socialista, José Luís Carneiro.

CaeserDePaço com José Luís Carneiro, deputado e Secretário-Geral Adjunto do Partido Socialista português

Sendo certo de que o poder de nomeação de cônsul honorário é da inteira responsabilidade do Ministro dos Negócios Estrangeiros, Luís Filipe Tavares refutou qualquer relação desta escolha com as filiações políticas de Caeser DePaço em Portugal e nos EUA.

A critica quanto ao facto do Cesar DePaço ser um cidadão estrangeiro não é relevante pois de um total de 60 consulos honorário nomeados pelos sucessivos governos 41 são estrangeiros, pois o que se pretende é recorrer a cidadãos nos países de destino com notoriedade, relevante penetração social e que, com recursos próprios, possam implementar uma política de atração de investimentos para Cabo Verde.

Como declarou publicamente o Embaixador Americano na Praia, o pedido feito pelo Ministério dos Negócios Estrangeiros para nomeação do sr. DePaço como cônsul honorário, obteve a aprovação dos Estados Unidos da América (Exequator) por não existir naquele país qualquer elemento que ponha em causa a idoneidade e a seriedade deste cidadão. Apesar disto e lamentavelmente, é a própria comunicação social pública de Cabo Verde que se refere a DePaço como sendo “financiador do partido político Chega e simpatizante da extrema direita americana de entre outros crimes”, evidenciando uma clara tomada de posição sem fundamentação factual.

As consequências políticas deste episódio, conhecidas no dia em que o Presidente da República agendou as datas dos próximos atos eleitorais em Cabo Verde, podem não ser uma mera casualidade.

Apesar da imediata demissão do Ministro dos Negócios Estrangeiros e das explicações dadas por ele próprio, o PAICV, através da sua líder e do líder da bancada parlamentar exigiram de imediato explicações ao próprio Primeiro-Ministro havendo ainda tentativas de envolver no processo o antigo Embaixador de Cabo Verde nos Estados Unidos, Dr. Carlos Veiga.

Conforme já declarado pelo próprio, foi o cidadão Cabo-Verdianos, Cristiano Monteiro, residente de longa data nos Estados Unidos, que apresentou o multimilionário Cesar DePaço ao então embaixador Carlos Veiga com o propósito de possíveis investimentos e outras ajudas a Cabo Verde. Por seu lado, de acordo com as funções que exercia, o então embaixador, proporcionou um encontro com o Ministro. Nesta altura, era do conhecimento geral as ligações políticas do casal DePaço com o CDS-PP, partido do arco do poder em Portugal, do qual a esposa era coordenadora-geral para a América do Norte.

Deanna dePaço assume coordenação-geral do CDS-PP na América do Norte

A repercussão sobre a nomeação de Caeser DoPaço como cônsul honorário de Cabo Verde marcou o início das campanhas eleitorais para as eleições cujas datas foram fixadas nesse mesmo dia.

Sabe-se agora que a estação televisiva SIC terá adiado  a emissão da segunda parte da reportagem sobre o partido português Chega, curiosamente, para a véspera do anúncio das datas das eleições legislativas e presidenciais em Cabo Verde.

Estas especulações são baseadas nas  conhecidas as ligações entre o patrão da SIC e ex-Primeiro-Ministro de Portugal, Francisco Pinto Balsemão, e o ex-Primeiro-Ministro de Cabo Verde e putativo candidato às próximas eleições Presidências, José Maria Neves.

Balsemão e José Maria Neves: Um diálogo transformado em livro

Estas especulações são baseadas nas  conhecidas as ligações entre o patrão da SIC e ex-Primeiro-Ministro de Portugal, Francisco Pinto Balsemão, e o ex-Primeiro-Ministro de Cabo Verde e putativo candidato às próximas eleições Presidências, José Maria Neves e na convicção que em política, normalmente o que parece ser é. E a teoria da conspiração usada pelos políticos com arma política para confundir a realidade com os desejos e a ficção ganha peso quando se é público e notório que Balsemão está ligado à Fundação de José Maria das Neves, para a qual tem participado em várias atividades, tendo ainda dado origem à publicação de um livro conjunto: Democracia e Governança – Um Futuro a Construir, da autoria dos dois antigos governantes entre os quais existe uma relação como é do conhecimento público.

Pode ser que em política não existam coincidências, nem almoços grátis  mas certo é que a partir de Portugal foi dado o tiro de partida para as campanhas eleitorais em Cabo Verde e espera-se que este episódio não se torne numa reiterada ingerência de atores externos, sejam eles canais de informação, partidos políticos, personalidades ou outros.

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