Agentes culturais do Mindelo aderem em massa à manifestação e pedem retoma das actividades culturais na ilha

14/01/2021 23:21 - Modificado em 14/01/2021 23:21
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Os agentes culturais de São Vicente aderiram em massa à manifestação que ocorreu na tarde desta quinta-feira, na Praça Dom Luís em Mindelo, insurgindo-se contra uma “política cultural mal organizada e com base no silêncio” que faz com que a cultura esteja de “luto”.

Trajados de t-shirt preta, os produtores, músicos, atores, casas de actividades nocturnas e outros profissionais da cultura em São Vicente marcaram presença nesta manifestação para mostrar desagrado perante o Governo, visto que há 10 meses estão parados e sem nenhum feed back.

Em declarações ao NN, João Branco, salienta que este cenário atual tem mexido com todas as classes culturais, e tem provocado “danos transversais” a todos, inclusive ao teatro. “Estou aqui para demonstrar a minha solidariedade e preocupação, porque não tem a ver com nenhum Governo, mas sim uma questão estrutural que tem que ser visto do ponto de vista do futuro de Cabo Verde e a cultura tem que ter um peso na projecção da imagem no exterior” sustenta.

Para este nosso entrevistado, a cultura não tem sido ressarcida da colaboração que tem dado ao país, independentemente de que o país esteja sob uma pandemia. “O bolo do Orçamento do Estado para o sector da cultura tem que ser revisto. O facto é que aquela verba que tem sido dada à cultura tem sido ridiculamente baixa. A luta não tem a ver só com a pandemia, de como vamos colocar comida na mesa, mas também a nível estrutural de discussões dos próximos orçamentos para o sector da cultura” explica.

Por sua vez, João Brito “Boss”, acrescenta que a cultura está em falta no país e, para quem vive sobretudo da arte, acaba por falhar a nível familiar e profissional. “Estou aqui porque senti durante muito tempo, não só pela pandemia, afastado de qualquer acção cultural promovida pelo Governo. Como artista plástico não temos visto nada voltado para a classe” aclara.

Este artista voltado sobretudo para o Carnaval, culpa o Governo pela situação actual dos artistas, vincando que quem esteve no seu ateliê no mês de fevereiro do ano passado, sentirá “triste” se for visitá-lo agora.

“Vendi as mesas e cadeiras para conseguir pagar a renda. Vendi também todos os meus equipamentos electrónicos. Acho que aquela história do Ministério da Cultura, de dar 10 mil escudos às pessoas que fizeram o live foi mal feita” assegura “Boss”, para quem o Governo não conhece realmente quem são artistas e que vivem somente da arte e por isso sente-se “triste” por não ser reconhecido pelo MCIC.

Já o DJ Ary, vinca que é estranho vermos alguns espaços a retomarem as actividades e outros aos quais ainda não foi dada luz verde, o que condiciona os artistas. “Tenho filhos e para além disso tenho uma deficiência, o que condiciona muitas coisas. Quero que arranjem maneira de trabalharmos também” salienta este DJ que já tem quase 17 anos de carreira.

Ary, revela que apesar das “muitas dificuldades” vivenciadas ao longo dos últimos 10 meses, conseguiu no mês de dezembro três dias de trabalho, que o ajudou a proporcionar um natal diferente a sua família, mas diz-se na esperança que venham soluções para a classe cultural.

Pretende-se, com esta manifestação, sensibilizar as autoridades e os cabo-verdianos, para a real dimensão desta indústria criativa e as consequências e impacto sócio-económico de um “sector esquecido pelas entidades competentes”.

Durante a manifestação dos Agentes Culturais em São Vicente, foram proferidas frases como “Cultura é essencial”, “Cultura é rosto de Cabo Verde”, “Cultura está de luto”, “Cultura não pode ser cancelada” e “Cultura tem sodade”.

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