Editorial: Chega! Como foi possível?

12/01/2021 15:03 - Modificado em 12/01/2021 15:11

O Chega escolheu Cabo Verde para cravar a sua lança em África: contaminando a diplomacia de um país que sempre evitou entrar em derivas manhosas, pondo em causa pergaminhos laboriosamente construídos ao longo de décadas de uma política externa pragmática e intoxicando a relação de confiança com um sector de governação que – salvo nos últimos tempos – sempre mereceu a mais positiva das apreciações da parte dos cidadãos nacionais.

Foi, pois, com surpresa que os cabo-verdianos ficaram a saber da ligação do Governo da República ao Chega, por via da representação do país na Flórida, nos Estados Unidos, por um dos mais destacados membros e financiadores do partido de André Ventura. César de Paço foi nomeado, há alguns meses, Cônsul Honorário de Cabo Verde em Palm Coast, forjando-se, assim, uma relação formal e vinculativa deste nosso arquipélago àquela controversa figura da diáspora lusa nos EUA, com um passado ligado a um processo-crime julgado por contumácia.  

Mas como é que um país como Cabo Verde chega a uma situação destas, a uma relação tão improvável quanto íntima com um partido racista, chauvinista, fascista e nacionalista, de um país onde, em termos de tolerância e integração socio-economica e cultural, os nossos imigrantes não vivem no melhor dos mundos? Amizades pessoais, a partilha de princípios ideológicos, a existência de relações comuns, perspectivas de negócios lucrativos para as partes em presença e vários outros factores poderão responder a esta questão, mas ainda assim em termos bem pouco convincentes.

O elemento mais em evidência, até prova em contrário, é a actual liderança da política externa cabo-verdiana, que tem em Luís Filipe Tavares – o ministro dos Negócios Estrangeiros – um condutor pouco hábil que trabalha à revelia, e mesmo em oposição frontal às tradições da diplomacia nacional, e não se coíbe de linkar Cabo Verde às situações mais incongruentes e defensáveis para o comum dos cidadãos.

Vários, para não se dizer inúmeros, têm sido os casos em que se apontam ao MNE decisões no mínimo duvidosas ou, no máximo, completamente nocivas aos interesses de Cabo Verde. Dentro do seu próprio ministério, os detentores de toda a reserva profissional e moral e de todo o manancial de experiência acumulada ao longo de quase 5 décadas de Cabo Verde independente, são unânimes em condenar as derivas do ministro, que parece ser, em matéria de política externa, a única cabeça pensante do seu Governo.

E é estranho que assim seja quando se sabe que a governança de Cabo Verde passa, em grande medida, pela sua diplomacia e pela imagem que do país têm os seus parceiros externos. Daí toda a estranheza e a enorme estupefacção que as ligações, até agora sem qualquer dessmendito, do Governo de Cabo Verde ao partido de André Ventura provocaram no mais vasto espectro do espaço de opinião pública em Cabo Verde.

Mas tudo o que se possa dizer para justificar o alinhamento e a amizade da diplomacia (em regra uma das mais nobres atividades governativas) cabo-verdiana com essa aberração que é o Chega não é nada comparada com um coisa simples mas inalienável: a decência. É isso que se deve ter em conta em primeiro lugar, é o que, no fim de tudo, faz a diferença.  

Afinal, o Chega não passa, para um país como Cabo Verde, de uma coisa pequena, venenosa e contra-natura. Indo mais longe, André Ventura, com os seus acólitos, os seus refugos políticos e a sua ideologia (ou falta dela), simbolizam tudo o que Cabo Verde não representa: uma sociedade plural, uma cultura mestiça, um ideal de direitos, liberdades e garantias, uma visão de diálogo interno e com o mundo, um espaço de vivência sem intolerância nem racismo.

E se é isso que nós, cabo-verdianos, queremos, temos de o saber exigir, num nível de elevada práxis, aos governos da República, àqueles que nos representam perante o mundo.

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