Morreu Celina Pereira

17/12/2020 20:57 - Modificado em 17/12/2020 20:59
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No dia em que a rainha da morna, Cesária Évora, completa 9 anos de desaparecimento físico, morreu em Lisboa, vítima de doença prolongada, Celina Pereira.

A cantora cabo-verdiana foi uma das que mais lutou pela elevação da Morna a Património Mundial da Humanidade.

Com uma imagem marcante, olhos verdes e olhar penetrante, uma das maiores figuras da música de Cabo Verde, desaparece fisicamente a 17 de Dezembro de 2020. Uma data que está na história do país com o desaparecimento de outra diva nacional.

Celina Pereira foi uma das impulsionadoras da ideia que levou o Governo de Cabo Verde a propor à UNESCO a classificação da morna como Património Imaterial da Humanidade, reconhece a cantora cabo-verdiana e amiga Ana Firmino. “Aliás, a ideia parece que partiu dela. Portanto, ela é um elemento fundamental neste percurso”, sublinha.

Celina Pereira, natural da ilha da Boa Vista, herdou a veia artística da família e com uma cultura muito vasta em relação às músicas de Cabo Verde, que sempre tentou passar às novas gerações, salienta Ana Firmino em declarações a DW África. “Todos nós aprendemos e continuamos a aprender com Celina Pereira. Tenho uma grande admiração pela Celina”, diz.

“Ela cantava morna, rabolo, mazurca, batuque e funaná, passava pelos estilos todos de Cabo Verde”, precisa Humberto Ramos. “Ela é transversal”, elogia o músico, lembrando que os seus concertos eram didácticos e isso diferencia-a de outros artistas. “Ela não fazia só morna e coladeira. Fazia quase todos os estilos de música de Cabo Verde e explicando às pessoas cada estilo. E que podia transmitia aos mais novos coisas que desconheciam em termos tradicionais, em termos de poesia, em termos de histórias também.”

Natural da Ilha da Boa Vista, Celina Pereira veio com a sua família para São Vicente quando contava apenas seis anos de idade. Da sua família herdou a veia artística. O avô paterno, pai de 17 filhos e padre católico, era filólogo, poeta, músico e pintor. Um homem que soube transmitir a sua enorme sabedoria e talento aos seus filhos.

Celina Pereira, menina de 8 anos, começou a cantar como solista do orfeão, na igreja protestante. Seguiu-se o “Eden Parque”, no Mindelo, e os seus Serões para Trabalhadores, sempre às escondidas do pai. A sua primeira atuação profissional foi em 1968, com 25 anos, a convite do Grupo Ritmos Cabo-Verdianos. Seguiram-se os convites do Bana para atuações nos saraus que organizava.

Em Portugal, a sua primeira atuação na televisão foi no programa “Arroz Doce” de Júlio Isidro, onde conheceu Eunice Muñoz e Marina Mota que atuavam como residentes. Isto, por ocasião da promoção do disco “Mar Azul – Cantá Mudjers”, resultante do 1º Festival de Vozes Femininas, organizado pela OMCV – Organização das Mulheres de Cabo Verde.

O seu primeiro single foi editado em 1979 pela etiqueta Discos Monte Cara de Bana. Em 1986 é editado o seu primeiro disco, “Força di Cretcheu”, com arranjos e direcção musical de Paulino Vieira, que inclui histórias e cantigas de roda, brincadeira, casamento e trabalho.

Em 1990 lançou o LP “Estória, Estória… No Arquipélago das Maravilhas” que contou com a colaboração de Paulino Vieira. Iniciou um trabalho de contadora de estórias em 1991, nos Estados Unidos.

Edita pela editora francesa Melódie, em 1993, o álbum “Nós Tradição”. No disco “Harpejos e Gorjeios”, editado em 1998, canta em crioulo e português. Contou com a direcção musical de Zé Afonso. Interpreta a morna “Bejo de Sodade”, da autoria de B. Leza, com o fadista Carlos Zel.

Colabora com Martinho da Vila no tema “Nutridinha (nutridinha do sal) do disco “Lusofonia” de 2000.

“Estória, Estória…” foi reeditado em CD e em formato audiolivro (livro/cassete) tendo vários prémios internacionais.

Foi condecorada, em 2003, com a medalha de mérito – grau comendadora – pelo presidente português, Jorge Sampaio, pelo seu trabalho na área da educação e da cultura cabo-verdiana.

“Estória, Estória… do Tambor a Blimundo” é um áudio-livro que pretende recuperar o património expressivo das histórias e jogos de roda tradicionais africanos. As ilustrações são da autoria da italiana Cláudia Melotti e os textos são da autoria de Celina Pereira bem como a adaptação de dois contos africanos.

Prepara uma nova edição, mais universal e multilíngue, com versões em português, crioulo, inglês e francês. As ilustrações são do pintor moçambicano Roberto Chichorro.

Desde sempre preocupada com as questões da preservação da memória coletiva e, consequentemente, da própria identidade do povo cabo-verdiano, Celina Pereira dedicou-se, desde o seu primeiro LP “Força di Crêtcheu”, à missão/aventura de tentar recuperar a riqueza e diversidade da cultura musical do povo cabo-verdiano.

Com pesquisas e recolhas efetuadas em Cabo Verde e na diáspora cabo-verdiana espalhada pelo mundo, Celina Pereira devolveu ao país mazurcas, cantigas de casamento e mornas, cantigas de roda, lunduns, choros, lenga-lengas e toadas rurais possibilitando assim a salvaguarda destes temas. Celina Pereira desenvolveu atividade permanente em diversas áreas da comunicação, nomeadamente como jornalista de rádio e contadora de estórias, atividade iniciada em liceus e escolas de Boston, Massachussets, USA, desde 1990.

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