Estado de saúde de Saab piora: Médico assistente antevê danos severos e irreversíveis

18/11/2020 23:38 - Modificado em 19/11/2020 00:43
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O estado de saúde de Alex Saab, detido em Cabo Verde desde o mês de junho devido a um pedido de extradição dos EUA, tem se diluído no meio da batalha judicial que se trava pela libertação ou extradição do empresário. A defesa tem, repetidamente, feito denúncias sobre o estado de saúde do seu cliente, alegando que não está a receber os tratamentos adequados. Mas, estas denúncias têm sido vistas como uma estratégia da defesa para vitimizar o seu cliente e não têm merecido respostas por parte das autoridades nacionais por esta ou outras razões. A única reação oficial que se conhece, veio do Tribunal da Comunidade Económica dos Estados da África Ocidental, CEDEAO, que em resposta a uma comunicação da defesa de Saab “coloca em dúvida se estão a ser prestados os cuidados médicos adequados a Alex Nain Saab, e reconhece a preocupação com o seu estado de saúde, pelo que permite-lhe ser tratado por pessoal médico fora da prisão em que se encontra desde o passado mês de junho.” Mas o governo  de Cabo Verde ainda não respondeu a decisão desse tribunal regional.

Relatório médico

Mas afinal qual é o real estado de saúde de Alex Saab? O NN teve acesso a relatórios médicos que atestam o seu estado de saúde antes de ser detido. Por serem informações de fórum particular e respeitando a intimidade do doente, apenas usaremos o mínimo para caracterizar com dados médicos a sua condição clínica há seis meses. E de acordo com esse relatório  “Os diagnósticos do paciente Saab apontam para várias patologias, sendo a mais relevante que teve um cancro no estômago.

Ou seja, os relatórios, entre outras doenças, mostram que ele é um sobrevivente de cancro.

O atestado médico esclarece que “Na decorrência do referido diagnóstico oncológico, o paciente deve ter controlo gastroenterológico com gastroscopia anual para evitar recidivas do tumor, colonoscopia a cada três anos, além da sua avaliação de rotina geral a cada seis meses para outras comorbidades”. E conclui “Com o tratamento implementado e o esquema de endoscopia de vigilância, espera-se que mantenha o carcinoma gástrico em remissão e as suas doenças sob controlo”.

Nesse mesmo relatório o médico assistente de Alex Saab defende que “Na minha qualidade de médico assistente do Sr. Saab e com o meu conhecimento detalhado da sua condição física e mental, estou extremamente preocupado que as condições de detenção e a dieta a que ele está a ser submetido possam causar danos irreparáveis e irreversíveis à sua saúde. Também estou extremamente preocupado que a patologia oncológica do Sr. Saab (Carcinoma Gástrico In Situ com Displasia Grave), que está em remissão, possa reaparecer ou repetir-se localmente se não forem implementadas medidas de prevenção adequadas nestes casos.”

Este parecer médico que é do conhecimento das autoridades cabo-verdianas é que preocupa a família de Saab que teme “pelo pior” se nada for feito e que levou a sua defesa a centrar os esforços para conseguir que o detido fique, pelo menos, em prisão domiciliária para poder receber o tratamento de acordo com este parecer médico.

Não conseguimos uma reação das autoridades contactadas, assim como a defesa não consegui os relatórios médicos atuais, por isso considera que   “Nos cinco meses em que o Sr. Saab esteve detido, não lhe foi permitido o acesso a cuidados médicos especializados. Além disso, cópias dos relatórios médicos foram negadas à sua equipa de defesa”.

Portanto não temos uma confirmação médica do estado atual de saúde de Saab.

O que se sabe é que ele perdeu mais de 25 kg de peso desde sua detenção. Nem a família nem a defesa receberam cópias dos exames médicos realizados pelos médicos locais desde o início de sua detenção. E os familiares consideram que não está recebendo a medicação correta porque não foi examinado por um especialista, médicos independentes. Os medicamentos que recebe, passam pelos médicos indicados pelo Diretor da prisão. E adiantam que o acesso do detido aos padrões mínimos de saúde física e mental dentro da prisão foi limitado e minimizado. Apesar dos inúmeros pedidos da equipa de defesa local, ele não recebeu atendimento médico adequado.

Como resultado perdeu mais de 25 kg de peso desde 12 de junho de 2020 devido à dieta inadequada, saneamento inadequado e, o mais importante, aos efeitos contínuos de cancro do estômago, que estava em remissão.

Ele sofreu recentemente uma hemorragia interna e vômito de sangue.

Direitos Humanos

Um ex-diplomata contactado pelo NN, e cujo pedido de anonimato respeitamos, considera que neste caso “O governo de Cabo Verde deixou tudo nas mãos dos Tribunais, pondo de lado o respeito pelos direitos humanos e ao estado de saúde de um cidadão estrangeiro”.  E vai mais longe “tanto mais que se não há certezas que o referido cidadão é um enviado especial do Governo da Venezuela, com isso gozando de imunidade diplomática, devia prevalecer o princípio da dúvida a favor desse cidadão”. Também considera que este caso rompe com a tradição de tratamento humanitário que o Estado de Cabo Verde, por exemplo, deu aos chefes da ETA Militar que nos finais dos anos 80 foram deportados para Cabo Verde num acordo com a Espanha, ou aos presos de Guantánamo enviados pelos EUA, recusando-se a servir de prisão política mas, assumindo-se como parceiro na procura de uma solução para problemas internacionais em que o país foi chamado a intervir. Finaliza dizendo que “no fim deste processo vai ficar claro que este era um processo político/diplomático que o governo deixou os Tribunais decidirem”.

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