S. Vicente – Autárquicas 2020: Vencedores

27/10/2020 00:09 - Modificado em 27/10/2020 00:21

Vencedores

O vencedor de uma eleição nem sempre é o que tem mais votos, mas sim o que atinge a meta que traçou alcançar. E a análise, a partir da vontade e desejos dos candidatos é redutora. E neste sentido nenhum dos candidatos alcançou o que anunciou como meta.

Augusto Neves vence as eleições, mas não atinge a meta da maioria absoluta que pediu e queria. Os outros, neste sentido são vencidos por que todos tinham como objetivo vencer e perderam estas eleições.

Mas fora dos desejos e numa análise que tem como base a realidade e o ponto de partida para esta disputa eleitoral podemos encontrar vencedores e vencidos.

Vencedores

Augusto Neves

Augusto Neves é o grande vencedor destas eleições. Só perdeu para seu desejo de maioria absoluta que todos os estudos que ele tinha diziam que não seria possível. Pelo contrário apontavam para uma luta voto a voto para conseguir renovar o mandato. E Neves travou esse combate contra todos: com adversários visíveis e invisíveis, com kamikazes movidos por interesses pessoais. Não virou a cara à luta, como não acede às redes sociais, mesmo convalescendo de uma doença grave, galgou bairros, ribeiras, porta-a-porta, corpo-a-corpo, voto-a-voto mostrou que ainda, em Cabo Verde, a melhorar maneira para vencer as eleições é no contacto direto com o eleitor. Mostrou que não é por acaso que é a terceira vez que é eleito. E este feito que tem que ser valorizado, nem  Onésimo Silveira o consegui, a não ser que se de razão aos kamikazes, em particular a um que se esquece de tomar o remédio antes de escrever posts, que o povo de São Vicente é burro, ignorante e que não sabe votar.

Só o facto de vencer três vezes consecutivas as eleições autárquicas fazem de Augusto Neves um vencedor.

Se compararmos os resultados de 2016 onde alcançou a maioria absoluta com 13 mil votos, para a maioria relativa de 25 de outubro, onde ontem alcança 11 mil votos perde em número de votos. Mas o contexto é diferente e o que estava em disputa não era a maioria absoluta, mas sim uma vitória apertada. A maioria absoluta de 2016 foi uma situação excecional, conseguida apenas uma vez por Onésimo Silveira, pois o eleitor sanvicentino, na maioria dos pleitos eleitorais, votou sempre por maiorias relativas. E é neste quadro que Augusto Neves emerge como o vencedor inquestionável destas eleições.  O resto é mau perder que passa com o chupar limões.

Albertino Graça

Um candidato do PAICV que perde uma eleição em qualquer município de Cabo Verde deveria ser considerado um vencido, pois todos os candidatos, nessa situação, anunciam que vão vencer as eleições. Um candidato do PAICV que fica em terceiro entra para a lista dos piores desempenhos. E esta é a situação de Albertino Graça se a análise tivesse apenas o foco no desejo e vontade, sem contar com o contexto e a realidade.

E a realidade mostra que o terceiro lugar, com a eleição de dois vereadores, coloca o PAICV na posição de ter um papel decisivo no que vai ser feito ou não pela CMSV nos próximos quatros anos. Sem o voto do PAICV não haverá maiorias para aprovar os instrumentos de gestão, visto que o entendimento entre a UCID e o MpD se afigura impossível. O PAICV não consegue recuperar o segundo lugar das forças políticas em São Vicente à UCID, mas conquista o estatuto de partido charneira, de um partido que pode influenciar os destinos da CMSV e da ilha. Papel que este partido nunca teve em São Vicente. A nível autárquico o PAICV em São Vicente sempre foi marginal, sem poder de influenciar e andando à boleia ora de Onésimo Silveira, ora de António Monteiro. O PAICV em trinta anos nunca venceu as eleições em São Vicente, e isto quer dizer alguma coisa. Como agora também quer dizer algo em que o eleitorado lhe entrega o poder de influenciar os destinos de São Vicente. Neste sentido o PAICV surge como vencedor. O eleitor de S. Vicente retirou a maioria absoluta ao MpD e mais: retirou a confiança à UCID e ao MpD para sozinhos decidirem o futuro de São Vicente. Chamou o PAICV e Albertino Graça para… decidir. Os tempos de boleia terminaram para o PAICV em São Vicente. Resta saber o que vai fazer com o carro que agora conduz.

Nelson Lopes

Ficando em último lugar não deveria constar da lista de vencedores. Tanto que Nelson Lopes repetiu até a exaustão que ia vencer a eleição de domingo.  Até invocou Deus, que como se sabe não intervém nestes assuntos terrenos.

Mas só Nelson, a sua equipa e os restantes 7,9 % do eleitorado que votaram no Más Soncent acreditavam que iam vencer as eleições. Mas partindo da realidade, onde a vitória de Nelson Lopes não aconteceria nem em sonhos, ao atingir os 7,9 % é uma vitoria para quem anunciou a candidatura há apenas 5 meses. Partir do zero, sem estrutura partidária, com pouco tempo e conseguir este resultado, deve-se considerar um bom resultado: uma vitória no contexto eleitoral de São Vicente. Muito mais para Nelson Lopes que sabe de onde veem os seus votos. É uma vitória quando quase 8% do eleitorado não se revê  nos partidos tradicionais e se revê numa pessoa e num projeto que há seis meses atras não eram conhecidos. É uma vitoria quando esses quase 8%, de forma clara e inequívoca evitaram uma nova maioria absoluta que desta vez podia cair para a… UCID. Nelson Lopes pode achar que perdeu, que o resultado é mau. Mas é um bom resultado para quem começou há seis meses e mostrou um eleitorado jovem, irreverente e despreparado politicamente, mas cansado dos partidos tradicionais em São Vicente. A forma como reagiu, ao que ele considerou uma derrota, não aceitando os resultados eleitorais não mancha o seu bom desempenho.

Eleitorado Sanvicentino.

O eleitorado sanvicentino é o grande vencedor desta eleição. O eleitorado vence sempre, mas no contexto nacional e a nível municipal, o eleitorado sanvicentino tem feito opções diferentes. Tem enviado mensagens claras que os partidos políticos não têm sabido interpretar e por isso os derrotados, não poucas vezes, classificam de ignorante o sentido de voto e os vencedores depressa se esquecem chegados à cadeira do poder.

O eleitorado sanvicentino, com uma perspicácia rara, tem sabido distinguir o trigo do joio e outra vezes recuar no sentido de voto. Ao longo de trinta anos tornou S. Vicente num laboratório eleitoral, com novas experiências governativas quando o resto do país apenas experimentava a maioria absoluta ora do MpD, ora do PAICV. Sempre distinguiu as eleições autárquicas das legislativas. Em trinta anos apenas em 2016 deu a vitória ao partido que venceu as legislativas, nunca colocou todos os ovos no mesmo cesto. Em trinta anos deu apenas duas maiorias absolutas. E ontem desfez a maioria absoluta que tinha dado ao MpD em 2016, repondo o sistema de maioria relativa que mais vezes tem saído das urnas. E mais, pela primeira vez chamou o PAICV a ter um papel próprio e central nas decisões da CMSV. Dá a Augusto Neves a terceira vitória consecutiva, nega a vitória a António Monteiro pela quinta vez e pisca o olho a um grupo independente. É neste sentido de voto, que pelos menos a UCID e o Más Soncent consideram que resultou da compra de votos de um eleitorado que se deixa comprar e não da ponderação e lucidez que tem caraterizado o veredito que vem das urnas.

Eduino Santos

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