Arsénio de Pina. Um conjunto de pensamentos curtos e soltos e datas marcantes

16/06/2020 01:00 - Modificado em 16/06/2020 01:10
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Nesta época de emergência e calamidade devida ao Covid-19, fiquei confinado à casa com limitações de mobilidade, não tendo outra alternativa senão reler livros e vasculhar os meus dossiers contendo recortes de jornais e revistas. Como reencontrei pensamentos e factos interessantes que levam a meditar, outros agradáveis ou eventualmente irritantes para os fundamentalistas da fé, e ainda poucos risíveis ou que levam ao sorriso, irei partilhar alguns com os meus leitores, que até poderão agradar às pessoas que perderam o hábito da leitura de livros.

# O mundo está tão complicado, violento e perigoso que o Diabo já não sai do Inferno. Valha-nos isso!

            # Aquele era um tempo em que o exercício da liberdade de expressão obrigava à maior imaginação e disfarce.

             # Há duas virtudes intelectuais que devemos respeitar, como aconselha Raymond Aron: o respeito dos factos e o respeito dos outros, que quem governa deveria respeitar antes de se venturar a governar.

            # D. Maria I lançou um alvará régio em 1785 proibindo o estabelecimento de fábricas no Brasil. Legislações idênticas foram feitas, mais tarde, para as outras colónias, prevenindo a concorrência das colónias com a metrópole.

            # O liberalismo é a primeira das três grandes ideologias do mundo moderno, e, com o fim do fascismo e do comunismo, é a única ideologia que ainda se pode dizer viável.

            # Fala-se muito em solidariedade e coesão, mas é o egoísmo que campeia, a nível individual e nacional.

            # Sempre me intrigou a razão de a morna se dançar de pé.

            # Também me afastei da fé que se escoou pelos poros abertos da alma pela razão. Mas não terá ido muito longe, e assim vou vivendo como se Deus existisse.

            # Os profetas eram equivalentes aos actuais astrólogos, adivinhos e mágicos dos nossos dias.

            # Os cidadãos não devem limitar-se a resignar-se ou a submeter-se à má política oficial.

            # Sem o saneamento das práticas políticas, a política continuará a ignorar aqueles que têm ideias e o know how, reticentes a negociar as suas convicções.

            # O homem é o único animal que sabe que vai morrer. Por isso inventou Deus para tentar transgredir os limites da História.

            # Rir não é, afinal, o melhor remédio; é o máximo de racionalidade, como sublinhou Henri Bergson na sua tese de doutoramento. Se conseguir rir-se de si próprio, é um homem superior.

            # Pasteur, um dos maiores benfeitores da Humanidade, depois de falecer, não foi para o Panteão, por decisão da mulher, sua grande colaboradora, visto ser católico praticante, para não ficar ao lado de Voltaire.

            # Defendo, bastas vezes, a tolerância, mas talvez devesse, nos tempos que correm, defender o que não devemos tolerar, isto é, o ataque à liberdade de consciência, a desigualdade de géneros, o antissemitismo e o racismo.

            # Será que os ingleses poderão vangloriar-se de terem criado a democracia, em 1688, antes dos franceses, com o “Bill of Rights”? Afinal, foram os holandeses, os primeiros, quando se libertaram da Espanha, em 1581, através do “Decreto de Secessão”. Thomas Jefferson conservava uma cópia desse decreto quando escreveu a Constituição dos Estados Unidos.

            # Bokharam – Boko vem de book (livro) – significa que os livros são repugnantes para os militantes da seita. Talvez seja por isso que, no Ocidente, algumas pessoas deixaram de ler livros…

            # Os primeiros cristãos distinguiam-se dos romanos pela recusa em frequentarem as termas, as quais eram muito usadas pelos romanos. No meio da Idade Média, até ao século XIX, a rua das cidades europeias era cheia de excremento e cadáveres de animais. Até à construção de redes de esgotos, os homens viviam na pestilência. Casanova falava do fedor das mulheres que ele amava. Em vez de água e sabão usavam-se perfumes.

            # Nas eleições presidenciais em certos países africanos, até se pode eleger um burro com mais de 90% de votos.

            # Na entrevista ao economista guineense Carlos Lopes, actualmente professor na Universidade do Cabo, afirmou, entre outras coisas interessantes:

            – Favorecer a parceria com a China, desde que se previna a concorrência com os nacionais.

            – É preciso proteger a indústria nascente nacional, como, de resto venho defendendo há muitos anos.

            – O agro-negócio implica industrialização da agricultura e aumento de áreas irrigadas, o que favorece o retorno dos que fugiram do campo para as cidades.

            – A ajuda internacional deverá dar prioridade à gestão. Aplicada à política fiscal terá um efeito multiplicador.

            – O “Native Land Act” de 1913 foi introduzido pelos ingleses, o qual retirava aos negros sul-africanos o direito de possuir terras, portanto, antes do estabelecimento do horroroso sistema Apartheid em 1948.

            # O Parlamento tem por função principal legislar, mas como fazê-lo se não dispõe de legisladores, tendo as leis de ser feitas por escritórios privados de advogados, os quais, ardilosamente, introduzem nelas alçapões de que vêm a servir-se para safar clientes da prisão?

            # Como disfuncionam os tribunais: Recurso, em caso de condenação na 1ª instância, à Relação, de seguida, para o Supremo, e, se for caso disso, ainda para o Tribunal Constitucional. Como os recursos têm efeito de suspender as penas, os ricos jamais são presos. As decisões dos tribunais, são assim, desacreditadas, como se fossem etapas de processos viciados e intermináveis. Esta situação vergonhosa resolver-se-ia de forma simples; bastaria tão-somente que os recursos não suspendessem o cumprimento de penas.

Por outro lado, o arrastamento dos processos e as manobras dilatórias arquitectadas por advogados ardilosos, levam a ultrapassar todos os prazos até à obtenção da prescrição. Assim, o protelamento provocado pelos arguidos favorece-os. O Sistema beneficia assim o infractor. Para eliminar este tipo de expedientes, bastaria que as decisões dos tribunais suspendessem a contagem de tempo dos prazos de prescrição. Se as manobras para arrastar processos nos tribunais não suspendessem as penas, mas suspendessem os prazos de prescrição, a justiça seria, de facto, igual para pobres e ricos.

            # O imperador chinês Yong lançou sete armadas à costa Oriental da África, entre 1405 e 1433, frota constituída por 250 navios, transportando 25.000 homens. Essa política foi anulada pelo seu sucessor, e ficamos sem saber o que seria o mundo se essa política tivesse continuado.

            # A saudade é o passar e repassar de memórias antigas agradáveis.

            # Há tantas mulheres belas, atraentes e insatisfeitas no mundo que é pena não lhes oferecer ou retribuir uns breves instantes de felicidade.

            # Alguns dados e datas teológicos:

Criação da Inquisição, pelo Papa Gregório IX. Criação da confissão como obrigação, em 1215, pelo IV Concílio de Latrão. Os sete pecados mortais ou capitais definidos pelo Papa Gregório I, no século VI: gula, avareza, preguiça, raiva, luxúria, inveja e orgulho (esqueceu-se de hipocrisia…). O Papa Bento XVI acrescentou um novo pecado, cujo nome me escapa; pecados que, segundo o Papa Gregório I, dão direito a bilhete directo, sem apeadeiros, para o covil do Diabo. O Concílio de Trento estabeleceu, entre outras decisões maiores, o casamento religioso. A posição do altar, mudada pelo Papa João XXIII, foi reposta pelo Papa Bento XVI. Este mesmo Papa, quando Cardeal, com o nome de Ratzinger, e o Cardeal Lustiger, foram os coveiros das inovações do Concílio Vaticano II. O dogma da Imaculada Conceição foi estabelecido pelo Papa Pio IX, em 1854. O clero viu abolidos, em 1834, por Mouzinho da Silveira – porventura o mais importante de todos os ministros-legisladores da história de Portugal – os dízimos eclesiásticos que revertiam a seu favor, de 10%, impostos sobre os habitantes de cada paróquia. O celibato do padre tornou-se obrigatório a partir do Papado de Gregório VII, em 1537.

            # Os demónios (jnoun) são mencionados no Alcorão, mas tudo é questão de ijihad (interpretação). Os demónios são uma metáfora que exprime os instintos mais baixos do indivíduo, as suas paixões primárias que podem levá-lo até a cometer crimes. Infelizmente, ninguém no mundo muçulmano ousa fazer a interpretação do Alcorão (a não ser quando está fora de países muçulmanos, porque, se o fizer em certos países muçulmanos, será enforcado), como passaram a fazer os cristãos sob a pressão de livres-pensadores. Os muçulmanos preferem tomar ao pé da letra tudo quanto está escrito no Alcorão, como algumas seitas cristãs com a Bíblia e ultra-ortodoxos judeus.

            # No islão, perante uma mulher “não coberta”/sem burka, ou hijab, os homens têm o direito de “se servir”, ou seja, assediar, forçar, usar até onde lhes apetecer, porque uma mulher não acompanhada de homem e não “coberta”, no espaço público, é propriedade pública.

            # A mulher é uma obra-prima de Deus, sobretudo quando tem um pouco de diabo dentro.

            # Correr atrás de mulheres nunca fez mal a ninguém. Apanhá-las é que é perigoso.

            # A água do mar contém todos os tipos de sais; 35 gramas por litro de cloreto de sódio, portanto, quatro vezes mais do que o soro fisiológico, que contém 9,4 gr/litro.

            # O nosso Mestre Roque Gonçalves falava com aquele seu gesto manso de acariciar, lenta e pausadamente, as palavras. Dizia o outro Mestre, Baltazar Lopes da Silva, que Roque Gonçalves era um poço de saber; todas as vezes que o visitava, tirava água.

            # Como estamos numa época de defesa dos direitos dos negros e de luta contra o racismo e a violência policial, parece-me curial que resumamos o que se passou em Portugal com a extinção da escravatura; essa abolição fez-se às pinguinhas: o Marquês de Pombal proibiu a existência de escravos em Portugal, e os que cá chegavam tornavam-se, ipso facto, pessoas livres. Passos Manuel, em 1836, proibiu a importação de escravos para as colónias portuguesas a Sul do equador, bem como a sua exportação para fora delas. Fontes Pereira de Melo, em 1854, libertou todos os escravos que ainda pertenciam ao Estado. Por último, na data histórica de 1869, o Marquês Sá de Bandeira (que tem um busto na Praça Nova de S. Vicente, derrubado na febre do 25 de Abril, mas, felizmente, guardado na CM e reposto no seu merecido lugar após ter passado a febre) fez decretar a extinção da escravatura em todos os territórios ultramarinos portugueses.

            # Num partido político democrático e laico não há guardiães do templo nem barões; só há cidadãos.

            # Há, no futebol português, uma espécie de tribalismo que alimenta o povo, através de jornais, rádio e televisões, com horas intermináveis de discussões inúteis e ridículas. O futebol em Portugal é um poder temido pelos outros poderes.

            # A amizade entre um homem e uma mulher, se for delicada, é ainda uma forma de amor.

            # Um beijo consentido na boca da mulher é uma pergunta dirigida ao segundo andar para saber se o primeiro está livre.

            # Diz-se que riqueza não dá felicidade, mas pode alugá-la.

            # A inveja vem do latim “invidia”, que significa “ver ao contrário”. É um defeito, apontado como um dos sete pecados mortais, mas que revela uma qualidade: a de saber ver, e de admitir que pode haver outras melhores do que nós, ou uma solução melhor do que a nossa. Confundir inveja com cobiça (outro pecado da lista) é o mesmo que confundir alho com bugalho.

            # Antigamente não se falava de assédio sexual, simplesmente de piropo. Nos nossos dias já é uma nova figura jurídica, e dá cadeia.

            # O negócio é inimigo de ócio. A raiz etimológica é latina, “otium”, que nasceu primeiro e só depois o seu oposto, o seu espelho em negativo, o “negotium”.

            # As nossas elites têm um ponto comum: o mutismo – consultar o livro Ês ca ta cdi! Quando rompem o mutismo, perdem-se em banalidades e frases fúteis.

            # Os ladrões não são mais do que capitalistas apressados.

            # A liberdade de expressão não rouba o pão aos trabalhadores, mas rouba o sono aos tiranos.

            # Há dirigentes que desconhecem que do servilismo à traição a distância é mínima.

            # Somos o que lemos, exceptuando, claro, os imbecis.

            # A troça é uma manifestação de indigência intelectual.

            # A fecundação incorpórea foi realizada uma única vez, sem exemplo, só para que se ficasse a saber que Deus, quando quer, não precisa do homem, muito embora não possa dispensar-se da mulher.

            # A grosseria é sempre, de um modo ou doutro, uma forma de impotência intelectual.

            # O filósofo Leibniz, nos seus “Novos Ensaios” diz, entre outras coisas, que as presunções passam por provas inteiras, provisoriamente, isto é, enquanto o contrário não for provado.

            # A vantagem da dialética é a de mostrar claramente duas perspectivas da mesma realidade, de forma a permitir uma imagem integral da mesma.

            # Os árabes atingiram grandes sucessos em ciência quando separavam claramente a sua fé da prática científica e política. Actualmente, quase tudo de que dispõem da ciência provém do Ocidente. Há quem diga que o mal é dos árabes, mas parece-me óbvio que é da sua religião.

            # O poder tende a corromper, e o poder absoluto corrompe absolutamente.

            # Há uma lei sem réplica que obriga os pobres a emigrar e os ricos a exportar capitais.

            # O dever do jornalista é informar com verdade e não ser refém de interesses alheios, para não ser cúmplice.

            # Negar Deus pode ser uma convicção religiosa; vendê-lo, como fazem algumas seitas entre nós, é uma ladroagem sacrílega.

            # Não há nada tão contagioso como o exemplo.

            # Graham Green escreveu: “Como católico, agradeço a Deus a existência de heréticos, pois a heresia é apenas outra palavra para significar liberdade de expressão”.

            # As mulheres têm duas armas eficazes: a maquilhagem e as lágrimas. Felizmente, não as podem usar simultaneamente.

            # O espírito é como um guarda-chuva; para funcionar em condições, deve estar aberto.

            # Só a esperança pode justificar sacrifícios.

            # Uma pecha portuguesa, também cabo-verdiana, é quando não conseguimos enfrentar os outros com argumentos válidos, tentamos ridiculariza-los, ou achincalhá-los.

            # Contra a tese Hobbesiana de um direito supremo, acima da lei e dos costumes, na qual se concentraria definitivamente, após o contrato, a potência de todos os súbditos, Espinosa contrapôs que a potência individual não é transferível por nenhuma espécie de contrato, uma vez que ela constitui a essência dos seres vivos.

            # Um afecto, como ainda diz Espinosa na Ética, não é jamais eliminado pela razão, mas por outro de sinal contrário.

Parede, Junho de 2020                                                            Arsénio Fermino de Pina

(Pediatra e sócio honorário da Adeco)

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