O falhanço da estratégia do Governo: Quando é o vírus a correr atrás da autoridade sanitária

13/06/2020 00:23 - Modificado em 13/06/2020 00:27
| Comentários fechados em O falhanço da estratégia do Governo: Quando é o vírus a correr atrás da autoridade sanitária

Comentário –

A propagação da COVID-19 para outras ilhas e concelhos de Santiago, sem que a autoridade sanitária consiga o controlo dos focos de infeção, mostra duas coisas: primeiro a incapacidade do governo, através do Ministério da Saúde, em controlar as cadeias de contágio, pelo simples facto de não saber que existiam. E já não é apenas este jornal a fazer esta constatação que ficou sem resposta. Quinta-feira, 11 de junho, Jorge Barreto, diretor dos Serviços de Prevenção e Controlo de Doenças, admitiu “Ainda não foi possível determinar o foco do vírus na ilha do Sal. Vai levar algum tempo, porque ainda não se conseguiu chegar ao paciente zero que poderá ter despoletado todos os casos. A investigação ainda continua e não temos a certeza se iremos identificar de que forma é que o vírus foi introduzido na ilha do Sal”.

E isso mostra o falhanço na identificação dos focos e leva ao falhanço da política de testar, num primeiro momento, apenas quem apresentasse sintomas e, num segundo momento, os que tiveram contacto com os que testaram positivo. É por isto que os hotéis destinados a quarentena estão cheios e as estruturas de saúde têm tido poucos pacientes. Isso leva à conclusão que enquanto em outros países a autoridade sanitária corre atrás do vírus, em Cabo Verde é o vírus que corre atrás da autoridade sanitária.

Podíamos apresentar vários factos como exemplos, Boa Vista, Praia mas, vamos ficar com o caso do Sal devido as consequências que fizeram de uma ilha que esteve 72 dias sem ser detetado um caso de COVID-19 e neste momento esta na origem da “exportação” de casos para outras ilhas e com um número crescente de casos locais que ninguém consegue explicar de onde e como surgiram.  Só que aumentam de dia para dia e há já uma morte a registar. Então, vamos lá correr atrás do vírus no Sal.

E é importante saber de onde surgem estes casos no Sal. Da Boa Vista, depois da abertura das ligações inter-ilhas? Mas se na Boa Vista  já não havia casos ativos, segundo a autoridade sanitária o foco limitava-se  aos hotéis, visto que os testes na população não revelaram a circulação do vírus na comunidade. Aceitar que o vírus não veio da única ilha com casos de COVID-19 e com circulação de pessoas com o Sal, remete para a possibilidade do vírus já se encontrar na comunidade. O salense Mário Paixão, num post no Facebook defende esta possibilidade: a do vírus ter estado na comunidade salense; “No Sal, o vírus terá entrado num portador assintomático e propagado silenciosamente, até ser detetado num portador fragilizado: uma grávida, com diagnóstico de eclampsia aos 7 meses, evacuada para o HBS em S.Vicente. Se na Boa Vista e Santiago manifestou-se relativamente cedo e foi detectado por teste compatível, no Sal passou despercebido porque não se manifestou em lado nenhum, por ser transportado por assintomáticos. Não havendo doentes nem suspeitos, não houve testes. Isso levou ao entorpecimento do sistema montado e driblou os protocolos instituídos, só vindo a manifestar-se 71 dias depois da Boa Vista”.

Esta constatação vale o que vale e não existem dados técnicos ou científicos que a comprovem. Da mesma maneira que poderia ser alguém que esteve em quarentena num dos hotéis e não foi testado à saída. Mas estas hipótese só servem para demostrar que em Cabo Verde é o vírus que corre atrás da autoridade sanitária e levanta a questão por que o Governo não optou por testar em todas as ilhas quando determinou o isolamento destas?

Em 27 de Fevereiro, devido ao surto de COVID-19 na Itália, o governo de Cabo Verde suspendeu por três semanas, e depois em definitivo, os voos com este país com ligações diárias para o Sal e à Boa Vista, com um fluxo anual de cerca de 30 mil turistas. 

Não faria sentido fazer testes, pelo menos junto dos funcionários dos hotéis? Muito cedo. Ninguém imaginava, pode-se argumentar. Mas, a 19 de Março, devido aos casos suspeitos na Boa Vista e em Santiago, o governo decidiu fechar as fronteiras do país

No dia 27 é decretado o estado de calamidade e suspensas as ligações aéreas inter-ilhas. 

Nesta altura muitos defenderam a necessidade da realização de testes para se conhecer a situação epidemiológica em todas as ilhas. Mas o governo decidiu manter a sua posição de testar apenas quem apresentasse sintomas e de não testar as pessoas que saíam de quarentena, mesmo quando lhe foi pedido argumentos técnico e científicos para sustentar a sua posição. E nas ilhas sem casos de COVID-19 criou-se a certeza que não tinham casos, depois de 72 dias sem contactos com o exterior. Certeza desfeita quando se começou a fazer testes e a surgirem casos de COVID-19 na ilha do Sal.    

As consequências estão à vista. Quando outros países, em particular os emissores de turistas para Cabo verde, começam a voltar à normalidade e sonhar com férias numa ilha, como o Sal, que não tinha nenhum caso de COVID-19, esta ilha descobre os primeiros casos. Uma morte e um aumento diário de casos onde não há controlo sobre o foco da infeção. E volta tudo ao início, com a agravante que se perderam quase três meses.

Tendo em conta o ativo que o Sal e a Boa Vista representam para o país e tendo ambas uma população residente pequena, não se deveria, desde o início optado por: Testar, testar, testar, isolar, tratar para preparar a retoma do turismo no mês de julho. Retoma que o governo já tinha decidido para julho na ilha do Sal e outubro na Boa Vista. E agora, como ficamos… De certo que a nova situação epidemiológica vai ter reflexo nas reservas para o verão na ilha do Sal.

Os operadores turísticos já sabem que o Verão “já está perdido com o surgimento dos novos casos, com todas as suas consequências. O problema reside na época alta, que começa em outubro, e também agora parece comprometida. É verdade que a saúde das pessoas está em primeiro lugar, mas primeiro é preciso testar para saber se as pessoas estão doentes e evitar a propagação do vírus. Mas, o governo optou por testar depois da doença manifestar-se sem saber de onde surgiu, ou seja: o vírus corre atrás de nós, quando devíamos correr atrás do vírus.

Eduino Santos

Os comentários estão fechados.

Publicidades
© 2012 - 2022: Notícias do Norte | Todos os direitos reservados.