Como surgiu o caso positivo de Covid-19 no Sal: Entre a realidade e as divagações do DNS

2/06/2020 17:17 - Modificado em 2/06/2020 17:17
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A entrada do Sal na estatística de ilhas com casos de Covid-19, trouxe à tona muita especulação e dúvidas sobre a forma como o vírus terá surgido na ilha, visto que durante cerca de dois meses a ilha esteve sem ligações aéreas nacionais/internacionais, nem ligações marítimas inter-ilhas. Dúvidas legítimas. A apreensão e medo das populações são compreensíveis . Esperava-se uma explicação técnica e científica ou então a humildade de reconhecer: “não sabemos”. Mas o diretor nacional de Saúde, mais uma vez, divagou, não apresentou argumentos técnicos nem científicos ao considerar “a possibilidade de o vírus estar a circular há muito tempo na ilha do Sal e por isso haver muitos casos assintomáticos”. Mas como surgiu o primeiro caso? Onde está situado o foco de infeção? Hoje já se sabe alguma sobre o COVID-19 e os especialistas concordam que o problema não passa pelo surgimento de novos casos, que vão continuar a surgir,  mas sim  a capacidade das autoridades sanitária em controlar as cadeias de contágio. O problema é perder esse controle, dizer que o vírus podia estar a circular há muito na ilha do Sal e reconhecer que não se têm o controlo das cadeias de transmissão. Pior, não se sabia que existiam. 

A forma como o Ministério da Saúde tem lidado com a situação da COVID-19 mostra que não tem conseguido controlar as cadeias de transmissão, por que não sabe que existem, ou quando as identifica perde o controlo.

Vamos aos factos.  Na Boa Vista estavam identificadas duas cadeias de transmissão: uma no Hotel Palace outra no Hotel Karamboa. A autoridade sanitária ao intervir colocou em isolamento apenas os turnos de trabalhadores que estavam de serviço na altura do fecho dos referidos hotéis. Os outros turnos que, também, tiveram contacto com os infetados e com os colegas que estiveram de serviço, nunca foram colocados em isolamento, nunca foram testados. Estiveram e estão no seio da comunidade na ilha da Boa Vista e, posteriormente, em outras ilhas, visto que muitos têm regressado às suas ilhas de origem. Não podiam estar assintomáticos e transmitir o vírus?  Não poderia o vírus estar a circular em várias comunidades da Boa Vista, desde 18 de março, levado por esses trabalhadores?  Não se perdeu o controlo da cadeia de transmissão?  Quando se deixou os trabalhadores do Hotel Riu Palace e Karamboa saírem da quarentena sem testes havia a certeza que não levariam o vírus para a comunidade? Quando o MS não optou por testes em massa à população da Boa Vista, na fase inicial da identificação das cadeias de transmissão não perdeu a oportunidade de identificar e controlar novas cadeias de transmissão?

Praia sem controlo  

Até hoje ninguém consegui explicar qual foi a cadeia de transmissão que contaminou os dois técnicos que foram a trabalho para a Boa Vista e no regresso à Praia, depois da quarentena, testaram positivo. Ninguém explicou como a situação, que até essa altura parecia controlada, atingiu o ponto a que se chegou hoje: não há controlo sobre as cadeias de transmissão. Todos os dias são anunciados novos casos positivos de Covid-19, mais pessoas em isolamento, mas não se sabe o que se está a fazer para quebrar as cadeias de transmissão.

Um artigo publicado no EL PAIS fala das Lições da paciente zero da Alemanha. Cientistas alemães reconstituíram agora, nos mínimos detalhes, o que aconteceu naqueles dias, através de entrevistas, documentos e da análise do genoma do vírus. Esmiuçaram a forma como surgiu um foco que a empresa e as autoridades conseguiram frear a seco. Foram 16 pessoas contagiadas, todas já recuperadas, nesta singular história de sucesso. A reconstrução publicada na revista Lancet, junto com o relato do que aconteceu naquelas horas na empresa infetada, lança luz sobre o momento exato da transmissão em cada caso, mas também sobre a importância da deteção e atuação precoce.

Por cá o DNS prefere desviar o foco para a população ou afirmar não ter dúvidas de que todas as ilhas estão em risco e que todos os cabo-verdianos devem ter noção disso, pelo que apela a uma maior responsabilidade e vigilância reforçada e estarem preparadas para qualquer eventualidade.  As pessoas devem continuar com as medidas de distanciamento social, evitar aglomerações de pessoas, respeitar a distância nas filas de serviços públicos, usar máscara e praticar todas as medidas de higiene e desinfeção recomendadas desde o início pelas autoridades sanitárias”.

O DNS esquece-se que em todo o mundo os governos, para combater a pandemia, mandaram para casa 4,5 mil milhões de pessoas (mais de metade da população do planeta), que cumpriram essas recomendações e mesmo assim, ate hoje a COVID-19 provocou 379 675 mortes em todo o mundo e mais de 6 430 385 de infetados, de acordo com um balanço atual da AFP feito a partir de dados oficiais.

A população de Cabo Verde tem cumprido e o mínimo que exige é que as autoridades sanitárias também cumpram e que respondam, que expliquem quando os casos surgem dentro dos hospitais ou em pessoas que circularam de uma ilha para outra com o aval da autoridade sanitária.

Porque o Hospital do Sal não consegui identificar o caso de COVID-19 na paciente grávida? Por que a paciente não foi testada antes de ser evacuada? Por que se continua a usar o questionário que já demostrou ser ineficaz para detetar casos suspeito?

Sim, por que no HBS o protocolo para identificar casos de COVID-19 falhou mais uma vez?  A culpa é da direção dos Hospitais ou do Ministério da Saúde?

É seguro, no momento, permanecer numa enfermaria nos hospitais de Cabo Verde?

Eduino Santos

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