Mindelo saiu do Estado de Emergência com um salto mortal

5/05/2020 00:16 - Modificado em 5/05/2020 00:19
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Durante os dias de confinamento os mindelenses, numa cidade com apenas um caso confirmado, ansiavam pelo regresso à normalidade. Como se depois do confinamento tudo estaria no ponto em que ficou há 34 dias. E era só recomeçar. E foi isso que aconteceu. Os mindelenses parece que saíram do Estado de Emergência com salto mortal para a frente. Um salto de risco elevado. Em vez de saírem pé ante pé, devagarinho, porque a normalidade que tínhamos antes já não existe e quem insistir em pensar e agir assim não vai resistir aos novos tempos. Tempos que exigem  segurança sanitária, distanciamento social e novas práticas.

Na nova realidade que os mindelenses mergulharam com um salto mortal  não existem casos positivos de COVID-19. Muitos duvidam que a paciente chinesa e família  estivessem infetados… porque não infetaram ninguém. Mas, isso não dá certezas, tratando-se de um vírus que ainda gera mais dúvidas que certezas, que a cidade não possa vir a ter mais casos, mesmo depois de 34 dias de confinamento. Não há certezas em relação ao COVID-19 que nos permita voltar à vida social de antes. A certeza que existe é que o confinamento reduz, e muito, o risco do vírus propagar, mas não mata o vírus. O distanciamento social, a higiene, a segurança sanitária também não matam o vírus, mas impedem que se propague.

Hoje o movimento na cidade de  Mindelo mostrava que, não obstante as restrições de distanciamento social, este não está a ser respeitado por muitas pessoas. Nas ruas, nos táxis e nos restaurantes, nas lojas chinesas de Mindelo, o Covid-19, continua a ser o principal tema de conversa.

Mas o comportamento de risco é a porta para a entrada do COVID-19 na ilha. Os trabalhadores do setor privado vão ocupando os seus postos de trabalho, bem como os trabalhadores informais.

No mercado da Praça Estrela, a movimentação de pessoas, comparava-se com um dia normal, com  as implicações que a aglomeração de pessoas pode trazer. Como nos contam os vendedores com que falamos, “precisamos de ganhar dinheiro, já temos muitos dias parados e até este momento estamos a espera do INPS, como haviam dito que iriam pagar uma parte por ficarmos em casa”.

Uma justificativa dada por vários entrevistados que asseguram que o governo não lhes proibiu de trabalhar após o estado de emergência. Questionados, sobre a possibilidade de aglomeração de pessoas, dizem que é da responsabilidade as autoridades garantirem que isso não aconteça. “Estamos aqui apenas à procura do nosso ganha pão, o resto não nos compete”.

Esta é a realidade na Praça Estrela, no Mindelo. Conceitos de cidadania não são para aqui chamados, quando há mais de trinta dias não se ganha um tostão. Fica claro que para essas pessoas tem de ser o Estado a mandar lavar as mãos; a Polícia Militar a impor o distanciamento, a Câmara Municipal a dar o sabão, a máscara etc… . Vivem num tempo antes do novo coronavírus, não sabem e ninguém lhes explicou que no presente  e amanhã só vai fazer negócios – ganhar dinheiro -, quem  garanta que no seu negócio não existe o perigo de contaminação da COVID-19.

A barbearia, no Maderalzinho, estava cheia e perguntei se podia cortar o cabelo. Entrei com máscara e pedi ao meu barbeiro, de há muitos anos,  para limpar as tesouras e máquinas com álcool. E na conversa ficou claro  que se na sua barbearia ele passar a usar máscara, a exigir que os clientes o façam, enquanto esperam para ser atendidos, que disponha de álcool para a limpeza das mãos à entrada e saída, no futuro a sua barbearia estará sempre com clientes, por que o seu negócio tem garantia sanitária: é seguro contra o COVID-19.

Nos serviços de restauração, as coisas estão a voltar à ‘dita’ normalidade, mas notou-se uma fraca presença de clientes. “O negócio não está a andar. Não temos clientes e temos uma restrição de manter poucas mesas”, disse-nos o proprietário de um restaurante no centro da cidade.

As pessoas que trabalham nas lojas chinesas, consideram que a situação tem sido bastante complicada nos últimos tempos. “Ficamos um mês sem trabalhar e muitos de nós não estão inscritos no INPS”, portanto uma situação que deixa algumas funcionárias incapacitadas de receberem o apoio social.

Mário Simões, de 43 anos, diz que “o ritmo está na mesma. Não há mudanças, apesar das restrições, mas vamos indo”,  relembrando que todos estamos a aprender com o surgimento desta doença . “É uma situação nova que ninguém esperava. Então vamos todos impedir a propagação deste surto que está a matar muita gente neste mundo inteiro’’, precisou.

”Mindelo está calmo”, diz-nos Sílvio Artur, de 50 anos. ”Esperamos que continue assim, apenas com os casos que já foram identificados e recuperados e que a população continue a respeitar as medidas para que continuamos a dirigir-nos  por bons caminhos”, apela este mindelense.

Hoje foi o começo de um novo tempo. Não sentimos mas já começou. Não vamos conseguir viver como antes  porque mesmo sem casos, São Vicente tem que se abrir ao país e, principalmente, ao Mundo. E esse mundo que vai chegar vem à espera de segurança sanitária: nenhum turista vai comprar seja o que for numa Praça Estrela com gente aos mangotes, sem higienização, ou entrar numa barbearia ou num restaurante que não cumpram com as novas normas sanitárias.

Eduino Santos

Com Elvis Carvalho 

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