O caso da paciente chinesa: Os palpites da Direção Nacional de Saúde

1/05/2020 01:15 - Modificado em 1/05/2020 01:15

No dia 1 de Abril  tínhamos escrito um artigo pedindo às autoridades sanitárias de Cabo Verde que explicassem os ritmos de transmissão e a evolução dos casos de COVID-19 em Cabo Verde. Isto, porque, até agora, apenas são avançados números de casos ou de casos suspeitos, casos suspeitos que deixam de ser, mas não há uma perspetiva da evolução e nem se sabe porque se passa de um número para outro, como tem acontecido nos outros países. Também porque os contágios verificados fugiam ao padrão conhecido e revelado no mundo: um caso positivo gera em média dois outros casos criando cadeias de transmissão.

Dizíamos que a não apresentação de dados científicos, pelo menos  técnicos, tem levado a certas  “teorias da conspiração”  no sentido que “O governo não está a dizer tudo”. Isto por que a maioria das pessoas, em particular os Doutores COVID-19, que invadiram a rede social cabo-verdiana, acham que o surgimento de um único caso iria originar uma infeção em massa. Não entendem e ninguém lhes explicou porque. E nestes tempos de incerteza, mediante um vírus que nos surpreende sempre pelo pior, assumir que não se sabe, que não se tem dados científicos para explicar, para além de ser uma atitude humilde e prudente, evitaria entrar em teorias que depois não se consegue explicar, abrindo portas às teorias de conspiração e a desconfiança que as certezas explanadas nas doutas conferências de imprensa podiam, afinal, ser apenas palpites.

O caso da paciente chinesa

O caso da paciente chinesa foi um caso que mais teorias da conspiração gerou e continua a  gerar.

O DNS começou por defender que o foco de infeção poderia ser a filha de 18 anos que tinha ido passar o Carnaval na Alemanha e que regressou no fim de fevereiro. Nunca foi dito ou esclarecido, em que  bases técnicas ou científicas se baseou o DNS  para colocar essa hipótese. Porque sendo a jovem o paciente zero e tendo voltado ao país no dia 27 de Fevereiro, o risco de ter contagiado outras pessoas seria grande, em particular no liceu com mais de mil alunos onde estuda. Nunca foi explicado. Teria sido um palpite?

Mais tarde a DNS defende a possibilidade de o técnico de manutenção infetado com covid-19 ser o paciente zero na ilha,  porque descobriu que ele tinha estado em São Vicente, antes de entrar em quarentena no Hotel Riu Karamboa na Boavista.

Uma investigação do NN demostrou, através  das datas do percurso feito pelo referido técnico entre Boavista/ São Vicente/ Sal / Boa Vista, a impossibilidade, dentro do que se tem como certo na transmissão do novo coronavírus, que esse técnico tivesse sido o paciente zero. Isto, por que chegou à ilha no dia 18 de fevereiro e saiu do Mindelo no dia 14 de março. Nunca mais se falou nisso. Pois, não se poderia explicar como ele poderia  estar infetado no dia 18 Fevereiro se o primeiro caso detetado na Boa Vista só chegou ao Hotel no dia 9 Março. A aceitar esta evidência levaria para a tese da infeção comunitária na Boa Vista , que o foco não teve origem no Hotel Riu Karamboa mas sim na comunidade ,onde, ainda, não surgiu nenhum caso. Assim, seria mais um palpite?

 E a próxima possibilidade levantada foi a “infeção comunitária”. Aliás, no dia 4 de Abril, sem se saber com que bases, o Ministro da Saúde já tinha defendido  “Se no caso não soubermos a fonte da transmissão local, que também está previsto e pode existir, estaríamos então numa situação de transmissão comunitária, que é a situação em que não é possível identificar a fonte de infeção.” Só que do dia 4 de Abril até hoje, 1 de Maio,  não surgiu nenhum caso de infeção na comunidade sanvicentina. É possível  continuar a sustentar a tese da “infeção comunitária” ou era… mais um palpite?

No dia 25  de Abril o DNS  anunciou , que o âmbito da investigação epidemiológica do caso positivo de covid-19 em São Vicente, que os testes de anticorpos específicos do vírus da covid-19 feito nos familiares,  pai e filha , deram positivo, o que demonstra que os familiares estiveram também em contacto com o vírus. Artur Correia, referiu que isto quer dizer que o vírus circulou entre os familiares e que poderá ter sido esta a origem do vírus em São Vicente. “É uma hipótese grande de ser a verdade. Testes de anticorpos específicos do vírus da covid-19 feitos nos familiares da paciente de São Vicente deram positivo. É um exame que se faz para saber se a pessoa teve contacto com o vírus”. Dito assim parece simples, até para os leigos: o vírus em São Vicente circulou apenas entre os três membros da família, que tinham vida social, e ficou restrito a essa família. É isso ou é … mais um palpite?

Por conta desse exame veio, ontem, 30 de Abril, o Diretor dos Serviços de Prevenção e Controlo de Doenças, Jorge Noel Barreto, afirmar que  o marido e a filha da cidadã de nacionalidade chinesa, que está em isolamento no Hospital Baptista de Sousa, passam a constar na lista de casos confirmados de covid-19 no país. Assim sendo, São Vicente regista agora de três casos positivos de covid-19.  Mas, também anunciou o milagre: passam a ser considerados como casos recuperados, isto depois da realização dos testes que detetam anticorpos terem detetado a presença do vírus. Simples, nera?  São Vicente que tinha um caso passa a três, com dois recuperados. Mas porque esses testes foram feitos só aos residentes de São Vicente? Por que não se fez na Boa Vista ou na Praia o mesmo procedimento? O número de casos positivos iria aumentar  por que haveria mais pessoas que estiveram expostas ao vírus? E depois passariam a recuperados?  É isso, mais palpites ?

Depois desta exposição de factos, que serviram as autoridades sanitárias para caracterizarem a situação epidemiológica em  São Vicente, cabe perguntar: foram estes palpites que deram ao Presidente da República para este dispor de elementos para caracterizar a situação epidemiológica em São Vicente? Para  decidir sobre a continuação ou não do Estado de Emergência ou forneceram informação científica e técnica que não é do conhecimento público?

Eduino Santos

  1. Milton Luís Monteiro

    Excelente, mais um resumo extraordinário da pandemia em Cabo Verde, onde se coloca o”dedo na ferida”; em q o jornalista faz aquilo q os seus colegas de profissão não fazem, esclarecer os caboverdianos.
    Obrigado Eduino, a ti chamo jornalista.

  2. Lizy Lopes

    testes de anticorpos indicam que uma pessoa esteve infectada com Covid 19. (Essa frase “estiveram em contacto com o virus” é uma metáfora que não faz sentido cientificamente.) Portanto, se marido e filha têm anticorpos, estiveram infectados. Se estiveram infectados, mas os testes originals de coronavirus que lhes tinham sido feitos tinham dado negativo, então é prova que os testes são pouco eficientes. Se estiveram infectados, quem os infectou? A filha que esteve na Alemanha mas cujo teste tinha dado negativo? Se a filha esteve infectada, nenhum colega da escola foi contaminado, quando todos sabemos que coronavirus é altamente contagiante? CHINEZA KA TA NEM NUNKA TIVE KE KORONA!!

  3. jose pires dos santo

    eu , em particular nao gosto do estilo do jornalismo que o Eduino Santos , através do Noticias , anos 90, introduziu em Cabo Verde que se assemelha ao que fazem os tabloides ingleses . A nossa sociedade ‘e pequena e esse jornalismo as vezes investigativo e muitos vezes especulativo tem efeitos arrasadores no poder e na sociedade como aconteceu com as denuncias do Noticias nos anos 90 onde . O MpD , no poder na altura so consegui fechar o jornal atrarves de inúmeros processos no tribunal , que nao deram em nada e com um decreto lei feito so para retirar a publicidade das empresas publicas do jornal e assim levar ao seu encerramento . Nao concordei com essa forma , embora fosse um alivio nao ver mais noticias que nao espereravam pelo ordem do poder para serem publicadas havia situacoes que esse tipo louco de jornalismo deixava falta . E hoje , neste momento prova-se que continua a ser necessário esse jornalismo que nao tem medo por isso ‘e perigoso . Nesta pandemia o fundador do Noticias , agora no Noticias do Norte , volta ao velho estilo invsetiga , especula , nao segue a agenda oficial . O poder nao reage as suas criticas , mas ele continua … eu continuo a achar , como no passado , que esse jornalismos ‘e perigoso por que esta fora de controle

  4. Atento

    Você é um fascista então.

  5. José Júlio Soares

    Meu caro, José Pires dos santos, achas então que devemos amordaçar a imprensa?Que devemos colocá-los (todos os meios de comunicação social) “berbitche”? As perguntas são pertinentes e deviam ter sido colocadas há muito tempo. Infelizmente foram colocadas só agora. E devem ser respondidas por quem de direito, ou não concordas?

  6. Mutinha

    A minha pergunta é: será que o caso da paciente chinesa foi bem gerido? Note-se que foi um caso de 3 pessoas; se destinassem um espaço no HBS, muito bem controlado para evitar contactos com outras pessoas, com 10 médicos só para esses pacientes, pagando cada médico 500 contos por mês, evitava-se muitos constragimentos e, ficaria muito mais barato ao estado.
    Por causa de 3 pacientes, Isolou-se S.Vicente, S.Antão, S.Nicolau e Sal, as perdas devem ser incalculáveis.

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