OMS gera “guerra de trincheiras” na ONU entre EUA e China

30/04/2020 20:08 - Modificado em 30/04/2020 20:08
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Os Estados Unidos e a China bloquearam hoje no Conselho de Segurança da ONU um projeto de resolução franco-tunisino que exige uma “coordenação reforçada” no combate à pandemia de covid-19, deixando pouca esperança aos diplomatas para uma rápida votação.

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Em discussão há duas semanas, o texto prevê o apoio a um apelo feito a 23 de março passado pelo secretário-geral das Nações Unidas, António Guterres, para um cessar-fogo em todos os conflitos no mundo para facilitar a luta contra o novo coronavírus, com as divisões a acentuarem-se por causa de um parágrafo relacionado com a Organização Mundial de Saúde (OMS).

O projeto de resolução incluía o pedido de uma “pausa humanitária de 90 dias” para que se pudesse encaminhar para os países em conflito a ajuda às populações mais desfavorecidas.

Vários diplomatas contactados pela agência noticiosa France-Presse explicaram que, no texto, a China queria fazer menção à OMS, o que foi rejeitado pelos Estados Unidos.

Questionado a este respeito, o Departamento de Estado norte-americano indicou que não tem por hábito “comentar negociações em curso”, enquanto da parte chinesa não houve qualquer reação.

O bloqueio dos dois países poderá desaparecer muito rapidamente se Washington e Pequim encontrarem um compromisso, considerou um dos diplomatas à AFP, observando que a OMS não é mais do que um anexo da resolução, centrada no apoio a um cessar-fogo em cerca de duas dezenas de conflitos em todo o mundo.

Tendo em conta que o projeto de resolução tem um parágrafo em branco, o tal que seria dedicado à OMS e que tem de estar definido até ao fim das negociações, quer a França quer a Tunísia poderão também decidir simplesmente pela supressão da própria resolução, o que acarretaria também a possibilidade de um eventual novo veto da China poder ser também apoiado pela Rússia.

Depois de elogiar no início do ano a ação da OMS, o Presidente norte-americano, Donald Trump, desdobrou-se em críticas à atuação da organização, com base em acusações de falta de transparência e de não ter alertado suficientemente cedo para os riscos mundiais provocados pela pandemia de covid-19.

Os coautores do texto, bem como os restantes membros do Conselho de Segurança, limitaram-se a aceitar um compromisso, não especificado, entre os EUA e a China — dois dos cinco países com poder de veto (os restantes são França, Reino Unido e Rússia).

Segundo os diplomatas citados pela AFP, “não se registou, por isso, qualquer progresso” sobre a questão relacionada com a OMS desde o início da semana.

A votação, pedida há mais de um mês por Guterres e cuja votação era aguardada para o decorrer desta semana, torna-se, assim, cada vez menos provável a curto prazo, o que levou o secretário-geral da ONU a mostrar-se “preocupado” com o impasse.

“Estou particularmente preocupado pela falta de uma solidariedade satisfatória com os países em desenvolvimento. Faltam assim condições para responder à pandemia de Covid-19, que corre o risco de se propagar como um rastilho de pólvora, e para fazer face aos efeitos económicos e sociais dramáticos”, afirmou hoje Guterres numa conferência de imprensa na ONU.

Segundo fontes diplomáticas citadas pela AFP, não é assim provável que a votação ocorra ainda nos dias que faltam até domingo, pelo que resta aguardar pela próxima semana para se tentar “qualquer coisa nova”.

À exceção de uma videoconferência, realizada a 09 deste mês a pedido da Alemanha e Estónia, o Conselho de Segurança tem permanecido silencioso face à crise mais grave desde a II Guerra Mundial.

“Todos os nossos esforços dependem de um apoio político forte”, afirmou hoje o secretário-geral da ONU.

Contrariamente ao Conselho de Segurança, a Assembleia Geral da ONU (193 membros), cujo debate dos textos não se arrasta no tempo, já aprovou duas resoluções sobre a pandemia, uma para apelar à cooperação e outra para reclamar um acesso mais equitativo de todos os países às futuras vacinas.

A nível global, segundo um balanço da agência de notícias AFP, a pandemia de covid-19 já provocou mais de 227 mil mortos e infetou quase 3,2 milhões de pessoas em 193 países e territórios. Cerca de 908 mil doentes foram considerados curados.

Por Lusa

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