Laginha

17/01/2013 23:57 - Modificado em 17/01/2013 23:57

A Laginha com a sua praia segura de águas límpidas e profundas representa uma das dádivas da natureza mais apreciada e desfrutada pela população sãovicentina. Situada na cidade e de fácil acesso é muito procurada por crianças, jovens e adultos. Ali se pode nadar sem problemas, fazer todo o tipo de exercícios físicos, praticar modalidades desportivas diversas e sobretudo preservar e cuidar da saúde. É um anti-stress, um relaxante sem igual. E aos fins de semana, em tempo de ressaca, não há melhor gin tónico.

 

Não são só os nacionais que a demandam. Ela integra como não podia deixar de ser o roteiro turístico da ilha e quando são muitos os turistas presentes, particularmente na altura de passagens de Cruzeiros, é só ver a satisfação, a alegria e o prazer dessa gente que se sentem como se tivessem descoberto o Paraíso. Então nos meses de Outubro, Novembro e Dezembro em que lá fora o inverno é rigoroso, para eles é uma lotaria poderem desfrutar de um sol radioso e de um mergulho num mar cristalino de águas tépidas.

 

É ainda madrugada quando Laginha é sacudida no seu sono pelos que nela vêm desaguar procedendo dos diferentes bairros residenciais da ilha. Alguns vêm tomar o banho matinal refrescante e tonificador, outros vêm exercitar-se enchendo os pulmões do ar puro e iodado e outros , em maior número, procuram desentorpecer os músculos e tentar adiar a oxidação das articulações. A vida é sempre bela. O André Graça e as suas pupilas descobriram que tinham um ginásio à mão, a custo zero e logo decidiram formar, em todas as alvoradas, um quadro lindíssimo com aquele a puxar-lhes para exercícios físicos, numa manifestação soberba de eloquência corporal, graciosidade e ritmo. Nada mais saudável que cinzelar o corpo ao som do marulhar das ondas.

 

Da alvorada esse movimento prolonga-se por todo o dia até ao cambar do sol no horizonte.

 

Aos fins de semana e dias feriados é maravilhoso, ver-se o pessoal que esteve no bar Holanda, sob a sonoridade de Tanaia e banda e a malta jovem que desembarcou do Caravela ainda tonto da viagem, confluir-se com a malta que cedo ergueu para cuidar do físico e da saúde. São os contrastes magníficos que só a realidade mindelense é capaz de criar. É um cocktail das três coisas mais sabe na vida: amor, sabura e saúde.

 

No Verão atinge-se o pico com a estudantada em férias e os emigrantes a matar saudades.

 

Só que nem sempre Laginha teve essa preferência. Laginha já foi terra de ninguém. Nessa altura os seus frequentadores contavam – se pelos dedos das mãos. Sobressaía a figura de Carolino Gama brincando sempre com a sua bola de borracha acompanhado do seu inseparável cachorrinho que tinha espaço à vontade para dar azo à sua energia. De vez em quando lá estava nhô Roque, esse inveterado amante da natureza ,saboreando em exclusivo a imensidão daquela praia, com a toalha enrolada na cintura, deixando-se pachorrentamente ser lambido pela língua das ondas que suavemente espraiavam-se na areia, enquanto filosoficamente ia reflectindo sobre o futuro da terra cabo-verdiana e ganhando inspiração para a escrita de novas aventuras das virgens loucas.

 

Regularmente também lá estava, não na praia, mas na sua viatura, sob o resguardo da sombra de uma palmeira, essa figura impar da cabo-verdianidade, nhô Baltas. Explorando o prazer que só a solidão pode proporcionar, apetrechava-se agradavelmente de conhecimentos e sabedoria, consciente da responsabilidade intelectual que pesava sobre os seus ombros, enquanto militante empenhado da claridade. De quando em vez recebia a companhia do inseparável Djunga Fotógrafo para cavaquearem, naquela quietude, um pouco sobre as coisas da terra, caricaturando os muitos perus para tão pouco milho. Nessa altura, ainda a regionalização, como antídoto à desmedida concentração de poderes, não era a principal preocupação. A prioridade era a independência do país, as vias a serem seguidas para que o cabo-verdiano tomasse em mãos o seu próprio destino. Se fosse hoje, de certeza que as suas considerações e lucubrações haveriam de incidir sobre o definhamento que paulatinamente vai levando S. Vicente para uma vida vegetativa e sobre os trilhos a seguir para dar a volta por cima.

 

Afora essas presenças Laginha ganhava alguma vida quando o pessoal resolvia por aventura chegar à Matiota pelo lado do mar, independentemente de maré cheia ou baixa. Com a maré cheia e ondas agitadas era necessário alguma perícia para não se ser moído de encontro às rochas. Ou então , no regresso da Matiota aproveitava-se para o último tchiluf na Laginha lá onde havia o lajedo. Este prestava-se para alguns saltos. Mas poucos se atreviam a nadar para lá do lajedo. Imaginava-se que haveria muitos ouriços , centopeias, moreias, cracas, porcos-espinhos, água – vivas, polvos, até sardas. Logo era impensável atrever-se a cair naquele ninho de vespas.

 

Desse tempo ficou gravado na memória a cena insólita do unimog da tropa que vindo disparado na descida da Escola Técnica mergulhou na areia por pouco não ceifando a vida da Quelinha que descontraidamente ali se encontrava a banhar-se em sol. Por muita sorte só um braço foi afectado. Tinha na hora a companhia divina.

 

A Laginha não tinha a preferência de hoje.

 

O pessoal preferia a Matiota ou Step ou Praia dos Falcões, como se quiser.

Matiota tinha trampolim que os rapazes utilizavam para acrobacias e piruetas num show para impressionar as virgens loucas que desfilavam em fatos de banho ou biquínis quais modelos , conscientes do poder apelativo que os seus corpos cinzelados exerciam na malta. Dos rapazes que na época protagonizavam essas acrobacias ( mortais, chapas, parafuso, etc.) destacavam-se Tony Óscar, ( ex-Robbins, Ex-Voz de Caboverde) Damião e Jaime Beato da rua de Papa Fria, Rui Torres, Dentista, Isidro Portela (legalier),Val de Pracinha, Patanca, Toicabicinha, Jaime Brito e o irmão Calu da rua Suburbuna, Manu e Mário Matos, Carlos Bonzo, Tchalé Figueira, Lis de Camila, Polack e Zé Spencer, Djô Santos, Djôpan Oliveira, Djita e Calazans,António Roberto e Gustavo, Caúca, Duca, Hilário, Toni de Cacai, Manilito, Toifraqueza, Tólasalmeida, Nuno Vasconcelos, Quinquinha, Bichenta Chantre, Cagatera e Agnelo Macedo,Victor Ribeiro de Almeida, Batcha ou Nelson de Djibla, Djô e Carlos de Pudjim, estes dois últimos sempre com as suas inseparáveis barbatanas, adquiridas na loja de Orlando Vitória e Nina de nhô Mocho, na rua senador Vera Cruz, Cabanga, general Custer, e alguma malta do Canal e Alto Miramar, etc. É evidente que havia pessoas mais lofas nos saltos. O Silvestre, não era assim um especialista, por causa de alguma adiposidade, mas lá conseguia simular uns mortais de segunda divisão, causando de certeza algum sofrimento à água. Se entrasse mal na água, platch, fruto de uma barrigada, o tanquinho ficava logo cheio. As mães sempre que ele se aprontava para saltar ficavam de plantão para situações de emergência. Eu que também não era muito dado a saltos, fazia o meu número atirando os óculos para depois ir apanhá-los antes de chegarem ao fundo. Essa brincadeira foi posta de parte desde que uma moreia pensou tratar-se de uma isca moderna. O Bintim mais virado para o amor à terra, não politica mas ecologicamente , obviamente, preferia ficar com o Calu de nhô Roque em amenas conspirações e a fazer reportagens sobre as “misses” imaginando acrobacias sexuais.

 

Matiota tinha Caizim de Baleia que os mais afoitos alcançavam com saltos formados a partir do átrio da esplanada, saltando o corrimão, sobrevoando as pedras e amarando na água. Era preciso muita coragem para esse tipo de saltos e o segredo residia no momento de fazer a chamada. Qualquer falhanço num salto desses seria candidatar-se à obtenção de um bilhete de óbito. É claro que Caizim de Baleia nada tinha a ver com Caizim da Praia de Bote cuja vocação era facilitar o alívio dos intestinos para adubar aquela zona e para grande satisfação das tainhas.

 

Bons momentos foram passados nessa esplanada sob a gerência do Bana que também explorava o restaurante. As inolvidáveis noites ali passadas com Bana a despontar com o seu canto que mais tarde o projectaria no estrangeiro, e guindá-lo-ia à condição de REI vitalício da música cabo-verdiana, mornas e coladeiras.

 

Matiota, tinha naquele tempo, em que as rabatas, os assaltos e os roubos não eram o pão nosso de cada dia, – porque na altura sãocente era ôte côsa que ciceróne d vid airada, vapor na baía e tudo gente que sê ratcinha de cuscus , chlin pâ mim, chlin pâ bõ, atê gôte de Manê Jon tinha sê gemada pâ ingordâ – dizíamos, tinha um vestiário onde cada um guardava as suas roupas e um balneário para quem logo ali quisesse tirar o salitre. Apesar de os efectivos policiais na altura serem reduzidos, havia sempre a presença fiscalizadora de um agente da Capitania..

 

Matiota tinha pouca areia ou quase nenhuma. Era só calhaus. Aos fins de semana convertia-se num santuário para os organizadores de piqueniques e passeios, malta dos bairros periféricos que se acantonavam junto à Prainha protegidos pelos nichos naturais de algumas das rochas ali presentes. Os rusgas desses piqueniques eram tolerados, pois para além de serem considerados filhos de gente conhecida, na altura ainda não existia o individualismo doentio, nem o materialismo sem escrúpulos que hoje é, infelizmente, parte integrante da nossa cultura.

 

As actividades náuticas não faltavam. Diamantiano com a sua gasolina fascinava com manobras arrojadas em shows que causavam inveja. Lis Karantonis, Rui Miranda, John de Tuta eram os esquiadores de serviço. E muitos de nós, na altura preocupados com a musculação do físico, pedíamos aos negociantes de Baía botes emprestados para fazer a remos a travessia Praia de Bote – Matiota – Praia de Bote.

 

Matiota foi também terreno em que muitas consciências nacionalistas começaram a emergir fruto da confraternização, convívio e discussões profundas sobre o futuro independente de Cabo Verde e troca de experiências entre os quadros em formação superior nas universidades da “metrópole” de férias e os que se preparavam para também ali prosseguirem os seus estudos e os que aqui estavam já com tarefas de mobilização. Por essas e outras razões, a malta da Pide também gostava dos seus tchilufs na Matiota.

 

Seria omissão grave, se não se fizesse referência às famosas bóias, câmaras de ar, que além de servirem de apoio à natação, prestavam-se no mar largo, longe de olhares curiosos, a cena amorosas susceptíveis de inspirar o autor de Gabriela.

 

Matiota era um dos pontos de partida para a pesca submarina ali para as bandas de Lin de Guinche e mesmo junto ao ilhéu dos Pássaros. Eram eles Jorge Pizim, Nelson Dupau, Káká Barbosa e Tchiska, Jardim, Djô Borja, Toni Óscar, Zizim Figueira, Isidro Portela, Beitz, Djibla, Faustino Ferro entre outros. Também os malogrados Nolasco e Pedro. No regresso vinham carregados de espécies variadas de peixes e de mariscos que dava um grande jeito com o troco resultante das vendas de uma parte. Esse pessoal conhecia tão bem essas costas que alguma estórea ou lenda teria de ficar para a posteridade. Conta-se que uma vez Jorge Pizim apostou com um estrangeiro que era capaz de capturar uma lagosta à meia noite na Matiota, numa bazofiaria que conhecia tão bem os fundos daquela zona, melhor que as palmas das suas mãos. Aceite a aposta Jorge largou para a Matiota na sua moto Zundap, envergou o fato de mergulho e pouco tempo passado emergia com o seu troféu: uma lagosta e peras. A notícia correu mundo, deu brado e as más línguas para desfeitearem a proeza disseram que ele tinha deixado a lagosta ancorada num sítio qualquer.

 

Conta-se que muitas vezes alguns tubarões irritados com a presença de tantos intrusos no seu território, algumas vezes cobravam a sua comissão, qual ministro de finanças, arrebatando ao mergulhador mais isolado uma parte da sua captura, deixando a vítima com as pernas lixadas.

 

O patrono de toda essa malta era Jurgim Fonseca, o homem do cachimbo a George Simenon, o economista que fez do mundo submarino a sua principal paixão. A sua maior proeza foi a captura de uma raia gigante que depois foi exposta num dos guindastes do cais novo para estupefação e admiração dos mindelenses. Esse guindaste e mais os outros que ficavam nos cais de Miller’s eram os sítios eleitos pelo Peixe de Ricardo Tristão para fender o ar com saltos executados com tamanha perfeição e mestria que ao entrar na água nenhum pingo saltava e nenhuma espuma se formava na transparente superfície, uma lisa digna dos jogos olímpicos.

 

Matiota foi palco de muitas outras historias e lendas. A mais badalada é aquela do italiano, em tempos S.Vicente contou com uma presença significativa de italianos por causa de Italcable , que foi nadar para os lados da Prainha, afastando-se imprudentemente da terra. Ingenuidade da sua parte pois quando menos esperava foi surpreendido por um rei do mar tão grande e com um ar tão ameaçador que só a sua presença mataria um mortal comum de susto. O italiano que era um ginasta fora de série não desarmou, não se deixou amedrontar. Fiado nas suas capacidades acrobáticas enfrentou a primeira investida do predador marinho com um mortal que o afastou da abocanhada do animal. O tubarão enfurecido com o insucesso da primeira investida voltou a atacar , agora para não falhar, com uma ferocidade acrescida. Novo fiasco do tubarão pois o italiano instintivamente saltou para o lado oposto do dos dentes do animal, qual façanha do nosso grande e conhecido guarda-redes mindelense Armando Tchuquim a defender um tiraço do derbyano nhô Beta. O tubarão investiu ainda mais algumas vezes acabando por desistir ao reconhecer encontrar-se na presença de um adversário de respeito. Seguiu o seu caminho em jejum. O italiano coitado teve pouca sorte, acabou por falecer vítima de cansaço, provocado por uma manifestação excessiva de mortais. Essa lenda tem muitas versões, acabei por fiar nesta pois tem contornos de maior veracidade.

 

Conversa puxa conversa e fomos parar à Matiota por via de Laginha que só veio a ganhar expressão quando Matiota como praia foi convertida no actual estaleiro naval, levando o povo a transferir-se para a Laginha como alternativa, provando-se mais uma vez a inexistência do vazio na natureza.

 

S.Vicente, tem agora uma Câmara tricolor: verde, amarela e azul. Coisa positiva pois se se diz que duas cabeças pensam melhor do que uma, então se forem três tanto melhor. Tendo sido eleita como a praia mais solicitada na cidade estou em crer que está nos projectos da nossa edilidade a sua requalificação para maior comodidade dos banhistas que a demandam. Estou em crer que a Câmara tem intenções de construir lá um pequena passadeira junto aos pedregulhos de protecção da Enapor para aqueles que gostam de divertir-se com linha e anzol à noite, o que os libertaria do risco de serem pescados por uma viatura como vastas vezes já sucedeu na zona, um tanquinho para a criançada, um vestiário, alguns trampolins e, até, de incentivar algumas actividades náuticas para dar mais vida ao local. Que importa estar-se a vangloriar de que S.Vicente tem uma das mais lindas baías do mundo se nada se faz para tirar proveito dessa boniteza . Enquanto isso sei também que a lindíssima zona de Cova de Inglesa vai ter de aguardar até que surja um bom cristão, para tirá-la da situação de praia bastarda. O pessoal da zona sul da ilha terá de ter ainda muita paciência até que consiga também desfrutar dessa dádiva da natureza inexplicavelmente até agora votada ao abandono. Falta de visão, falta de sensibilidade, será? Não creio por acreditar na capacidade de quem tem a ocupação de nos dirigir.

 

Na Laginha só quem tem o hábito de ir nadar mais lá para fora, afastando-se do burburinho da multidão, boiando todo o tempo, onde a água é mais límpida, experimenta a deliciosa sensação de estar num aquário, tantos os peixinhos à volta, e transformar essa permanência, num momento de profunda meditação e reflexão, sentindo-se como se dentro de um útero marinho.

 

E não há nada mais saudável que começar o Ano Novo com um banho refrescante que tem a faculdade de nos revigorar, preparando-nos para os desafios de 2013, ano que se perspectiva tenebroso tendo em conta as nuvens ameaçadoras que já pairam no horizonte e os medonhos sinais já emitidos por quem mais ordena.

 

Amílcar Sousa Lima

limamilcar@cvtelecom.cv

 

  1. Maravlhoso,

    Não devemos esquecer, como é óbvio, as crioulinhas que por ali abundam
    Abraço
    A.J.

  2. Luís Ferreira Santos

    Obrigado Picau, fiquei de alma lavada com este teu retrato do eixo Matiota/Laginha, em que fomos conduzidos de uma forma dinâmica e deliciosa a estes espaço e tempo da nossa juventude, com impressões detalhadas da vivência e os seus protagonistas, tudo Mindelensemente sublinhado por um sorriso que se te advinha, descrevendo o que foi e agora é e simultaneamente lançando um olhar critico sobre o futuro próximo. Bem haja e um bráça Mindelense.

  3. Jorge Rocha

    Tudo o que Picau narrou,é verdade e bem verdade,lembro-me destes episódios todos e tambem dos respetivos personagens, tal como se fosse hoje embora fora de S.Vicente já lá vão uns 36 anos.Tambem houve um grupo de rapazes mais novos predominantes da zona de Chã de Cemitério que eu fazia parte(Jorge de Sal/Magra)e eramos exímio em saltos de chapa por cima das rochas ao lado da piscina e não só pois a malta saltava de tudo quanto era sítio com grande perícia,e tambem as celebres travessias.

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