Washington quer Londres com “voz forte” na UE

11/01/2013 01:30 - Modificado em 11/01/2013 01:30
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Responsável norte-americano avisou para risco de referendo sobre a União Europeia, pondo reticências aos planos de Cameron para rever futuro da relação com Bruxelas. Empresários também estão preocupados.

 

Um responsável da Administração norte-americana avisou o Governo britânico para os riscos de um referendo sobre o futuro da relação com Bruxelas, avisando que para Washington é importante que Londres tenha “uma voz forte dentro da União Europeia”. Um recado que se soma aos muitos enviados, de dentro e fora do país, ao primeiro-ministro David Cameron, em vésperas de um discurso em que promete definir a sua política europeia.

 

A intervenção, ainda sem local e data marcada, há muito que enche páginas de jornais e tem sido antecedida por um aceso debate entre aqueles (a começar pelo cada vez mais eurocéptico Partido Conservador) que pedem a Cameron um referendo para decidir se o Reino Unido deve permanecer na UE, e os que avisam que o país perderá influência e capacidade económica se sair da comunidade.

 

Apesar do sucessivo adiamento do discurso (que chegou a estar previsto para o final de Dezembro), Cameron tem repetido desde que chegou ao poder, em 2010, que pretende rever a relação com Bruxelas, “repatriando” poderes actualmente atribuídos à UE e excluindo-se de algumas políticas até agora comuns. O primeiro-ministro conservador diz que essa revisão poderá acontecer no âmbito de uma renegociação dos tratados destinada a reforçar a integração dos países que integram a zona euro – um reforço na coesão que Londres considera necessário para resolver a actual crise, mas do qual se quer distanciar.

 

A intenção de Cameron é que, concluído esse processo, os britânicos sejam chamados a pronunciar-se sobre os novos termos da adesão que, para alguns dirigentes conservadores, como o mayor de Londres, Boris Johnson, poderia limitar-se à participação no mercado único.

 

Questionado sobre este cenário, Philip Gordon, secretário adjunto do Departamento de Estado para os Assuntos Europeus, alertou que “os referendos têm muitas vezes posto os países a olhar para dentro”.

 

O responsável norte-americano, que está em Londres para um encontro com o executivo, sublinhou que cabe a Londres definir a sua política europeia e que o país será sempre um aliado valioso para Washington, mas acrescentou: “Temos vindo a reforçar a nossa relação com a UE enquanto instituição, que tem vindo a aumentar a sua voz no mundo, e queremos ver o Reino Unido com uma voz forte nessa UE”. “Isso é do interesse da América”, sublinhou.

 

Clegg: Londres é um aliado mais “valioso” por estar na UE

 

O primeiro-ministro, que tem tentado mostrar-se como um primeiro aliado de Washington, não reagiu às declarações do responsável norte-americano, e um porta-voz de Downing Street limitou-se a elogiar o destaque dado por Gordon à necessidade de a UE ultrapassar a actual discussão interna para se concentrar nas políticas de crescimento e na contribuição para a estabilidade internacional. Mas outros deputados conservadores não esconderam o seu desagrado.

 

O deputado Richard Ottaway, presidente da comissão de Assuntos Externos do Parlamento, disse à BBC que os comentários de Gordon foram “um pouco inesperados” e que há um consenso no país para a realização de um referendo. “É demasiado tarde para dizermos que não vamos realizar um referendo porque os EUA não querem”.

 

Mas num sinal de quão contencioso o tema é dentro da coligação no Governo, o vice-primeiro-ministro, Nick Clegg, disse compreender as preocupações americanas. “Desde os anos de 1950 que os americanos dizem que a relação especial entre o Reino Unido e a América se baseia parcialmente no facto de que somos valiosos para os nossos amigos americanos, e importantes para as pessoas em Pequim e Tóquio, porque temos uma posição importante na nossa própria vizinhança”. O líder dos liberais-democratas, o mais europeísta dos partidos britânicos, reafirmou que quem, como o Governo britânico, quer ter uma posição de influência no mundo, “em especial num mundo globalizado”, “a primeira coisa que deve fazer é ser forte na sua vizinhança”.

 

No mesmo dia em que Washington deixou o alerta, dez dos maiores empresários britânicos pediram ao primeiro-ministro cautela na sua política europeia. Os empresários, incluindo o milionário Richard Branson, admitem que há espaço para alguma negociação, mas alertam que uma revisão completa das relações com a UE “poria em risco o lugar do Reino Unido enquanto membro e criaria uma prejudicial incerteza para as empresas britânicas”. No caso de uma saída, exemplificam, Londres poderia demorar dez anos a renegociar os acordos de comércio de que beneficia actualmente, prejudicando as exportações do país.

 

 

 

 

dn.pt

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