Soncent ê sabê pa caga

15/06/2013 00:06 - Modificado em 14/06/2013 23:39

Chineses, Coreanos, Japoneses, a Ásia inteira, criaturas de olhos rasgados deixam o Cabnave e rumam em direcção ao Alto de Doca. Num ápice chegam ao areal da Laginha, sentam-se na esplanada Caravela, pedem umas boas canecas de cervejas e começam a falar a língua que só eles entendem. Cais acostável, avenida marginal, praça nova, de olhos rasgados em cima de menininhas de Soncent. Não sabem falar o crioulo, mas já sabem dizer que Soncent ê sabê pa caga. Com a ajuda do cicerone, ou sem ela, lá conseguem acordar o preço de um café e, como sabão, deslizam para dentro de um contentor, uma casa em construção ou perdem-se dentro de um jardim qualquer.

É cambar e apontar, escassos cinco minutos, lá estão eles com largos sorrisos nos rostos e a dizer, deveras “Soncent ê sabê pa caga”. Lojas Chinesas espalhadas pela cidade de Mindelo dando cabo das nossas lojinhas tradicionais, como o Djandjan, Toi Pombinha, Casa do Leão, Casa Benfica… Chineses já fazem parte do mosaico social desta cidade que une as pessoas de todas as raças. Badius brancos, badias de cabelos lisos e compridos em forma de caracóis, sampadjudos de balaios de bananas na cabeça, pulas pretos, chinesas de kadera redonda cima badia e ta ratxa crioulo, até parece que foram criadas a sentar-se na borda do pilão, mestiços de olhos rasgados, europeus de cabelos crespos, africanos com pele branca, mulheres muçulmanas com mini-saias e decotes ousados mostrando quase tudo, o que torna “Soncent mais sabê pa caga”.

Deixando de lado as criaturas de olhos rasgados, e olhando para as de pela negra e de cabelos crespo, podemos constatar que estes têm aproveitado e muito bem a crise, e com algumas bugigangas nas mãos para disfarçarem, continuam a botar poeira nos olhos das autoridades, e lá vão conseguindo fazer os seus negócios de forma tranquila. Aproveitam-se da miséria que assola Porto Grande e de porta em porta vão perguntando às velhinhas se elas não têm ouro para vender. Em cada empena, conversam com os jovens fragilizados e lá vêm eles com os dentes bem arreganhados e com a ideia cada vez mais formalizada de que “Soncent ê sabê pa caga”.

As raças que assaltam as ruas de Mindelo não se restringem às aqui supracitadas. Temos os emigrantes, Cabo-verdianos armados em Europeus, vindos de toda a diáspora. Bem vestidinhos, calçados só de marca, regados de perfume, alguns com recursos, outros quebrados que nem Djoza, cheios de bazofaria, desfilam pelas ruas numa grande algazarra, uma mistura de idiomas impressionante.

Assim, torna-se difícil saber qual é a língua oficial, mas para mim, não há dúvida que deve ser o badiu, pois por essas alturas os badius tomam conta da ilha. Laginha para um banho de sol, um engolir de pontche, um mergulho, um jogo de volei, duas flexões, duas barras, uns paralelos, um exibir de peitos, um desfile de fios dentais quase invisíveis, beleza crioula descontrolada, loucura total. Praça nova para umas sarandas, umas voltas sem dia de terminar, um autêntico desfile de Verão, manequins de todas as raças. Mais tarde, um Syrious ou uma Caravela, para escutar uma música shuinga, dançar, ou melhor, esfregar, roçar, uma locotida atrevida, paradinha, tarraxinha, um cola louco que mais parece de um filme porno. Mais uma música, um falar no ouvido, uma mão na cintura que escorrega para baixo, um apertar, corpos ensopados de suor, olhares de prazer, amassos, beijos esfomeados, convites para uma volta, um táxi, gueton e noutro dia “Soncent ê sabê pa caga”.

Mas os visitantes não param por aqui. Governantes, cooperantes, deputa(dos), gentes grandes ou simplesmente individualidades não perdem um Carnaval, um festival, um fim d’ one na txon de Soncent. Nestas épocas inventam qualquer desculpa para passarem uns dias neste Brasilin. Streap tease privado, cafés no hotel, orgias, paródias, bebedeiras, tudo pago com os nossos suados impostos e no fim, como não poderia deixar de ser “Soncent ê sabê pa caga”. Residentes, um puntchin o k sabe, um gruguin o k doce, um pexe frit, uma partida de futebol na Comp Bitin, um jogo de bisca, um partida de uril, uma reola na impena, discussão de Mindelense mais Académica, um sentar na ponta, às vezes um padjinha ou um pozinho pa po kel rai, dinheiro não é problema, paródia é uma massa e uma garrafa de vinho, lema dess pov e passa sabe.

Laginha ou Cova d’ Inglesa para refrescar, um passeio na Avenida, fazer um grogue na Praça, discoteca até pulmanhã, curti bo life e txau! Carnaval já txga, nós tud ta lá, Baía na mês de Agosto e nôs casa, Fim d’ one é um sabura, na verão ess lugar ta mata, ou seja “Soncent ê sabê pa caga”. “Soncent ê sabê pa caga”! Parece que todos estão a cagar em cima de São Vicente, sejam eles estrangeiros, emigrantes ou residentes. Então vejamos: estão a cagar para a situação de desemprego juvenil que é cada vez mais gritante e alarmante; cagam com agravamento na prostituição infantil que é cada vez mais chocante e humilhante; cagam para o aumento da delinquência juvenil que tem transformado esta cidade num grande campo de batalha; cagam nos pratos vazios de muita gente que passam dias sem matar jejum; cagam no consumo de drogas e de álcool descontrolado e preocupante por parte dos nossos jovens; cagam na falta de habitação e de casa de banho; cagam em cima de tudo; cagam em São Vicente; andam a querer cagar nas nossas caras, e ainda, com orgulho, achamos que “Soncent ê sabê pa caga.”

 

Hélder Fortes

 

  1. Albertino S

    Intessante..parabéns

  2. Silvina

    realistaicamente descrito as verdades de SV. TODOS NOS VEMOS E SENTIMOS ESSA REALIDADE E PORQUÊ CONTINUAMOS NESSA INERCIA???? O que esta escrito nesse texto não constitui nenhuma novidade, é tudo o que sabemos e vivemos diariamente e porquê ñ reagimos contra isso tudo??? ATÉ QUANDO VAMOS CONTINUAR A SER UNS MANDADORES DE BOCAS SEM TOMAR CONSCIÊNCIA QUE SOMOS NÓS OS CIDADÃOS DESSA ILHA QUE TEMOS QUE MUDAR O QUE ESTA MAL?? O governo já monstrou claramente k não ker saber d nós, CMSV ñ PRESTA!!!

  3. Muito obrigada pela sua coragem… ja e hora de nos povo acorda e oia realidade que no ti ta vive…

  4. Beatriz

    Uma forma diferente, generalizada e deturpada ( a meu ver, claro) de ver o que sempre se chamou de morabeza e alegria do povo de são vicente. Não creio que essa seja a verdadeira realidade da ilha que me viu crescer…

  5. Badiu

    Si nhoz ka compol ka nhoz spera ma nu sta bai compu nhoz el. Nhoz skeci festa nhoz trabadja.

  6. Sandra Martins

    Desde que conheci SonCent fiquei deslunbrada. O encanto do Mindelo, a grandiosidade que o mar quis traçar naquelas montanhas da ilha, um povo altamente acolhedor e culto. INa minha última estadia, infelizmente, deparei-me com o panorama que é descrito neste artigo. SonCent estava descaracterizado, o festival da Baía enlouquece (no mau sentido) toda a gente e de “SonCent Terra Sabe” vira a “SonCent ê sabê pa caga”. Está nas vossas, nossas mãos contrariar este movimento cultural atual!

  7. Steve

    Untom culpa e dos outros né ? 1 visao mut facil e falsa tb.
    Primer pessoa a cagar d’çima d’ pov de soncent e el mesmo. Te cre vida facil, te otxa que depois de sabe morré ka nada, te cre vive a cima de sej meio na illusao, te cre parcé o ké k’el ka é. Claro que depois d’1 movel de 15 contos, d’unsh roupinhas na Nani e d’1 festa na Mindel Hotel ja ka tem dinheiro pa compo casa de banho. Asiaticos (que te sacrifica na sej traboi) e mandjak tem alguma culpa na isso ?

  8. Nherr

    Uma verdade,que esta aos olhos de todos mas que nem todos querem ver.Aplausos para HF. O nosso O.Silveira ha muito que alertava que a nossa ilha estava mal, que tinha muita gente passando fome, e agora parece que o carro esta numa descida e sem freio. Que Deus nos acuda.

  9. Jandir

    Nao gostei do teu texto oké as racas tem aver com isso
    Tudo em qualquer comunidade digna do nome vivem
    Culturas différentes asseitando diferenca de cada um
    “fragilizados e lá vêm eles com os dentes bem arreganhados ”
    Tu nao gosta deles?

  10. Mindelen. preocupado

    Não entendo os cabo verdianos, nunca estão de acordo com aquilo que o outro diz. Há algumas coisas que todos deviam estar de acordo e dar as mãos para mudar o rumo que a nossa sociedade está a tomar. Os valores que há bem pouco tempo eram “praticados” dentro da própria família já não se faz, e muitas vezes, os pais preocupam-se somente em “dar” aos filhos, satisfazendo as suas vontades, e quiçá, até ensinando-os através do mau exemplo a pisar o outro, sem ter em conta a sua dignidade.

  11. Mindelen. preocupado

    Continuando o meu raciocínio anterior, na nossa sociedade tornou-se “moda” tirar o maior proveito do outro e quando já não tem interesse joga-se fora. O nosso compatriota Hélder trouxe à baila um tema, que no início podia-se achar banal, mas depois dos comentários finais, viu-se que está realmente preocupado com esta “bandalheira” que os nossos governantes(Presidente da República, Governo e Presidente da Câmara) nos têm colocado.

  12. Mindelen. preocupado

    Se falarmos dos problemas sociais e religiosos criados pelos africanos vindos do nosso querido e glorioso continente: África e dos imigrantes da Ásia, estamos a fazer descriminação, se falarmos da prostituição, da droga e da violência que advém de tudo isso, deixamos de ser uma ilha de “morabeza”. De certeza, uma boa parte dos mindelenses trocariam este termo, que muitas vezes é utilizado para nos fazer chantagem, por Paz, Alegria, Liberdade, Tranquilidade… Boas Festas e Feliz 2013 a todos!

  13. Mário Matos

    Helder Fortes usou da paródia de forma magistral para denunciar uma situação social e económica que ele considera degradada. Parabéns Helder! Recursos de escrita desse género não são comuns entre nós talvez por isso tenhas que gramar alguma incompreensão.Sempre abominei essa expressão “Soncente e sabe pa kágá” e algumas das razões para isso estão no teu texto. Espero que continues este “Combate pa Soncente” e espero poder partilhar contigo ideias e acções para esse combate. Bom Ano!

  14. Helder Fortes

    Caro Mário Matos, espero que sim! Já agora deixo-lhe um link para continuares a ler o que tenho escrito sobre Soncent
    http://cafedesoncent.blogs.sapo.cv/

  15. Kiki

    Parabéns pelo texto e pelo bom humor.
    Contudo, discordo em parte contigo. Quando é que vamos parar de culpar os outros pela nossa desgraça? Enquanto a culpa for do chinês ou (do olho rasgado, como voce disse e nao gostei da expressao) dos africanos, nunca iremos nos suceder. Ė hora de nos responsabilizar pelos nossos actos. Os cabo-verdianos em geral ficam à espera do Governo, de tudo. Se eu não consigo estudar, a culpa é do governo. Se eu não consigo um emprego a culpa é dos africanos. Se eu sou uma prostituta a culpa é do chinês. Os S. Vicentinos são boa gente, mas são aproveitadores. Nao aproveitam da boa oportunidade para se sucederem, mas aproveitam das pessoas. Querem a coisa na “mansa”. Preguiça e basofaria é com as gentes de S.V
    Vamos sim celebrar a diversidade. Toquem a trabalhar e parem de culpar os outros.

  16. klisterPeCagá

    Est títle vem mesm a prposssito.
    Prop pa cagá tud dia. Cu Klister daga salgód de mar agora que Soncent fcá prop sab e cada dia más ta cagá. Nos Klister e especial el ta bem directaement de ‘praia’ de mar. Tud mindlense tem que lajá pa tmá se part de clister porqu’el eh de borla.

  17. Pereira

    Mi e sanvicentine, mas Badiu tem razão.

  18. elza

    mt mt interesssant.p alé e reflecti.1 perspectiva diferente dess “soncent é s p c”!mt bem visto

  19. elza

    mt mt interessant.p alé e reflecti.mt bem visto!n perspectiva diferent dess “soncent é s p c”

  20. ETM

    Simplesmente humilhante e triste.

  21. Chris Lima

    Soncente kaê sabe pa “cagá”, Soncente está “cagado” pa fronta e a culpa dessa “caganeira” toda, é nada mais nada menos que a nossa. Toda nossa. Os estrangeiros apenas realçaram a definição daquilo que encontraram. Somos nós os caboverdeanos/ sanvicentinos que semearam essa realidade ,e, hoje paira algum nojo no ar para admitirmos que estamos todos “cagados”, daí a famosa frase que carateriza soncent.

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