Constituição aprovada com 63,8% no Egipto: um “dia triste” para a oposição

25/12/2012 20:57 - Modificado em 25/12/2012 20:57
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É oficial: o texto da Constituição do Egipto, elaborado por uma assembleia constituinte dominada por islamistas, foi aprovado em referendo com 63,8% dos votos e uma participação de 32,9%.

 

A divulgação dos dados tinha sido adiada até que fossem esclarecidas alegações de irregularidades durante a votação, levada a cabo nos dias 15 e 22 de Dezembro: abertura tardia de assembleias de voto, assembleias abertas sem supervisão de um juiz, presença de elementos a tentar influenciar o sentido de voto.

 

A própria oposição (laica, liberal e de esquerda) parecia ter reconhecido uma derrota ainda antes do anúncio do resultado oficial. Mohamed ElBaradei, o Nobel da Paz que lidera a Frente de Salvação Nacional, tinha afirmado, numa entrevista à emissora norte-americana PBS: “O texto vai passar. Em minha opinião, será um dia verdadeiramente triste para o Egipto, porque vai institucionalizar a instabilidade.”

 

Sugeriu que este texto deveria ser uma espécie de constituição provisória até que se chegasse a um novo projecto com base no consenso.

 

Com pouco mais de 30% de participação, o referendo não é visto como conferindo legitimidade democrática ao texto, elaborado por islamistas aliados do Presidente, Mohamed Morsi. Muitos temem que ambiguidades no texto abram espaço a uma aplicação mais estrita da lei islâmica (sharia).

 

O líder da Irmandade Muçulmana, partido de Morsi, disse esperar que a vitória do “sim” deixe as divisões para trás. “Estendemos a nossa mão a todos os partidos nacionais e todas as forças políticas”, escreveu Saad al-Katatni na página da Irmandade no Facebook. “Vamos virar a página.”

 

Mas o facto de a Constituição ter sido imposta tão rapidamente e no meio de tanta contestação faz crer que acontecerá o contrário.

 

“A batalha do referendo acabou, e a guerra sobre a legitimidade da Constituição começou”, dizia o jornal Al-Shorouk.

 

Daqui a dois meses haverá novas eleições, um novo campo para a batalha entre uma sociedade que ficou dividida entre islamistas e não-islamistas.

 

Problemas económicos

 

Analistas dizem ainda que, ao fazer aprovar o texto tão rapidamente, Morsi arrisca ainda perder apoio de que precisa para impor medidas económicas para um novo empréstimo de 3,6 mil milhões de euros do Fundo Monetário Internacional (FMI).

 

Antes do referendo, o Presidente chegou a anunciar aumentos nos impostos a bens de consumo e serviços, de bebidas alcoólicas a tabaco, de chamadas telefónicas a licenças de automóvel. Mas acabou por voltar atrás depois de uma onda de críticas.

 

A economia egípcia tem sido muito afectada após a queda do antigo Presidente Hosni Mubarak. As reservas egípcias já perderam metade do valor desde que Mubarak foi derrubado no início de 2011. O défice está em 11% do PIB e uma medida recente deixou muitos preocupados: é ilegal levar ou trazer mais de dez mil dólares em dinheiro, em qualquer moeda, para dentro ou fora do país – uma medida que pretende deixar a libra egípcia menos exposta a desvalorização.

 

A agência de rating Standard and Poor’s baixou agora a classificação do Egipto de B para B-, dizendo que mais instabilidade poderá levar a uma nova descida da classificação.

 

 

 

 

jn.pt

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