Pela primeira vez em 40 anos há mais mexicanos a sair dos EUA do que a entrar

25/04/2012 00:39 - Modificado em 25/04/2012 00:39
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O tempo em que aldeias inteiras do México se mudavam para os Estados Unidos à procura de trabalho e oportunidades poderá ter chegado ao fim. Pela primeira vez em mais de 40 anos, o número de mexicanos que imigraram para os EUA foi ligeiramente inferior aos que atravessaram a fronteira de regresso ao México. Uma em cada 10 pessoas nascidas no México vive nos Estados Unidos.

Christian Ballestero é mexicano, já tentou atravessar diversas vezes a fronteira para os Estados Unidos e foi deportado quatro vezes. Esteve num abrigo para imigrantes em Matamoros, junto à fronteira com o Texas, e num centro de detenção em Los Angeles. E se não consegue ser mais um a imigrar para os EUA isso deve-se ao aumento de penalizações para reincidentes nos Estados Unidos e aos cartéis da droga no México, contou ao Christian Science Monitor.

“Os cartéis são como patrulhas de fronteira do lado de cá”, diz Ballestero. “Ameaçam-nos e dizem-nos que se não pagarmos nos cortam a cabeça”. Os grupos ligados ao narcotráfico são uma das razões para a diminuição da imigração de mexicanos para os Estados Unidos, mas esta deve-se também à crise económica e à falta de trabalho do outro lado da fronteira, à recessão na área da construção civil, ao aumento das deportações, às leis de imigração mais restritivas em estados norte-americanos como o Arizona ou o Alabama e à diminuição da natalidade no México.

Desde 1970 que a imigração do México para os Estados Unidos vinha a aumentar, tendo o número de imigrantes atingido o auge em 2007. Nessa altura viviam nos EUA cerca de 12,6 milhões de mexicanos, mais do que um Portugal inteiro. Mas, segundo um relatório do Pew Hispanic Center divulgado ontem, esse número já baixou para cerca de 12 milhões. Cerca de metade estão em situação ilegal.

Entre 2005 e 2010 chegaram aos EUA 1,37 milhões de mexicanos, enquanto 1,39 milhões atravessaram a fronteira de regresso ao México, segundo o relatório, baseado em diversas fontes mexicanas e norte-americanas, censos e outras estatísticas de organismos oficiais. Os autores do estudo referem uma estagnação, dada a pequena diferença encontrada, mas admitem que a situação verificada ao longo dos últimos 40 anos se esteja a reverter.

Certo é que a situação detectada é muito diferente da que se verificava, por exemplo, nos anos de 1995 a 2000, quando cerca de 3 milhões de mexicanos foram para os EUA e apenas 700 mil fizeram o percurso contrário. Se o número de mexicanos que tentam a sorte nos EUA diminui isso está também relacionado com o aumento do regresso ao México de imigrantes em situação ilegal, que chegaram a ser 7 milhões em 2007 e são agora 6,1 milhões, segundo o Pew Hispanic Center.

Cerca de 30% dos imigrantes nos Estados Unidos são mexicanos, tal como 58% das pessoas que se encontra em situação ilegal nos EUA. Nos últimos anos, atravessar a fronteira para Norte tem-se tornado cada vez mais arriscado, o que justificará o facto de as detenções na fronteira de mexicanos que tentam chegar aos Estados Unidos terem diminuído de um milhão em 2005 para 286 mil em 2011.

“O endurecimento das políticas de imigração tornou mais difícil, caro e perigoso para os mexicanos atravessar a fronteira para os EUA”, sublinha Jeffrey Passel, demógrafo do Pew Hispanic Center e um dos autores do estudo. “Para além disso, a crise económica norte-americana pôs fim ao íman que representava a oferta de emprego nos Estados Unidos e as mudanças demográficas no México diminuíram o número de potenciais imigrantes”. Se em 1960 uma mulher mexicana poderia ter mais de sete filhos, em 2009 esse número diminuiu para dois, sublinhou o Washington Post.

A diminuição de detenções na fronteira ocorreu, no entanto, a par de uma grande aumento das deportações. Só em 2010 foram deportados pelas autoridades norte-americanas cerca de 400 mil imigrantes em situação ilegal, dos quais 73% eram mexicanos.

O controlo na fronteira tem sido uma questão sensível entre Washington e o México, com os EUA a pedirem um maior combate à violência e aos cartéis no país vizinho e o Governo de Felipe Calderón, que mobilizou 50 mil militares para travar o narcotráfico, a pedir um maior controlo do tráfico de armas por parte dos EUA.

A questão da imigração não tem passado à margem da campanha eleitoral nos EUA para as presidenciais de Novembro, e se Obama já tinha prometido uma reforma das leis da imigração que possibilite a permanência nos EUA das pessoas em situação ilegal que aprendam inglês e paguem uma multa, o candidato que se encontra na frente da corrida republicana à Casa Branca, Mitt Romney, já manifestou o seu apoio à lei da imigração do Arizona que nesta quarta-feira deverá ser debatida no Supremo Tribunal. Os juízes irão decidir se esta legislação não ultrapassa as leis federais ao permitir, por exemplo, que as autoridades possam exigir a documentação a qualquer pessoa que suspeitem estar em situação ilegal nos EUA.

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