Breve Abordagem da Reivindicação e Testemunho do Quotidiano Caboverdiano na Obra de Jorge Barbosa

7/12/2012 23:41 - Modificado em 7/12/2012 23:41
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Jorge Barbosa testemunhou, através da sua produção literária, o quotidiano caboverdiano, dando uma certa refulgência ao enfraquecimento do porto grande, à adversidade das secas e a todas as inferências daí decorrentes. Deu-nos a conhecer, ainda, o padecimento do seu povo, conquanto de aparência sarcástica, na medida em que o regime salazarista que também dirigia o arquipélago obstruía qualquer tentativa da sua disseminação, e, quem o desrespeitasse era punido. Por isso, o autor pensando no seu bem estar e no da sua família, como o próprio assumiu, limitou-se a dar a conhecer a vivência caboverdiana, embora o seu espírito revolucionário tenha estado sempre presente.

Assim, em determinada altura, o poeta olha para trás e chega à conclusão de que deveria ter sido “panfletário”, fazendo uma espécie de autoanálise retrospetiva da sua consciência literária, visto que, se o tivesse sido, a sua escrita teria sido diferente porque teria adotado uma atitude literária em que o seu espírito revolucionário teria sido mais visível. Por outro lado, teria tido muitos inimigos porque estaria a desafiar o poder colonialista, donde resultaria a sua prisão e tortura sob a acusação de revolucionário. Nesse sentido, a precaução e o medo foram mais fortes e impediram-no de o ser. E, se antes não teve a coragem de o ser, agora já não vale a pena porque  já é “tarde de mais”:

“Era para eu / ser panfletário. // Os meus escritos / teriam a verrina / as iras / o rubro / grito da revolta! // […]. // Combateria / os tiranos / os arbitrários / os agiotas / os exploradores da miséria / e do trabalho dos pobres / […] / Mas agora / com o resíduo do tempo / tingindo de branco / os meus cabelos / gotejando / doloroso / nos meus ossos / é tarde de mais / para a magnífica aventura // Era para eu / ser panfletário.” [1]

 

O poeta termina o poema com um lamento: “Era para eu / ser panfletário.” Contudo, ao dizer: “Era para eu ser”, está a sê-lo. Pode não o ter sido no sentido político, mas acabou por sê-lo no sentido poético, usando a escrita como insígnia de luta.  Aliás, o próprio poema mostra as críticas feitas ao regime colonialista, em que testemunha as torturas a que os panfletários estavam sujeitos.

A necessidade de sentir que deveria ter sido panfletário, resultante dos problemas presenciados no quotidiano das ilhas, fê-lo fazer um balanço dos cinco séculos da colonização portuguesa no poema “Meio Milénio”, um longo poema escrito em 1959, inspirado nas comemorações dos quinhentos anos do descobrimento do arquipélago.

Nesse texto, o poeta critica o abandono a que estava votado o Porto Grande da ilha de S. Vicente, (“5 séculos / o Porto Grande / (agora / tardiamente lembrado) / desde sempre abandonado / na rota do Atlântico”)[2], aproveitando também para reivindicar a necessidade de se construírem mais estradas, mais bibliotecas e de se equiparem as escolas rurais com carteiras, mapas, e giz e os portos com mais guindastes:

“5 séculos / 5 / estradas talvez. // Mas não vale / a pena contar / as estradas / a água / os fios telefónicos / as bibliotecas / as pequenas escolas rurais (sem carteiras / sem mapas / sem giz). // Portos / cais / guindastes (mecânicos / apenas um) / não vale a pena contar.”[3]

 

Em relação à saúde, reivindica a necessidade de aumentar o número de médicos, de enfermeiros, de hospitais, de maternidades, de máquinas de raios X e de postos sanitários e ainda reclama a falta de pensos e de tintura nos poucos hospitais do arquipélago:

“Médicos / enfermeiros / hospitais / maternidades / raio X / postos sanitários (sem pensos / sem quinino / sem tintura) / não vale a pena contar.”[4]

Dessa feita, o poeta dá-nos o seu testemunho da triste realidade a que o caboverdiano estava sujeito e chega à conclusão de que “não vale a pena contar” porque dos quinhentos anos da presença dos portugueses pouco ficou, a não ser a emigração forçada para as roças de S. Tomé:

“5 séculos / não vale / a pena contar / o pouquíssimo que ficou / da longa / jornada sem venturas / não vale / a pena contar / o muito / quase tudo / que nunca tivemos. // 5 séculos / homens / mulheres / crianças / amontoadas nos porões / da nossa frota imperial / no rumo de S. Tomé / não vale a pena / não podemos contar.”[5]

 

OBS:  Foi utilizado o novo acordo ortográfico.

Elaborado por Hilarino da Luz, Doutorando em Literaturas e Culturas de Língua Portuguesa, especialização em Estudos Portugueses. E-mail: hilarino_luz@yahoo.com.br

 



[1]BARBOSA, Jorge, “Panfletário”, in Obra Poética (org. de Arnaldo França e Elsa Rodrigues dos Santos), [Lisboa], Imprensa Nacional Casa da Moeda, 2002.pp. 323-324.

[2]Idem, ibidem.

[3]Idem, p. 377.

[4]Idem, ibidem.

[5]Idem, p. 378.

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