Enrique Peña Nieto, o democrata acidental

3/12/2012 03:21 - Modificado em 3/12/2012 03:22
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Enrique Peña Nieto, que tomou posse este sábado como Presidente do México, tem 46 anos. É um jovem, para os padrões da política local. “O objectivo da minha geração – disse numa entrevista – não é ideológico ou de clientelismo. É libertar o México da pobreza.”

 

Uma parte do povo não acredita nele, e houve manifestações na Cidade do México e em muitas outras do país contra esta tomada de posse. Os analistas mais pragmáticos estão optimistas. Mesmo que não fosse esse o seu desejo, Nieto vai ser um “democratizador”, disse o jornalista e opinion maker mexicano Jorge Zepeda ao jornal espanhol El País.

 

À Reuters, o mesmo Zepeda – que escreve no site de notícias e análises sinembargo.mx – explicou que “os astros alinharam-se” para o início do mandato de Peña Nieto. Tem tanto a seu favor: a economia mexicana está a crescer, a violência do narcotráfico está a decair, a sociedade civil está cansada das “forças do bloqueio” e quer estabilidade e progresso.

 

A eleição de Enrique Peña Nieto não foi pacífica, como não foram as presidenciais que elegeram o seu antecessor, Felipe Calderón. A polarização ideológica partiu o país em dois e o resultado foi a contestação nos tribunais da vitória do candidato do Partido Revolucionário Institucional (PRI). Confirmado no cargo, Peña Nieto tratou de se mostrar ao mundo, legitimizando-se como chefe de Estado e como representante da tal geração priista sem clientelismo. Visitou a América Latina primeiro. A União Europeia foi a seguir e depois os Estados Unidos, que partilha uma fronteira de mais de 3000 km com o México.

 

Procurou uma dimensão internacional e anunciou uma agenda de reformas que, se aplicadas, derrubarão em primeiro lugar os velhos alicerces do PRI, o partido que dominou o país durante 71 anos e saiu do poder nas eleições de 2000.

 

O novo Presidente integrou na equipa do Governo alguns elementos da velha guarda (mais do que os analistas previam), e também se rodeou por gente mais nova e profissionalmente definida – priistas com carreiras e não apenas priistas de carreira (o próprio Nieto licenciou-se em Direito e trabalhou na administração de empresas) que estiveram com ele quando foi governador do estado do México e durante a campanha eleitoral. Quer realizar reformas fiscais, abrir a empresa petrolífera estatal ao capital privado.

 

Os analistas mexicanos dizem que, em teoria, Nieto tem um programa capaz de suavizar a polarização ideológica no órgão legislativo. E que será de dentro do PRI – nas organizações e nos estados, muitos controlados por este partido, onde a velha guarda resiste a abandonar um sistema de poder quase feudal – que deve esperar a maior resistência à mudança. “Ele tem de ter cuidado na forma como lida com eles. Apesar de ser inteligente e hábil, terá de ter em conta estes grupos”, disse Jorge Castañeda, que foi ministro dos Negócios Estrangeiros no primeiro Governo pós-PRI, liderado por Vicente Fox (Partido de Acção Nacional, PAN).

 

O historiador Enrique Krauze, citado num artigo dos jornais da rede McClatchy, sublinhou que o programa de reformas de Nieto – que chegou a falar na refundação do PRI e, eventualmente, numa mudança de nome – é contrário ao ADN de um partido populista, “clientelista, de ideias antiquadas, interesses enraizados [nas grandes empresas] e ligações ao crime”.

 

O sonho de mudança dos mexicanos com a eleição de Fox, um milionário e gestor à moda americana, desvaneceu-se depressa, com o órgão legislativo tornado “força de bloqueio”. Fox fez depender o sucesso do México da aliança estratégica (falhada) com os EUA, em especial na luta contra o narcotráfico.

 

O vazio de Calderón

 

A Fox sucedeu outro panista, Felipe Calderón. O vazio, ou o impasse institucional, manteve-se, explica a Reuters. Hoje, continua a análise desta agência, a sociedade exige normalidade no funcionamento e na relação entre as instituições, deseja uma “arbitragem” que Nieto lhes pode dar. “O sentimento geral é o de que a guerra entre os grupos que queriam preencher o vazio só gerou ineficácia. Precisamos de um Presidente mais executivo”, disse Zepeda.

 

O plano de Nieto para o seu mandato de seis anos é ambicioso. Quer aumentar em 6% ao ano o crescimento económico (foi decrescendo com Calderón, e este ano fica em 1,6%), reduzir para metade a taxa de homicídios, criar uma força paramilitar de combate ao crime organizado (e usar mais estratégia e menos força bruta), diversificar na escolha dos parceiros estratégicos.

 

Se já começou a visitar países da América Latina (o Brasil é a prioridade, Fox e Calderón voltaram costas à região a que o México pertence naturalmente), também andou pela União Europeia e, por fim, esteve em Washington, onde conversou com o Presidente Barack Obama de política de imigração. O México é um dos maiores parceiros comerciais americanos (80% das exportações) e é também o país que mais fornece imigrantes aos Estados Unidos da América, sendo 30% deles ilegais.

 

Tomou posse no edifício do Congresso, com os manifestantes lá fora a gritarem palavras de ordem contrao priista. No exterior do edifício, a polícia municipal criou um perímetro de segurança, porque eram esperados milhares de pessoas – houve rebentamento de petardos e lançaram-se cocktails Molotov. Foi ponderado que tomasse posse no palácio presidencial, perante uma plateia reduzida de convidados e não no Parlamento, por razões de segurança, como aconteceu com Calderón.

 

A reconciliação é, talvez, a primeira missão do Presidente mexicano. Nesta semana, os partidos da oposição com representação parlamentar firmaram um pacto de entendimento para garantir a governabilidade do país e a aprovação das reformas necessárias à economia – e que diluirão o que da velha edificação priista. Uma aliança inédita para evitar a perda de mais seis anos da vida do México.

 

E para evitar que, em final de mandato, Enrique Peña Nieto, o Presidente que tem os astros alinhados a seu favor, tenha que fazer um discurso de despedida como o de Calderón. Num dos seus últimos actos públicos, a 27, o Presidente cessante presidiu à inauguração de um túnel rodoviário. E disse: “Entre 1980 e 2006, ou seja, 26 anos, construíram-se 16 túneis no país. Este Governo construiu 91.”

 

 

 

publico.pt

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