Crianças e jovens na época da imagem e da moda estapafúrdia

14/10/2018 23:07 - Modificado em 14/10/2018 23:07
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Vivemos, neste mundo da imagem dominante, uma espécie de apatia no nosso quotidiano, que nos leva a demitirmos, bastas vezes, de pensar o que nele vemos ou julgamos ver. Há utilização excessiva da imagem em muitos jovens, e também da moda, que mais não é do que um novo ridículo, com jovens usando jeans esfarrapados nos joelhos e coxas, cortes de cabelo de imitação de algum jovem futebolista pateta, o que é explicável em crianças e adolescentes, mas já não em adultos, como, por vezes, se vê nalguns indivíduos, a moda generalizada de ser chique as mulheres andarem na rua com um cão à trela. Pais e educadores preocupam-se com essa forma de entretenimento de crianças e jovens, semelhante a uma dependência, ou exagerando em modalidades mais caricatas da moda, porque os adolescentes aproveitam todo o tempo disponível para jogos de vídeo e encarando ecrãs, aceitando mal as interrupções propostas pelos pais, reagindo com agressividade e regressando depressa ao mesmo.

Um dos erros cometidos pelos pais é proibir o uso do computador como castigo, esquecendo-se de definir previamente as regras de utilização da internet e outros meios visuais. É que as regras devem anteceder as sanções (e nunca virem depois); quanto aos exageros na moda, isso passará com o tempo, quando aparecer outra ainda mais ridícula, porque os adolescentes gostam de imitar outros adolescentes e até seguem mais facilmente os conselhos e ordens destes do que de adultos.

A leitura e a escrita são a melhor forma de fazer pensar e de travar um pouco a rapidez da vida actual. A capacidade de brincar e o jogo infantil contribuem para desenvolver a fantasia e a entrada no mundo real. É pena que muitas crianças pensem que “brincar” é manipular o Play Station, sendo incapazes de inventar um jogo do tipo “faz de conta” ou de criar uma pequena representação teatral como acontecia antigamente. Todos esses meios extraordinários de comunicação e informação de que dispomos actualmente, se fossem bem utilizados, dariam qualificações invejáveis aos jovens e menos jovens; mal utilizados, embrutecem os jovens por lhes diminuir a capacidade de pensar e de ter ideias próprias.

A dependência da internet e do smartphone é de tal ordem que, como previu Albert Einstein como resultado indesejável do desenvolvimento tecnológico, já se namora por esse meio, enviando mensagens que declaram a paixão ou o ciúme dos adolescentes enamorados. Já é difícil encontrar na rua, em esplanadas ou cafés, jovens, sobretudo raparigas, sem um smartphone alapado ao ouvido, falando, dedilhando ou ouvindo mensagens e música, com auriculares enviados nos ouvidos. Com muita frequência também se encontram casais nos cafés e esplanadas, cada um com o seu smartphone vendo imagens, quase indiferentes ao parceiro, mudos ou esboçando por vezes sorrisos de encantamento ou de idiotia.

Essa dependência do computador, smartphone e seus derivados, isto é, de ecrãs, leva a uma vida sedentária de crianças e jovens, a falta de diálogo familiar, à obesidade e até ao bullyng nas escolas, quando não à violência inqualificável por excitação de centros cerebrais, dos neurónios-espelhos, de que já falei noutro artigo. Daí o perigo dessa estimulação, mormente em crianças e jovens, quando os centros cerebrais de controlo, da ética, moral e bom senso, situados nos lobos frontais, ainda não estão amadurecidos (antes dos 25 anos de idade); conclui-se, portanto, que os jogos de video violentos são perigosos para crianças e jovens que passam horas e horas “matando” gente nos ecrãs de video e assistindo a cenas de extrema violência, podendo criar neles tendência violenta. Anders Bresnik, esse jovem norueguês que “caçou” 70 compatriotas à carabina automática, por serem de um partido de esquerda de trabalhadores tolerantes para com os muçulmanos, passava horas e horas entretido em jogos de video violentos. O facto levou a Noruega a proibir a importação e venda desses jogos violentos, que a Neurociência provou serem activadores de centros de violência cerebrais. A excessiva estimulação cerebral por esse tipo de entretenimento, obtido através do recurso excessivo a ecrãs (computador, smartphone, etc.) é prejudicial ao desenvolvimento saudável da criança. Quanto às modalidades da moda e sua evolução, desde que não enveredem para a pornografia, pouca influência terão sobre crianças e jovens, até porque, felizmente, o ridículo não mata.

Uma alternativa recomendável aos ecrãs são os jogos desportivos coordenados por adultos, para promover a amizade, para a interiorização de regras e para o domínio da frustração e aceitação de derrota, um conjunto de valores essenciais para o futuro.

É evidente que educar implica vigiar e traçar limites, porque os jovens necessitam de conhecer os limites das suas eventuais acções, de respeitar normas de comportamento, devendo os pais ser firmes na imposição de normas de comportamento, ter rotinas, e, sobretudo, coerência; não progridem em harmonia se não houver flexibilidade e possibilidade de escolha dentro das regras de disciplina que se conseguem com estímulos, recompensa e firmeza. Ter, no entanto, em conta que em situação limite, os pais não devem hesitar; nas questões essenciais de saúde e segurança, os pais não  negoceiam: decidem e explicam por que razões o fazem.

 

Parede, Agosto de 20018                                                             Arsénio Fermino de Pina

(Pediatra e sócio honorário da Adeco)

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