DE MAL A PIOR – UMA AMEAÇA BEM REAL

12/10/2018 00:25 - Modificado em 12/10/2018 00:25

COMENTÁRIO

Não há nada que esteja mal e que não possa ainda ficar pior – esta é uma das Leis de Murphy que traduz a realidade, perspicácia e profundidade das suas desconcertantes reflexões.

Mas, o que é que está mal? Bem, o que está mal é muita coisa, mas o problema do momento coloca o foco no inqualificável ataque perpetrado contra a pessoa de Janira Hopffer Almada, Cidadã, Mulher, Mãe e Líder política de inquestionável destaque nacional.

Na verdade, o país vive momentos de indignação e de vergonha por causa desta tão falada e criminosa fotomontagem. Este é um caso que, não sendo inédito, se reveste de gravidade tal que deve convocar a todos para uma profunda reflexão sobre o estado de selvajaria (não apenas dos autores, mas também dos aproveitadores) a que chegámos e que certamente abrirá caminho para acontecimentos bem piores.

Efectivamente, o que já é bastante mau pode ficar pior por causa dos nossos comportamentos que historicamente tem passado da indignação e condenação epidérmicas e espalhafatosas para um laxismo e uma insensibilidade que o cidadão atento e poeta de grata memória, Mário Fonseca, certamente classificaria de “hormonal”. Pior ainda – para uma gestão de conveniências e de oportunismos, sem qualquer determinação de resolver o problema atacando as suas causas reais e profundas.

Na minha opinião, é importante que este caso seja visto com fortalecida abertura de espírito de modo que se possa captar as suas múltiplas dimensões. Não basta assumir conclusões simplistas que só alimentam reacções emocionais mal direccionadas e cujas consequências serão óbvia, e talvez desejadamente, a manutenção das condições para continuarmos no mesmo estado básico de argumentação política, logo com sinal verde às mais destemperadas palavras e actos.

Para um observador distanciado das inflexibilidades da luta partidária, é claro que em termos políticos este episódio não tem qualquer substância, tratando-se tão simplesmente de um ato de delinquência aparentemente com motivações político-partidárias fanatizadas.

Mas, vendo o rumo que as coisas tomam, é de crer que quem vive e sobrevive das rixas partidárias tende a fechar os olhos a todas as possíveis dimensões para abraçar a tese que lhe dê mais conveniente e emocionalmente satisfatória.

Como é evidente, esta visão uni-dimensional, esta cegueira obsessiva de apontar para a conspiração política, significa na prática a recusa em querer identificar as causas e a origem profundas da coisa E como tal, uma consciente maquinação para cozinhar um caldo de cultura ainda mais nutritivo que alimente as mais insanas disputas partidárias, mãe de todas os excessos.

Isto interpela tanto os agentes políticos como as autoridades policiais e judicias. Mas, também a todos nós que, afectados pelas emoções, agimos e reagimos sem a necessária ponderação, sem um quadro lógico de análise e raciocínio que nos auxilie a interpretar e a reagir de forma lúcida e eficaz.

No entanto, não será muito difícil uma abordagem diferente. Aplicando os princípios básicos da investigação criminal – afinal trata-se de CRIME E PONTO FINAL – podemos começar por dois tipos de questões.

As do primeiro tipo têm a ver com as interpretações, julgamentos e conclusões e nela cabem as seguintes perguntas:

1 – Há algum indício ou evidência sobre a autoria ou sobre o mandante do crime? Ódio ou vingança pessoal? Delinquência e má educação? Destrambelhamento político-partidário? Estratégia partidária? Neste caso, de que partido?

2 – As primeiras suposições publicadas, demasiadamente óbvias para não terem um prego na ponta, são suficientemente fortes para serem consideradas indícios a serem confundidos com provas?

3 – Não se poderia alargar o leque das hipóteses considerando outras motivações, outros potenciais interessados neste ataque aparentemente sem sentido?

Em relação ao segundo tipo de questões, relacionadas com a tentativa de identificar alguma ponta de verdade, poderíamos questionar-nos da seguinte forma:

1 – Quem seria o beneficiado do crime? Algum agente vingador? Algum provocador a pescar no campo da disputa partidária?

2 – O MpD? Neste caso, com que vantagens políticas? Com que riscos? Com consequências e perspectivas a curto ou médio prazo?

3 – O PAICV? Neste caso, com que ganhos? Com que riscos? Com consequências políticas? Com que custos, sobretudo para a pessoa da sua líder?

Deixando as repostas ao gosto e inteligência de cada um, ainda assim será possível considerar algumas HIPÓTESES já ventiladas e que tentam apontar o dedo acusador, de forma igual, aos dois partidos da esfera do poder.

Porém, antes de avançar quero deixar claro que se trata de meras hipóteses teóricas. E também recordar uma definição bem-humorada e realista que diz que Hipótese é uma coisa que não é, mas que a gente finge que é, para ver como seria se fosse. Puro exercício de eventualidades e conjecturas.

HIPÓTESE 1 – Foi o MpD, ou quem por ele
Abstraindo-nos dos princípios e valores que balizam os actos das pessoas normais, com educação e formação ética familiar, há perguntas lógicas demasiado intuitivas que devem ser feitas.

Será que as pessoas acreditam que os dirigentes do MpD são tão ignorantes, estúpidos ou cegos ao ponto de não poderem calcular que, neste ambiente frenético e exaltado da política nacional, este partido não seria logo “indiciado”, como, aliás, levianamente o tem sido?

Será que os seus dirigentes não conhecem a História e as histórias que todos conhecemos? Para os que não sabem ou que se fingem esquecidos, vale lembrar três pequenas histórias:

No Brasil, um tal de Abominável Bolsonaro esteve muito tempo com fracas intenções de voto. E, eis que um jagunço (pago por gente da pesada dentro do sistema que se lhe opõe) resolveu matá-lo de facada. E o que aconteceu depois? Primeiramente não morreu, coisa ruim tem sete vidas – desabafaram os mandantes. Pior ainda. Para mal dos pecados desses mesmos pecadores, não parou de crescer nas sondagens de tal forma que, indo para a segunda volta das eleições não tem jeito – Vai ser do jeito que o Diabo gosta, ou então em jejum e oração para que Deus acuda o povo nesta hora de grande corrupção.

Em Portugal, na sua primeira candidatura à Presidência da República, Mário Soares vinha sofrendo de anémicas intenções de voto até que um pau-mandado (pago pela própria candidatura de Soares, dizem as más línguas) lhe aplicou uma sonora bofetada em frente de todas as câmaras de televisão do país. E o que sucedeu depois deste enorme estardalhaço? Não parou de crescer nas intenções de voto, a tal ponto que tendo ido à segunda volta, ganhou as eleições e tornou Presidente da República, contra as mais científicas previsões.

Em Cabo Verde, nas segundas eleições livres e democráticas, o MpD estava à frente do PAICV nas sondagens, mas, ainda assim sem margem para uma tão esmagadora vitória eleitoral que depois se verificou. Até que um indivíduo isolado (um endiabrado fanático tambarina) resolveu fazer uma montagem de Carlos Veiga, apresentando-o com imagem de burro. Depois disso a candidatura ventoinha não parou de crescer até chegar às urnas com a segunda e não prevista maioria qualificada.

Três países diferentes, três casos concretos do efeito político de solidariedade com a vítima.

Acredito que algumas pessoas não tivessem prestado atenção, mas para mim é certo e taxativo: quem está na política e não conhece o processo de solidariedade com a vítima é porque não conhece nada, nem mesmo aquilo que andou anos e anos a estudar e a praticar.

HIPÓTESE 2 – Foi o próprio PAICV, ou quem por ele
Apesar de serem facilmente previsíveis os ganhos de solidariedade com a vítima, esta é um hipótese que nem sequer dá pra fingir que é.

De igual modo, os princípios e valores que balizam os actos das pessoas normais, com educação e formação ética familiar, seriam barreiras intransponíveis. E com a nota importante de que o sentimento de identidade e de orgulho do PAICV não admitiria, nem por escassos alucinados segundos, a ideia de sacrificar de tão forma tão vil e violenta a sua própria líder.
Mas, sobre tudo isso que cada um tire as suas conclusões à medida das suas informações, inteligência e modo de ver as coisas, isto é, com parcialidade ou com objectividade.

Quanto a mim, apenas digo: Muito mal andará Cabo Verde se as autoridades policiais não tiverem êxito na “Operação Agarra o Gajo” e a Justiça não lhe aplicar um castigo exemplar, capaz de dissuadir quaisquer outras alimárias do mesmo tipo ou com semelhantes intenções.

Falei e disse, penso eu.

António  Sérgio Barbosa

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