Arsénio de Pina : NOTAS SOLTAS (1)

26/09/2018 00:26 - Modificado em 26/09/2018 00:36

 Tenho por hábito tomar nota do que acho de interesse, original, intrigante ou jocoso nos livros que leio, aproveitando, por vezes, alguns em artigos. Hoje vou ofertar aos leitores algumas dessas notas que poderão servir como estímulos para conjecturas ou simplesmente para rir, já que rir faz bem à saúde. Citando o grande cronista Fernão Lopes (1380-1453), digo “ser minha intenção curtamente escrever, não por próprias palavras achadas, mas reunir em breve molho os ditos de alguns que mais me prouveram”. A disposição das notas é arbitrária, algumas sugeriram-me outras minhas. As mais revulsivas ou significativas identifico os seus autores.

                # Segundo o historiador polaco Leszek Kolakowski, o Marxismo tornou-se um catecismo ou discurso de ditadores totalitários. Deixou de ser um pensamento ou teoria viva e a sua utilidade para compreender o nosso mundo actual é nula.

                # Foi A. Afanasyev que precisou que, como no regime feudal, as relações de poder com o povo são pessoais e arbitrárias: os tribunais comunistas só existem para reforçar a autoridade do Partido e não para fazer justiça. Acrescentaria, igualmente em regimes totalitários e de partido único.

                # O espírito é como um guarda-chuva; para funcionar deve estar aberto.

                # Utiliza-se com frequência a expressão Terceiro Mundo sem saber a sua origem e a data do seu nascimento. Atribuiu-se a expressão ao demógrafo Alfred Sauvy , que a utilizou pela primeira vez num artigo publicado no semanário “L´Observateur”, em 1952, servindo-se da analogia com o panfleto “O que é o Terceiro Estado?” do Padre Sieyès, publicado em 1789, portanto, durante a Revolução Francesa, o que conferia à expressão uma a potencialidade revolucionária: Terceiro Mundo explorado, ignorado, desprezado como o Terceiro Estado, que ambiciona, também, afirmar-se.

                # Infelizmente, as solidariedades naturais – família, crenças, escola, aldeia, cidade, província, região – têm sido corroídas desde séculos, pelo poder central e pelas ideologias centralizadoras. A imunidade biológica protege os organismos individuais contra infecções; as imunidades sociais são asseguradas pelos sistemas de solidariedades simples ou complexas (Estado Providência, seguros) e pelo sistema de direito.

                # Somente em 1970 é que o filósofo Hans Jonas, vendo aumentar a crise ecológica, adaptou o imperativo categórico de Emmanuel Kant ao gosto do dia orientando-o no sentido do futuro e a política em relação à natureza: “Aja sempre de modo que as consequências da sua acção permaneçam compatíveis com a existência de uma vida autenticamente humana na Terra”.

                # Foi Gramsci quem afirmou que somente a verdade é que é revolucionária. Outro comunista esclarecia: tudo depende. A verdade só é revolucionária se for a verdade do nosso Partido, porque essa é que é a verdade. Isso foi dito por um meu contemporâneo em Coimbra, dirigente associativo – Silva Marques – em “Relatos da clandestinidade, o PC visto por dentro”.

                # Uma tribo mundial de rendidos aos prazeres da vida – e se ela os tem!… – tomou a mão de Adam Smith, prendeu-a à letra das palavras e confundiu a ideia de um funcionamento autónomo, harmonioso e automático do mercado com a compreensível ambição de um carteirista num comboio suburbano. Desmaterializaram o dinheiro, para que os pobres, ainda senhores da oponibilidade do polegar aos outros dedos, não o pudessem segurar. E a riqueza das nações tornou-se num murmúrio nocturno, constituíram nas barbas da nossa inocência um tanto negligente, a versão facinorosa do neoliberalismo.

                # O medo, gerador de submissão e menoridade, ainda hoje está alojado na consciência das populações que saíram de largos anos do fascismo e passaram depois por um sistema de partido único.

                # Há uma lei sem réplica que obriga os pobres a emigrar, e os ricos a exportar capitais.

                # Jesus foi o mais subversor dos valores e da sociedade do seu tempo.

                # Ninguém deve pedir por favor o que lhe pertence por direito, mas sim exigi-lo.

                # Para conseguir certas coisas na vida, uma mulher tem de lutar muito, ou não lutar mesmo nada …

                # O pai da Sociologia Moderna, Ibn Khaldun (1332-1402) fez há séculos, a seguinte afirmação: “Os árabes estiveram de acordo para jamais estarem de acordo”.

                # Ao escutar o Eng. Aguinaldo David, da Organização dos Amigos da Natureza (de que sou sócio desde a sua constituição) referir-se ao projecto de utilização das águas residuais do ETAR do Mindelo após o seu tratamento – projecto que aguardava financiamento (será que o obteve?) da contrapartida do Governo – fui rebuscar os meus canhenhos sobre a matéria e descobri que na Jordânia, 90% das águas residuais tratadas são utilizadas na agricultura, em Israel, 50% e nas grandes cidades de Singapura, Buenos Aires, San Diego ou Windhoek bebe-se água reciclada! O fósforo e nitratos são sais fáceis de recuperar nas águas residuais.

                # O Ocidente tem estado a acusar a China de explorar os países africanos, o que não parece corresponder à verdade, pelo contrário, tem ajudado muitos desses países a desenvolver-se utilizando os seus próprios recursos em matérias-primas e a criar empresas nacionais de transformação dessas riquezas, a que o Ocidente sempre se opôs. Entre 2.000 e 2015, o Eximbank chinês (equivalente ao FMI) – a instituição chinesa que financia a exportação chinesa – emprestou, a baixo juro ou pago com matéria-prima desses países, 63 mil milhões de dólares à África, enquanto os Estados Unidos, no mesmo período de tempo, emprestou 7,1 mil milhões. A China empresta a 54 países africanos, os EUA a 5. Por exemplo, Djibouti, pôs fim ao contrato que tinha com um dos países dos Emiratos do Golfo que exploravam o seu porto marítimo (DP World), passando a gerir o mesmo com o apoio financeiro da China, que lhe permitiu alargar e apetrechar o porto aumentando o seu movimento e rendimento. Com o mesmo país está financiando a expansão da rede de caminhos de ferro, que continua com a rede, também em construção, na Etiópia, permitindo, futuramente, o desencravamento deste país e doutros que têm fronteira comum com esta. As verbas que a União Europeia propõe para ajudar a África são migalhas ao lado dos 60 mil milhões de dólares da China destinados ao desenvolvimento dos países africanos. Para mais precisões consultar meu artigo publicado em “A Nação” intitulado “Do interesse da cooperação chinesa”.

                # A África já recebeu o equivalente a seis planos Marshall. Só que todo esse dinheiro foi para pagar aos brancos para aí enviados para dirigir os projectos de desenvolvimento, na condição (não revelada, claro) de não construírem nenhumas indústrias de transformação das matérias-primas desses países. Também serviu para gratificar os governantes que aceitaram tal tipo de “cooperação”. O nosso filósofo do povo, como lhe chamou o Mestre Aurélio Gonçalves, Djunga Fotógrafo, descreve isso magistralmente num dos seus programas radiofónicos, falando dos Planos de Fomento, a que apelidava de Planos de Famintos.

                # Pouco importa que um gato seja preto ou branco, desde que apanhe ratos. Deng Xiaoping

                # Jair Bolsonaro, chefe de seita religiosa, ex-militar protofascista, misógino, favorável à ditadura militar, está em todas as sondagens em segundo lugar na corrida à presidência brasileira. A força dos evangélicos deriva de eles terem entendido como usar os media, o que nunca soube o Catolicismo. A teoria da Teologia da Prosperidade Evangélica é “Sou eu e Deus, tenho direito às coisas, vou conseguir ter um emprego melhor, ter uma família melhor, ter uma saúde melhor. Se me esforçar, se for aos cultos e se pagar ao pastor”. (Ver” Jésus t´aime!” De L. Analalou, éditions du Cerf). Os evangelistas já eram 22% da população no último censo da população brasileira de há dez anos e hoje andam a caminho de ser 1/3 da população. Daí o grande perigo que corre o Brasil nas próximas eleições.

                # A fecundação incorpórea foi uma vez sem exemplo, só para que se ficasse a saber que Deus, quando quer, não precisa do homem, embora não possa dispensar-se da mulher. Saramago.

                # O celibato tornou-se obrigatório no clero católico a partir de 1537, no papado de Gregório VII. De acordo com a lei canónica, o voto de celibato é quebrado quando o padre se casa, mas não necessariamente quando tem relações sexuais ocasionais.   [continua]

Parede, Setembro de 2018                                                                 Arsénio Fermino de Pina

                                                                                                       (Pediatra e sócio honorário da Adeco)

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