Independência, Dia Zero?

25/11/2012 18:32 - Modificado em 25/11/2012 18:32

A relação entre a Catalunha e o resto de Espanha não vai mudar de um dia para o outro. Mas a vontade de divórcio assumida pela maioria dos partidos e uma boa parte da população catalã veio para ficar.

 

Nuria diz que é “como num divórcio” e o casal está na fase da raiva e da mágoa, sem conseguir sentar-se à mesa a conversar sobre a custódia dos filhos ou a partilha de bens. Miguel discorda. “Um divórcio implicaria que tivéssemos estado apaixonados. Já nos tolerámos melhor mas apaixonados nunca estivemos.”

 

Nuria e Miguel são casados há mais de 40 anos e continuam felizes. O divórcio é a analogia escolhida por Nuria para descrever a relação entre a Espanha e a Catalunha, longa, tumultuosa e prestes a mudar de contornos.

 

Quase 5,5 milhões de eleitores catalães podem hoje votar para decidir a composição do próximo parlamento regional. Mas é muito mais o que está em causa. Em Setembro, depois da manifestação que juntou 1,5 milhões nas ruas de Barcelona sob o lema “Catalunha, o novo Estado da Europa”, o presidente da Generalitat (governo regional), Artur Mas, apresentou-se como o líder que vai conduzir os catalães na construção de um estado próprio e marcou eleições antecipadas. Antes de ser dissolvido, o Parlamento aprovou a realização de um referendo sobre a independência – ilegal segundo a actual Constituição espanhola.

 

No encerramento da que chamou “a campanha das nossas vidas”, na sexta-feira à noite, Artur Mas prometeu que o caminho está traçado, “com ou sem maioria absoluta” do seu partido, a CiU. Na assistência, um Palau de San Jordi a transbordar de gente, ninguém teve medo das palavras e “independência” foi o grito mais ouvido.

 

É “a vontade de um povo” que a CiU escolheu como slogan para o seu principal cartaz: Artur Mas de braços no ar e quatro dedos esticados (como as quatro riscas da bandeira catalã), pose de messias que nem oposição nem a imprensa deixaram escapar – depois de consecutivos comícios a repetir que “a Catalunha não precisa de um novo Moisés”, a líder do PP catalão, Alicia Sánchez-Camacho, recebeu de prenda dos jornalistas uma foto de Moisés, versão Charlton Heston no filme Os Dez Mandamentos.

 

CiU favorita

 

Segundo todas as sondagens, a CiU, de centro-direita, vai sair vitoriosa nestas eleições antecipadas, dois anos depois de ter regressado ao poder. “Artur Mas foi o melhor aluno de Angela Merkel. Com ele, a Catalunha antecipou-se a todas as outras regiões espanholas a pôr em prática cortes nas áreas mais fundamentais. Foi o primeiro a aplicar o copagamento [de medicamentos subsidiados pela Segurança Social], por exemplo”, nota Esther Vivas, activista e investigadora, membro do Centro de Estudos sobre os Movimentos Sociais da Universidade Pompeu Fabra, de Barcelona. “E vai ser o primeiro líder europeu que aplica a austeridade a ser reeleito.”

 

A CiU apanhou um comboio antes conduzido por outros, como a Esquerda Republicana e a Solidariedade Catalã, que insistem ser os únicos garantes de que o referendo se vai mesmo fazer e a independência avançar. O Partido Popular, no poder em Madrid, jogou a carta do medo, apresentando Artur Mas como um irresponsável e o projecto independentista como “um caminho no deserto” e a receita para uma Catalunha fora da União Europeia e do mundo, entregue a si própria e à sua dívida.

 

O Partido dos Socialistas da Catalunha acenou com o federalismo espanhol como terceira via, mas o seu líder, Pepe Navarro, encerrou a campanha a admitir que a mensagem não passou. Também não é uma solução nova, é o modelo defendido pela Esquerda Unida (na Catalunha é a Esquerda Unida e Alternativa e concorre aliada à Iniciativa Verdes nas listas da ICV-EUiA) que os socialistas se viram obrigados a tentar fazer seu para apresentarem um projecto diferenciador.

 

“O modelo territorial de Estado que defendemos é o de uma república federal, mas respeitamos todos os que não partilham essa posição”, disse Cayo Lara, líder da Esquerda Unida numa entrevista recente ao PÚBLICO. “O que denunciamos é a utilização que alguns estão a fazer do nacionalismo, tanto do nacionalismo catalão como do espanholista, usando bandeiras para esconder o fracasso das suas políticas. Deveriam dizer-nos o que propõem para sair da crise e não jogar com os sentimentos viscerais das pessoas.”

 

Reacção contra um abuso

 

Os jornais catalães e espanhóis não poupam nos adjectivos para descrever a campanha das últimas semanas: “histórica”, “a mais dura”, “a mais tensa”. Mesmo com uma greve geral pelo meio, no dia 14, a crise passou para segundo plano e o soberanismo impôs-se sobre todos os temas.

 

Reformados e catalães, Nuria de origem e Miguel nascido em Barcelona numa família que veio da Andaluzia há quase um século em busca de trabalho, nem um nem outro se consideram independentistas. Miguel diz-se mesmo “anti-independentista, mais internacionalista do que outra coisa”. “Nós, os catalães, somos muito europeus, muito abertos ao mundo. E a conversa de que “Espanha nos rouba” por causa do dinheiro dos nossos impostos que é gasto nas outras regiões não me convence. Por mim seríamos ainda mais solidários, não só com o resto de Espanha mas também com África”, diz Miguel, de 69 anos.

 

Mas se hoje pudessem votar num referendo sobre a independência da Catalunha tanto Nuria como Miguel poriam a cruz diante da palavra “sim”. E se este é o divórcio de um casamento sem amor, não é um divórcio sem culpados. “A culpa é de Espanha. Isto é uma reacção contra um abuso”, defende Miguel.

 

A reacção de Miguel não o levou só a admitir a separação de Espanha. Também o trouxe à iniciativa de campanha da CUP (Candidatura de Unidade Popular) onde o encontrámos. Um partido com implantação nalgumas cidades mas que nunca se tinha apresentado às legislativas autonómicas, a CUP reúne essencialmente apoio entre os jovens, incluindo muitos desencantados com a política que nos últimos tempos se reconheceram em movimentos sociais novos como o 15-M. Miguel costuma votar na Esquerda Republicana. “É o voto útil, contra a direita. Mas estou farto de votar útil. Agora chegou a altura de votar revolucionário, de votar ao lado destes jovens.”

 

Miguel está farto de votar útil e está farto de Espanha. Não percebe como é que os filhos não têm trabalho seguro e como é que há tanta gente na miséria num país onde ele, director de um multinacional francesa, chegou a ganhar 6000 euros. E não percebe como é que Espanha continua ser tão “aglutinadora e pós-franquista”.

 

A opinião de Miguel sobre uma futura independência começou a mudar em 2010, quando o Tribunal Constitucional emitiu uma sentença contra o Estatuto catalão que deveria ter substituído o de 1979 e reformulava a relação entre a Catalunha e Espanha, contendo as bases para um novo modelo de financiamento autonómico e definindo a Catalunha como uma nação. Não só o texto teve o apoio dos parlamentos regional e nacional como foi aprovado por mais de 70% dos catalães em referendo, num processo que se desenrolou ao longo de sete anos.

 

“Somos uma nação, nós decidimos”, foi o tema do protesto que juntou um milhão de catalães contra a sentença do Constitucional. Foi o PP que levou o Estatuto à justiça – um passo que hoje alguns líderes conservadores lamentam publicamente, conscientes das consequências que teve no alimentar do mal-estar catalão face a Madrid.

 

“Foi uma afronta. O PP ignorou a vontade popular e usou uma justiça corrupta para travar o que as pessoas e dois parlamentos tinham aprovado”, acusa Miguel. “O Estatuto teria tranquilizado os catalães por muitos anos e nós teríamos acabado por nos adaptar. Somos um povo dialogante, não está na nossa natureza procurar o confronto. Mas eles não souberam parar, endureceram cada vez mais o discurso sobre os catalães, insultam-nos, dizem que Espanha tem 3000 anos e que a Catalunha não tem História própria”, continua. O independentismo foi ganhando cada vez mais adeptos. As sondagens actuais indicam que num referendo a independência sairia vencedora, ainda que com um resultado muito dividido.

 

Fascismos e xenofobia

 

Miguel fez-se independentista por causa dos “tiques fascistas” que vê numa certa Espanha, a Espanha que vota PP. Concepción já votava no PP, mas desta vez vai fazê-lo com mais convicção ainda, contra o independentismo e precisamente por considerar que “todos os nacionalismos são fascistas”.

 

“O nacionalismo é um cancro social, alimenta a xenofobia, não há nada mais perigoso. Para nos desresponsabilizarmos precisamos de um inimigo externo. Fomentam o sentimento de ultraje, é nacionalismo de cartilha, como vimos em tantas épocas em tantos sítios”, diz esta socióloga nascida em Córdoba e que o casamento trouxe para Barcelona há 30 anos. Aos catalães que defendem a independência com o argumento de que Espanha não investe na região todo o dinheiro que recolhe dos impostos catalães, Concepción gostava de perguntar se chega a secessão regional: “E depois, vão querer separar-se uns bairros dos outros para não serem solidários entre si?”

 

“Estão a prejudicar muito a região, a prejudicar-nos a todos. Os empresários têm muito medo de investir aqui, só vão piorar a crise”, defende Concepción, à conversa com Manuel, pin com as bandeiras de Espanha e da Catalunha ao peito, e com Marion, que acabou de conhecer num comício do PP.

 

Não há registo de uma campanha tão participada na Catalunha e centenas de catalães não couberam no comício que na última terça-feira juntou no palco Sánchez-Camacho e o presidente do Governo, Mariano Rajoy, no dia em que se cumpria um ano desde as eleições gerais que deram a maioria absoluta aos conservadores no Parlamento nacional.

 

A crise e os votos

 

Artur Mas culpa o PP e Madrid pela crise catalã. Estes eleitores populares culpam os socialistas pela crise em Espanha e a CiU de Artur Mas pelo agudizar da crise na Catalunha, com um desemprego de 22% e aumentos sucessivos nos custos da educação, saúde ou transportes. A origem dos problemas, dizem, está no governo anterior, a coligação tripartida que uniu socialistas catalães à Esquerda Republicana e à Iniciativa.

 

“Os socialistas gastaram demasiado e gastaram mal”, afirma Marion. “Foi para fazer reformas difíceis que demos a maioria absoluta ao PP. Precisam de tempo para resolver os problemas do país”, acrescenta Manuel. “E foi para esconder a crise e talvez algum caso de corrupção que a CiU antecipou as eleições”, acusa.

 

Entusiasmados com os discursos – “Que bem falou Alicia”, diz Marion – os três saem do auditório da cúpula do centro comercial Arenes, na praça de touros da Praça de Espanha, aos gritos de “Vamos ganhar”. “Bem, ganhar não vamos”, admite Concepción. “Mas já não era mau se a CiU não tivesse maioria. Eles vão ter de perceber que neste país há leis, que a Constituição é para cumprir.”

 

A campanha, crispada, acabou. Hoje vota-se e contam-se votos. Amanhã, a crise continua. A ânsia soberanista também. Novos capítulos sobre a relação entre Espanha e Catalunha seguem dentro de momentos.

 

 

 

publico.pt

  1. Jorge Santos

    Isso vai servir para motivar o Povo das Ilhas do Barlavento para fazer o mesmo ou seja separar C.Verde pq o sucesso e o desemvolvimento dessas Ilhas só será possivel com a regionalizacão ou a separacão de C.Verde…!

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