“Cabo Verde nôs Bilida d´Odju” o primeiro livro de fotografias de Zé Pereira

28/08/2018 23:10 - Modificado em 28/08/2018 23:10
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O fotógrafo Zé Pereira lança, ainda este ano, seu primeiro livro de fotografias. Uma obra que reflecte o fruto do trabalho de cinco anos e que está agora estampado na obra cujo título “Cabo Verde nôs Bilida d´Odju”, possui fotografias de todas as ilhas deste arquipélago e cuja mensagem é proteger o que é nosso. Uma mensagem sobre o ambiente, com um olhar pelo amor às ilhas, pelas quais viaja frequentemente para através das lentes da sua câmera captar e registar momentos irrepetíveis.

Zé Pereira define-se como um fotógrafo da natureza, com um olhar atento sobre a nossa biodiversidade, daí o título da obra (Cabo Verde a menina dos nossos olhos) e como fotografo é a forma que encontrou para sensibilizar as pessoas e direcionar o olhar delas para as questões sociais que dizem respeito a todos.

“Por um lado procuro mostrar aquilo que Cabo Verde tem de mais bonito e desta forma promover o nosso país. Por outro, as injustiças sociais, as atitudes e comportamentos que devemos alterar para que, acima de tudo, sejamos todos mais humanos”.

Depois de Bokafumo – uma história de superação, que retrata parte da sua história de vida, volta agora aos escaparates com um livro de fotografias.

Confira nesta entrevista, onde fala sobre a obra, a fotografia em si, objectivos e a possibilidade de uma feira de livros de fotografia no país, bem como o que a fotografia representa para si. Conheça um pouco mais sobre o homem atrás das lentes, o fotógrafo e o artista, que tem como maior objectivo apresentar um trabalho cada vez mais profissional e ao mesmo tempo, preservar o seu espírito amador e o amor quase que “ingénuo” pela fotografia.

Noticias do Norte – Está agendado, ainda para este ano, a publicação do seu primeiro livro de fotografias, que retrata uma viagem pelas nossas ilhas. Qual o título desta obra? Em que consiste este projecto?

Zé Pereira – O título desta minha obra é “Cabo Verde nôs Bilida d´Odju”, que traduzido para português significa Cabo Verde a menina dos nossos olhos. É uma expressão do crioulo da ilha de Santiago e que me foi sugerido pela amiga Débora Carvalho. Aceitei-o de imediato porque traduz o conteúdo e objectivo deste projecto que através de fotografias pretende sensibilizar toda a sociedade para que cuidemos melhor da nossa menina dos olhos, da sua natureza e biodiversidade, da nossa gente, da nossa cultura e tradições.

Notícia do Norte – A mensagem da obra é a preservação.

Zé Pereira – Devemos cuidar melhor das nossas praias, do nosso mar e das nossas espécies, das nossas gentes – principalmente as mais vulneráveis -, das tradições não as deixando morrer. Pretende transmitir a mensagem que devemos preservar aquilo que temos de melhor e aqui refiro-me à morabeza, à nossa solidariedade e cuidado com o próximo. Acredito e sinto que somos um povo especial e não é por acaso que todo aquele que visita Cabo Verde fica encantado com as nossas ilhas e as suas gentes.

Notícias do Norte – Foi um trabalho árduo fotografar em todas as ilhas?

Zé Pereira – Um trabalho exigente sem dúvida mas acima de tudo um trabalho feito com muito amor e quando assim é, não olhamos para os obstáculos. O foco está nos objectivos que pretendemos alcançar.

Notícia do Norte – Quando foi seu primeiro contacto com a fotografia? Como foi parar neste mercado tão concorrido e cheio de talentos?

O meu primeiro contacto com a fotografia foi ainda em criança e a vontade de ser fotografado e ver-me nas fotografias. Com o tempo e embora não deixe de querer ser fotografado e ter registos meus em determinados lugares ou eventos, esta vontade foi-se transferindo aos poucos para a vontade de estar por detrás da câmera e fotografar os outros. Hoje em dia, muitas vezes, chego a casa e depois de ter feito uma reportagem de horas dou conta que não trouxe uma única fotografia minha para guardar como recordação desse momento ou evento.

Noticias do Norte – Quando é que o amadorismo dá lugar ao profissionalismo? E a sua acção como fotógrafo?

Zé Pereira – Quando sentimos que a fotografia traduz aquilo que pretendemos, fica fácil a opção pela carreira profissional e, uma vez mais, quando sentimos esta convicção não nos focamos nas dificuldades do mercado, mas sim nos objectivos que pretendemos alcançar. Não é fácil ser-se profissional da fotografia em Cabo Verde, mas é extremamente gratificante e ela é responsável em grande medida pela felicidade que sinto em sê-lo e é igualmente responsável pela pessoa que sou.

Noticias do Norte – O que significa a fotografia para você?

Zé Pereira – A fotografia é para mim a forma como exerço a minha cidadania. É a minha forma de fazer política, é a minha forma de sensibilizar as pessoas e direcionar o olhar delas para as questões sociais que penso nos devem preocupar a todos enquanto cidadãos. A fotografia é uma forma de comunicação e por isso mesmo devemos pensar, ao fazê-la, qual é o nosso público-alvo, aquilo que pretendemos transmitir para que seja impactante e toque o coração das pessoas de forma positiva, as sensibilize em prol de uma determinada causa. Por um lado procuro mostrar aquilo que Cabo Verde tem de mais bonito e desta forma promover o nosso país, por outro, as injustiças sociais, os comportamentos e atitudes que devemos mudar para que acima de tudo sejamos todos mais humanos.

Fotografia em si

Notícia do Norte – Como vê a relação entre o fotógrafo, a câmera e a imagem?

Zé Pereira – Penso que o elo que deve servir de ponte entre o fotógrafo, a câmera e a imagem é a alma do fotógrafo. A imagem deverá reflectir um sentimento, aquilo que o fotógrafo sente quando capta uma determinada realidade ou momento. Toda a imagem reflecte não só aquilo que é fotografado, mas também, a personalidade, a alma, a consciência e a humanidade do fotógrafo.

Noticias do Norte – Que características as fotos devem reunir para serem consideradas incríveis?

Zé Pereira – Uma fotografia para ser considerada incrível, como me diz, deve considerar os parâmetros técnicos adequados ao cenário que se pretende fotografar. O que não quer dizer que o fotógrafo não contrarie esses mesmo pressupostos fazendo uso da sua criatividade técnica. O tipo de câmera e de objectivas, de luz, de contraste, de enquadramento entre outros, têm que ser considerados. No entanto, a meu ver, o que torna uma fotografia especial é a forma como o fotógrafo faz uso destas ferramentas para expor a sua sensibilidade na imagem que capta.

Notícia do Norte – Quando é que sentiu ter encontrado a forma única que distingue os seus trabalhos do de outros fotógrafos?

Zé Pereira – Acredito que desde o início encontrei a minha forma de estar na fotografia, em sintonia com aquilo que sou e com a minha espiritualidade. Não me canso de agradecer e referir o nome de vários fotógrafos que me ensinaram muito do que sei hoje. Seja na cidade da Praia, seja aqui na cidade do Mindelo. No entanto, quando estamos em sintonia com o nosso interior as temáticas e o olhar fotográfico surgem naturalmente. Tenho inclusivamente realizado projectos comuns com fotógrafos que admiro e artistas plásticos como o Miguel Levy e o Nilton Lima. A partilha do olhar e a diversificação de abordagens num mesmo tempo e espaço só enriquece a arte.

Noticias do Norte – Qual a maior liberdade que um fotógrafo pode ter como profissional?

Zé Pereira – A maior liberdade penso que é a liberdade de criar. O fotógrafo tem também uma enorme responsabilidade social e penso que deve fazer uso das ferramentas que tem ao seu dispor para construir livremente uma intervenção artística, social e pedagógica.

Noticias do Norte – Um bom fotógrafo deve sempre desafiar o desconhecido?

Zé Pereira – Penso que sim, desafiar o desconhecido e partilhá-lo dando-o assim a conhecer. Tenho visitado por diversas vezes as mesmas ilhas e descubro sempre novos motivos de interesse, sejam eles paisagísticos, sejam eles históricos ou histórias de vida de pessoas humildes que têm muito a nos ensinar. Esse desconhecido é por vezes a história de um idoso que está sentado à porta de casa numa rua qualquer. O normal é simplesmente passarmos por ele.

Notícia do Norte – Você considera-se um fotógrafo da natureza. No entanto aventura-se por outras áreas e cada uma delas exige algo diferente de si ou não? A fotografia de moda, por exemplo, exige muita produção. A da natureza também?

Zé Pereira – Penso que o fotógrafo não deve criar fronteiras rígidas que limitem o seu trabalho. A palavra que para mim melhor define a arte é precisamente a liberdade. Se é verdade que a área a que mais me dedico é a fotografia da natureza, também é verdade que fotografo tudo o que me atrai seja pela beleza seja pelo conteúdo.

Noticias do Norte – O que você pensa sobre a produção massiva de imagens na atualidade?

Zé Pereira – A produção massiva de imagens a meu ver não tem nada de mal. Hoje em dia qualquer pessoa pode facilmente fotografar e filmar acontecimentos. Facilita até, através das redes sociais, a que todos possam facilmente manifestar as suas opiniões e documentá-las através de fotografias e vídeos. A questão que se coloca, a meu ver, é o facto de aumentar o risco de desinformação também com as implicações que daí possam advir. Um jornalista com formação sabe que deve ouvir as partes envolvidas, verificar a credibilidade das fontes, conhece procedimentos deontológicos que norteiam o seu trabalho no sentido de haver rigor informativo. Uma pessoa que não esteja na posse deste conhecimento e destes procedimentos pode registar e publicar em função do seu senso comum. Assim a produção massiva de imagens (conteúdos) pode por um lado ser benéfica mas pode igualmente ser perigosa.

Noticias do Norte – Além dessa questão das imagens, qual a maior dificuldade que você vê na formação de novos fotógrafos?

Zé Pereira – Penso que é necessário haver mais formação em torno da fotografia. A procura existe e quando alguma instituição as promove há sempre muita procura, pelo que julgo saber. Existem os cursos de Multimédia nas Universidades que incluem a componente fotografia mas são precisas mais formações, quer de iniciação como de módulos mais acessíveis que permitam a qualquer pessoa dar os primeiros passos na fotografia na posse de alguns conhecimentos que são essenciais. O uso do modo manual em detrimento do automático ou semi-automático que é o mais corrente, é um deles.

Notícias do Norte – Um fotógrafo precisa então de muita dedicação?

Zé Pereira – Seja na fotografia seja em qualquer outra área profissional a dedicação é tudo. Contudo quando gostamos do que fazemos esta dedicação é espontânea, intensa e bastante praseirosa. Não invalida que haja momentos de sacrifícios e que exigem muito de nós, mas são também estes momentos que nos dão um gozo especial e único ao alcançarmos o que pretendemos. Por vezes é preciso esperar anos para conseguir determinadas imagens e é óbvio que estas nos dão muito maior satisfação do que aquelas que são mais imediatas, mesmo sendo difíceis de captar.

Notícia do Norte – Conte-nos um pouco dos seus objetivos na área fotográfica para o futuro.

Zé Pereira – O meu trabalho na área da fotografia continuará na mesma linha do que vem sendo feito até agora. Posso dizer que ela continuará a ser uma ferramenta para a minha intervenção social ou para o exercício da minha responsabilidade social enquanto cidadão que se preocupa com os problemas sociais do nosso país e que pensa que esses mesmos problemas não são da exclusiva responsabilidade do Governo ou das instituições com uma determinada vocação específica, mas sim, de todos nós.

Noticias do Norte – Na sua opinião, de que forma um fotógrafo iniciante deve divulgar seu trabalho para captar novos públicos?

Zé Pereira – Tratando-se de um fotógrafo iniciante penso que mais do que divulgar, deve preocupar-se em aprender e praticar o que aprende. As redes sociais, no entanto, são ótimas para a divulgação do nosso trabalho e funcionam também como um júri virtual que avalia o nosso trabalho diariamente e nos permite crescer. Bem usadas, as redes sociais são ótimas para a divulgação dos nossos trabalhos, contactos com outros profissionais mais experientes, conhecer e aprender nos sites de fotografia nacionais e internacionais, criação e promoção de eventos como exposições fotográficas e muito mais.

Noticias do Norte – O que é mais complexo para se obter uma boa foto: dominar a luz ou controlar o estúdio?

Zé Pereira – A minha resposta não seria tão exclusiva na medida em que sendo certo que é importante sabermos tirar o melhor proveito da luz natural, também o é em relação à forma como se faz uso da luz artificial num estúdio, para se obter as condições de iluminação que pretendemos para um determinado fim. Mais do que isso, penso que é preciso fazer-se uso adequado de todas as ferramentas que a fotografia enquanto arte, as câmeras fotográficas, assim como os seus mais diversos acessórios colocam ao nosso dispor para captarmos uma boa imagem.

Noticias do Norte – O que acha da ideia / projeto da Feira do Livro de Fotografia?

Zé Pereira – Um projecto ambicioso que deve ser tido em conta. Apesar de não termos muita produção nacional nesta área a verdade é que temos algumas edições de muito boa qualidade quer de fotógrafos cabo-verdianos e estrangeiros residentes em cabo verde com livros de fotografia publicados, por instituições ligadas à promoção do turismo e cultura nacionais, entre outros. Um arranha-céus começa sempre por uma primeira pedra.

Notícia do Norte – Como é que funciona a questão de direitos autorais da fotografia em Cabo Verde? Tem alguma lei?

Zé Pereira – Penso que estamos no início de uma longa caminhada no que concerne aos direitos autorais especificamente no que se refere à fotografia. Com a música que é uma das nossas manifestações culturais com maior afirmação e expressão a nível nacional e internacional, esse caminho foi feito e começa a dar os seus resultados. Com a fotografia e com as outras artes acredito que o processo será o mesmo, havendo um caminho que terá que ser feito.

Notícias do Norte – Quantos anos já leva de carreira?

Zé Pereira – Há 10 anos comecei a dedicar-me diariamente à fotografia. Digamos que dessa altura a esta parte a fotografia passou a ser um amigo inseparável e saio sempre com a minha câmera fotográfica. O processo no entanto começou na curiosidade e na descoberta para aos poucos começar a produzir resultados de alguma qualidade e aceitação. Finalmente, trabalhos concretos como as muitas exposições fotográficas ou agora este livro de fotografia “ Cabo Verde Nôs Bilida d´Odju”.

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