Augusto Neves “Não fui eleito para agradar ao governo, ao meu partido ou a oposição, mas para agradar a população de São Vicente”

23/08/2018 16:09 - Modificado em 23/08/2018 18:42

É a primeira vez, em São Vicente, que o mesmo partido está em maioria na CMSV e no Governo. Isso mudou o quadro sócio-político da ilha. A CMSV já não é a tribuna da oposição criada por Onésimo Silveira, desenvolvida por Isaura Gomes e consolidada por Augusto Neves. Os tempos são outros. Nesta entrevista, Augusto Neves dá o “corpo às balas” e aborda temas que, até agora, ninguém queria abordar “por que não critica o governo? “ Porque não reclama como fazia no tempo do governo do PAICV?”. O governo e a CMSV estão a remar para o mesmo lado ?” Augusto Neves nunca foi um político “politicamente correcto” e é acusado de “pensar demais pela própria cabeça  “e sem aspas de ser “casmurro”. Esta é um a entrevista com respostas “politicamente incorrectas”, mas que respondem aos novos desafios que se colocam á CMSV e á ilha em particular. E também ás  inquietações “ Eu estarei junto com os munícipes  nas criticas  ao governo no dia que este abandonar as bandeiras da autonomia , descentralização , regionalização  e da luta pelo bem estar das gentes de São Vicente”, afirma Augusto Neves. Assim sendo o tribuno já não tem tribuna de oposição, restam as bandeiras da autonomia, da descentralização, da regionalização e da luta pelo bem estar das gentes de São Vicente e  da dignidade que construíram a imagem de um presidente da CMSV que está em extinção mas que pode regressar.

Presidente estamos a meio do mandato. Este mandato em que tem a maioria absoluta está a ser melhor que o primeiro e o segundo?

Os mandatos são sempre iguais, o nível de responsabilidade é sempre elevado. Com maioria ou sem maioria a responsabilidade é elevada. Repare que temos um dado sociopolítico diferente. É a primeira vez em São Vicente que o mesmo partido está em maioria na CMSV e no Governo. E neste sentido, anteriormente, incluído os meus dois últimos mandatos, os presidentes da CMSV, devido a posição hostil dos governos contra uma câmara que não era da sua cor politica, mantiveram uma relação de conflitualidade com o poder central. Foi assim nos mandatos de Onésimo Silveira, de Isaura Gomes e nos meus dois primeiros mandatos. Essa conflitualidade foi sempre um “cavalo de batalha” nas reivindicações, e usada como arma de arremesso político. Mas todos sabem que eu nunca coloquei essa relação nesses termos: Câmara de um partido e Governo de outro partido. Eleito o presidente a CMSV, ele é do povo, dos munícipes e tem como único objetivo elevar e melhorar a condição de vida do cidadãos. Não vejo o desenvolvimento de São Vicente em função dos partidos que vencem as eleições locais e nacionais, mas sim em função do trabalho que é desenvolvido como quem está no governo. Eu fiz dois mandatos com o Governo do dr. José Maria Neves. Ganhei as eleições por duas vezes e a última com maioria absoluta, devido ao trabalho que realizamos, satisfazendo os anseios da população  com um trabalho sério e abnegando. Este mandato com um governo sustentando pelo meu partido não muda essa premissa de trabalho e mais trabalho com muita seriedade.  Foi o que fiz no passado e é o que faço hoje e farei no futuro. Não fui eleito para agradar ao governo, ao meu partido  ou á aposição. Fui eleito para agradar à população de São Vicente, no sentido de melhorar a qualidade de vida em todos os bairros de São Vicente e junto com a minha equipa estamos a trabalhar para que isso aconteça .

Mas a oposição diz que você deixou de reclamar como fazia no tempo do governo do PAICV?

Depende do que vocês e a oposição entendem  por  “reclamar”. Se entendem que reclamar  é participar em manifestações contra o governo, pinchar estradas e paredes, insultar o primeiro–ministro,  eu não reclamo dessa forma . Não o  fiz  com os governos do PAICV e não o farei como nenhum governo. Eu fui eleito pelo povo de São Vicente que não espera de mim uma postura dessa natureza. Esperam sim uma postura institucional. De firmeza, mas de respeito. De exigência e de legalidade. O presidente da CMSV não pôde ir pinchar paredes pedindo autonomia, quando o pode fazer na comunicação social ou nos canais institucionais. Foi esta postura institucional, criticada por alguns membros do meu partido, que mantive com o governo do PAICV. Travei a luta política dentro da lei, com lealdade institucional, com verdade e construí parceiras  com vários membros do  governo do Dr. JMN, mesmo quando com o aproximar do ciclo eleitoral, ouvindo as suas “bases locais” me tirava o tapete .

Fora da luta politica, normal em democracia, o Dr. José Maria Neves dirá que mantive com o seu governo uma postura institucional, de estado e não de guerrilha  como muitos, na altura , defenderam. Mantenho essa mesma postura como o governo do Dr. Ulisses Correia. Não porque ele é líder do meu partido, mas porque eu sou o presidente eleito de todos os sanvicentinos e não apenas dos que votaram no meu partido.

Por exemplo, a oposição quer que eu venha criticar o governo com base numa notícia falsa, quando se divulgou que uma doente morreu ao ser transportada de barco quando a doente morreu no hospital? A oposição quer que eu assuma posição contra o governo em relação aos transportes aéreos quando o governo está a resolver esse problema? Querem que eu desfile com uma bandeira negra da fome, quando sofremos como nação para erradicar essa praga  que assolou o arquipélago? Não, o presidente da CMSV não pode assumir essas posições. Tem os espaços próprios, como sempre fez , para defender os interesses de São Vicente. Mais: querem que eu reclame por descentralização  quando nunca foram descentralizadas tantas competências para os municípios como no presente?

É verdade que passei oito ano a reclamar pelo Fundo do Ambiente e  Fundo do Turismo que não  eram  transferidos para os municípios . Mas hoje, estes são transferidos deixando a sua gestão entregue aos municípios. Devo continuar a reclamar ?

Eu estarei junto com os munícipes  nas criticas  ao governo no dia que este abandonar as bandeiras da autonomia, descentralização, regionalização e da luta pelo bem estar das gentes de São Vicente . Mas para desespero dos “ Velhos do Restelo “ as suas pragas apocalíticas  não vão ao céu  e este governo está, junto com a CMSV a trabalhar para cumprir com o que prometeu ás populações .Estamos a remar para o mesmo lado. Com dificuldades é certo, cientes  do que há por fazer. Mas confiantes que vamos conseguir.

Teve dois mandatos sem maioria absoluta, onde dependia dos parceiros para aprovação das sua opções. Agora tem maioria absoluta e com governo do seu partido. Isso é melhor ou não?

É melhor no sentido de termos a mesma a linguagem e a mesma filosofia, mas posso dizer, no entanto, que o nível de exigência é maior e tenho a certeza que o povo está a espera de muito mais e por isso teremos de trabalhar ainda mais para corresponder ás suas expectativas.

Portanto, posso afirmar que tendo em conta estes objetivos e as expectativas da população tenho, em conjunto com os vereadores e parceiros, um diálogo no sentido de trabalhar para melhorar, cada vez mais, a vida da população de São Vicente assim como  o mesmo dialogo com o governo. Temos que cumprir os compromissos assumidos e o tempo indica que vamos cumprir a grande parte daquilo que foi a confiança do povo.

Acha que a CMSV e o Governo estão a remar no mesmo sentido?

Sem dúvida. O que não significa facilidades, mas sim sinergias de esforços . Esse caminho é menos tortuoso quando temos um governo e um primeiro-ministro que assumem a descentralização como bandeira , como política , como opção. O diálogo é mais fluente e conduz a resultados mais céleres. Veja o exemplo do Fundo do Ambiente, onde já são visíveis os resultados da transferência de recursos, tanto na limpeza pública com na  compra dos equipamentos. Há dias adquirimos dois carros no valor de 76 mil contos, com verbas disponibilizadas pelo governo através de verbas do Fundo do Ambiente. Isto era impossível nos governos do PAICV que nunca transferiam esses fundos para os municípios

Também mantemos o diálogo com o director do Fundo do Turismo que tem a consciência da necessidade desse investimento para poder potencializar a economia da ilha. Trazer mais trabalho, mais emprego e a melhoria da qualidade de vida dos habitantes desta ilha.

No  sector da Cultura  caminhamos no mesmo sentido. Sem desconfianças. Por isso temos  uma agenda cultural forte, assim como planos e estratégias fortes no sentido de poder trazer muito mais eventos culturais para São Vicente.

Diz  que o poder central nunca transferiu tanto para o município de São Vicente com está transferindo agora. Apesar disso a sua oposição critica-o como dantes quando não tinha esses recursos vindos do governo.

O papel da oposição é criticar. Estamos a fazer o nosso trabalho conforme o plano. É certo que hoje temos mais condições. Boa parte desses montantes já foram transferidos para Câmara Municipal e nós estamos a canalizar estas transferências para os planos e investimentos previstos.

Sinceramente, eu acho que a oposição está um pouco desorientada. Ela está tentando introduzir ruído no sistema. Criando dificuldades e protestando por isso ou por aquilo porque sabe que as coisas estão melhor.

Outrora reclamávamos e lutávamos. Presentemente não temos motivos para tal, pois tanto  aquilo que foi acordado, como aquilo que foi proposto pelo governo, estão a acontecer. Nós estamos sempre em concertação com o governo.

A sua oposição acusava-o de ser um presidente que não tem obras estruturantes. O governo, por sua vez, cita obras estruturantes que vão ser construídas. Mesmo assim, a perceção é que as críticas aumentam.

Oposição desfasada que não conhece a ilha. Outrora fizemos muito com o pouco que tínhamos. Hoje continuamos a fazer e com uma dinâmica muito maior. Contamos com o apoio do governo para grandes investimentos como são os casos do Terminal de Cruzeiros e a estrada para a Baía das Gatas, que irão trazer muito trabalho. Temos ainda a requalificação da Baía das Gatas e a requalificação e ampliação do hospital Batista de Sousa, a asfaltagem nova e requalificação do centro da cidade. E principalmente o projeto da Zona Económica Especial  De Economia Marítima em São  Vicente, que conta com o apoio institucional do Governo Chinês,  e se essas obras não são estruturantes, que apresentem propostas realistas de obras estruturantes. O grande projeto dessa ilha é a Zona Especial da Economia Marítima em São Vicente. A grande esperança desta ilha, sendo que os trabalhos estão avançando a bom ritmo. Um projeto que irá dar a esta ilha e à zona norte de Cabo Verde um grande impulso nos mais variados domínios. Mas para a CMSV não existem obras grandes ou pequenas: todas as obras são grandes quando satisfazem as populações. Veja o que aconteceu como nosso projeto de calcetamento. Como é valorizado pelos munícipes. Calcetar uma rua, um lombo é uma grande obra para os moradores dessa rua ou lombo . E para nós também.

Já não reclama contra o governo , está satisfeito ?

Não tenho razões para reclamar. Como posso reclamar de um governo que está a esforçar-se para resolver os problemas que o nosso país enfrenta, como a questão dos transportes aéreos, mais concretamente o problema dos TACV. Em 15 anos o PAICV não conseguiu resolver o problema e entregou-o num caos ao MPD, esperando agora que em dois anos todo o problema seja resolvido.  Não é possível e o governo está a trabalhar afincadamente nessa questão. O PAICV também não fez nada nos transportes marítimos. Hoje o MPD tem feito um grande avanço nessa área. Por isso vamos dar tempo. Não se podem fazer milagres. A oposição quer que o governo faça em dois anos o que não conseguiu em quinze. Temos que nos unir e dar o nosso contributo.

Nesta nova conjuntura está a trabalhar para que mais recursos venham para São Vicente?

Claro que sim. Devo dizer que periodicamente o primeiro-ministro reúne-se connosco e já fizemos várias reuniões para discutir financiamentos. Reuniões onde os autarcas têm voz. Este é um governo que me dá certezas e sei que juntos iremos ultrapassar as situações difíceis. Queremos dar a nossa contribuição para ajudar no desenvolvimento da nossa ilha.

A oposição sabe que a qualquer hora as coisas começam a acontecer e de forma seguida. Pergunto como é que o PAICV, com tanto dinheiro referente a taxas ecológicas e de turismo, tantos milhões que gastaram nas barragens e agora vêm reclamar do programa de mitigação que o governo esta a implementar. Deveriam estar a ajudar em vez de estar a atrapalhar o normal funcionamento das coisas.

Bairros

Estão aqui os projetos infraestruturantes que São Vicente esteve á espera e que estão agora em desenvolvimento. E em relação aos bairros o que temos para melhorar. Quais as medidas?

Temos reforçado as nossas ações nos bairros, não só a nível do calcetamento, que hoje mais a vontade estamos, alargamos esse tipo de trabalho, estamos praticamente em nove frentes ao mesmo tempo. Estamos a calcetar em todos os bairros. Para além disso em cada bairro nós estamos construindo habitações sociais para as pessoas mais carenciadas, como são os casos de: Ribeirinha, Campinho, Salamansa, Calhau e Norte de Baía. Uma coisa tão desejada que conseguimos ultrapassar e estamos a trabalhar é o plano Norte de Baía para que as pessoas tenham possibilidade de fazer as suas casas. Inicio das obras de habitações sociais, também, em Lameirão assim como fizemos em Madeiral. Estamos em todos os bairros. Já ultrapassamos os 81 mil habitantes, há muita exigência, mas a Câmara continua trabalhando com muito rigor e com muito apoio dos parceiros que ajudam bastante no seu plano de atividades.

Espero que façamos um mandato de excelência. As criticas são boas. Assim seguiremos fazendo e no final toda a população será recompensada pelo trabalho realizado.

A aposta nos eventos é para continuar

Dentro do nosso plano e projetos temos feito um trabalho no sentido de melhorar a economia da ilha. Temos pensado profundamente na nossa cultura. A CM tem dado uma atenção especial a vários sectores, por exemplo ao carnaval. Hoje o carnaval é uma satisfação, porque vê-se o empenho e toda a evolução do carnaval mindelense que está ultrapassando as fronteiras do país, exemplo disso é a participação na Nigéria, com grupos carnavalescos atuando noutras localidades. A população abraçou o projeto visando potencializar o carnaval, estamos a fazer um trabalho para melhor, o carnaval de verão, com os brasileiros, hoje temos uma liga, é uma máquina de trabalho. São milhares de pessoas envolvidas. Muita gente trabalhando. O empenho de todos demostra que foi uma aposta boa e que seguiremos fazendo.

O festival da Baía, que a cada ano torna-se mais forte, e temos dois festival. O da juventude, apesar das criticas, foi um sucesso porque a população responde a coisas boas e sérias. E ainda teremos o festival no mês de dezembro – o Festival Cesária Évora.

Queremos ser uma referência graças à nossa cultura, não podemos esquecer que o turismo se faz com produtos de qualidade, senão não é possível competir no mercado. A qualidade terá que ser a marca de referência da nossa oferta turística e sabemos que somos uma ilha de eventos, está no nosso ADN.  E todos os eventos tem implicações positivas na economia local, os eventos trazem pessoas à ilha, geram trabalho nos mais diversos setores, entre outros, restauração, transportes e hotelaria.

 

Regionalização neste mandato, mas parece que há um retrocesso, uma discussão entre os partidos. Como paladino da regionalização e autarca, como é que vê este retrocesso.

Vejo de uma forma diferente. Acho que a regionalização está no seu ponto mais alto a partir do momento chegou ao Parlamento – Assembleia Nacional-. Foi uma luta enorme aqui em são Vicente, debatendo a questão com a população durante vários anos. A fase mais alta de decisão. Agora é preciso discutir e aprofundar qual é o modelo. Mas que há uma necessidade, há sim. Mas estamos a ver o resultado importante que tem vindo da descentralização.

O governo do MPD é um governo descentralizador. Portanto, a regionalização é uma necessidade imperiosa. Agora a filosofia do PAICV, que é um partido centralizador, jamais conseguirá conviver com a regionalização. Isto porque gostam de poder na capital. Para decidir é que o poder deve estar mais perto do povo, isso que é a regionalização. O poder mais perto do povo.

Regionalização é um facto e já não há retrocesso. Estou contente por ter se  chegado a este nível. Será apresentado e discutido este ano e o PAICV terá de pensar bem a sua decisão e discutir com os partidos e dar realmente o voto de confiança à decisão do povo. As ilhas somente poderão desenvolver-se com a regionalização. É a forma de ultrapassar muitas situações. Há muitas decisões que poderiam ser tomadas nas regiões e que temos que esperar pela capital, e que poderiam ser tomadas de forma mais célere e assim ultrapassar as dificuldades das ilhas. Será ultrapassada essa fase mais forte e todos os deputados irão votar a favor da regionalização.

A nossa constituição já nos dá essa possibilidade sem pensar em reformas. Temos tudo na constituição. É só levar a votos e esperar a votação dos dois terços para poder dar a população aquilo que ela pediu nas últimas eleições.

  1. carlos reis

    gostei da entrevista e da postura do Augusto Neves . Quando o sistema MpD em são Vicente está perdido sem saber lidar com as situações novas , Augusto surge como diz a entrevista a “dar o corpo as balas ” Assume o que esta a fazer , assume a defesa do governo e das suas politicas .Nesta entrevista revela -se um augusto que não conhecíamos : com um discurso politico estruturado , com retórica e demagogia q,b .Agora sabe-se o pensa e o que vai fazer . Gostaria de ver os criticos a desmontar essa retórica

  2. Carlos Andrade

    Gostei desta entrevista, surpreendeu-me muito pela positiva. Realmente gostaria de ver os críticos a comentarem esta entrevista. Sr. Augusto como nunca se viu…

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