Abuso sexual de menores: três histórias, dezenas de casos a serem denunciados

9/05/2018 03:24 - Modificado em 9/05/2018 03:24
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Este online, continuando os artigos sobre o abuso sexual de menores traz, desta feita, alguns depoimentos de mulheres feitas hoje e que, quando crianças, sofreram abusos sexuais, uma por um vizinho, outra pelo tio e outra pelo pai. Casos reais que aconteceram com estas mulheres e que, infelizmente, ainda acontecem com outras crianças.

Segundo dados da Polícia Judiciária, apenas este ano foram denunciadas algumas dezenas de casos que deram origem ao artigo ‘Abuso sexual de menores’: uma praga que devora a nossa sociedade e que, com dados parciais disponibilizados, mostra quantos casos foram registados no departamento da Praia e do Mindelo, de Janeiro a Março. Foram cerca de sessenta e oito casos e, destes, sessenta são do sexo feminino, com idades compreendidas entre os três e os dezassete anos (03 a 17 anos).

Os abusos são perpetuados por desconhecidos, vizinhos, conhecidos, irmãos, tios, padrastos ou pais, que ignoraram a regra mais básica e fundamental de todas, ou seja, que a criança deve ser protegida e não ser usada para satisfação sexual.  

Trazemos algumas mulheres que dividiram as experiências sofridas ainda em criança. Algumas dizem terem bloqueado algumas partes do acontecimento devido ao trama sofrido.

Abusada pelo tio e pelo primo

Nunca tive coragem de falar sobre isso abertamente, mas quando tinha entre 4 e 8 anos, fui abusada por dois membros da minha família. Primeiro por um primo já adulto e, depois, por um tio. Eles abusaram do meu corpo. Na altura não entendia o que estava a acontecer comigo, mas lembro-me que chorava muito.

O meu pai era um homem muito severo. Quando fazíamos algo de errado ele batia muito em mim. E eles viam como é que ele me tratava e eu estava sempre com medo dele.

Acontecia que com o medo de apanhar do meu pai, eles ameaçavam-me dizendo que se contasse a alguém sobre o que estava acontecendo, o meu pai iria bater-me. E ele batia muito em mi, então o pânico entre apanhar e ficar naquela situação, criou em mim muitas sequelas emocionais do que aconteceu.

Actualmente tenho um namorado que não sabe desta minha “experiência”e que nunca vai saber. A todas as pessoas que passaram por isso, aconselho a não desistir de serem felizes e tentarem superar a dor e lidar com as consequências para a personalidade.

Meu pai que me deveria proteger, fez comigo o impensável

Aos nove anos de idade, sofri abuso por parte do meu pai que já era separado da minha mãe na altura. Nos fins-de-semana ia a casa dele. Um dia, acordei com ele na minha cama a acariciar as minhas partes íntimas. E depois, sempre que eu ia para sua casa no fim-de-semana, ele abusava de mim, porém, eu nunca contei isso à minha mãe. Meu pai abusou de mim até aos 12 anos.

A partir dos 12 anos deixei de ir a casa do meu pai, tenho/ tinha nojo dele. Até aos meus 15 anos guardei dentro de mim um ódio, com vontade de sumir, chorava muito, acho que isso abalou o meu estado emocional.

Depois, decidi contar o que aconteceu porque esse sentimento ruim que tinha dentro de mim começou a diminuir e comecei a assimilar que a culpa não era minha, como ele me fazia acreditar.   

Quando se passa de vítima a fraude

Fui abusada durante quase três anos pelo meu padrasto, dos nove aos doze anos. Durante esse tempo, ele ameaçava-me de todas as formas e quando já não suportava mais, contei à minha mãe e ela não acreditou em mim. Disse que eu estava a inventar porque não gostava dele e ainda fui espancada, porque “criança não deve inventar histórias”. O bom disso, se é que existe, é que ele ficou com medo e nunca mais me tocou.

Já adulta, desabafei com uma pessoa amiga e ela disse-me: “Você tem de provar que sofreu abuso” e, perplexa, questiono, como é que vou fazer isso. Se existem casos que não têm como comprovar. Só quem já passou por isso é que sabe como é. Eu passei. E eu não tive como provar.

O crime é tipificado e a penalidade estabelecida no Código Penal para além de prever a protecção por parte do ICA (Instituto da Criança e do Adolescente), criado em 1990, com a intenção de assegurar o respeito à integridade física, psicológica e moral da criança e do adolescente.

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