Barack Obama forçado a negociar com republicanos para evitar o precipício orçamental

9/11/2012 03:49 - Modificado em 9/11/2012 03:49
| Comentários fechados em Barack Obama forçado a negociar com republicanos para evitar o precipício orçamental

Com o poder novamente dividido em Washington, o maior e mais imediato desafio para o reeleito Presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, será acertar o tom do relacionamento com a maioria republicana na Câmara de Representantes, de forma a evitar o chamado “precipício fiscal”, que implicará uma subida dos impostos e um corte cego na despesa pública no valor de 600 mil milhões de dólares, logo no primeiro dia de 2013.

 

O Presidente estaria, teoricamente, numa posição de força para desbloquear o impasse criado pela oposição republicana, com a sua intransigência negocial durante o processo de fixação de um novo limite da dívida pública americana. No entanto, sabendo-se do efeito nefasto para a economia de uma eventual queda no abismo – o Gabinete Orçamental do Congresso e todos os especialistas alertam para uma violenta guinada da curva ascendente do crescimento económico de novo para o território da recessão –, será a Administração Obama quem pagará o preço político por uma nova crise. O Presidente está forçado a negociar para encontrar uma solução.

O problema tem a ver com um conjunto de medidas que serão automáticas sem a intervenção do Congresso. Uma série de cortes fiscais, negociados pelo ex-Presidente George W. Bush e pelo próprio Obama, expiram a 31 de Dezembro, ao mesmo tempo em que o “sequestro” orçamental entra automaticamente em vigor, congelando a chamada despesa discricionária e os fundos do Pentágono.

Outros problemas económicos que exigem a atenção urgente do Presidente: a aprovação do orçamento para o próximo ano fiscal (o funcionamento da máquina federal só está financiado até Março de 2013) e o estabelecimento de um novo tecto para a dívida que, segundo as estimativas, atingirá o limite de 16,4 biliões (milhão de milhões) de dólares dentro de quatro meses.

Ninguém acredita que o Presidente não tenha aprendido a lição depois do seu braço-de-ferro com os líderes republicanos do Congresso durante as negociações de Março para a sustentabilidade fiscal. Muitos comentadores viram no falhanço de Obama em levar por diante as recomendações do relatório Simpson-Bowles (os apelidos dos dois senadores republicano e democrata responsáveis pelas conclusões de uma comissão bipartidária) o grande erro de cálculo do seu primeiro mandato.

Mas a bancada republicana também terá tirado as suas próprias conclusões – não só do desfecho desse “episódio” como sobretudo da mensagem dos eleitores nas urnas. O speaker do Congresso, John Boehner (que fica no cargo na próxima legislatura) apareceu a dizer que “os americanos demonstraram que não querem mais impostos”, assim que as projecções confirmaram uma nova maioria conservadora na Câmara de Representantes. Na campanha, Obama defendeu prolongar a baixa de impostos de Bush para todos os contribuintes excepto para os 2% que têm os rendimentos mais altos – a sua taxa subiria para o nível dos anos Clinton.

Os republicanos podem reduzir a margem de manobra do Presidente e interferir com a sua agenda, numa aposta arriscada tendo em conta as intercalares de 2014. Mas é certo que os primeiros anos do segundo mandato de Obama serão definidos pela estratégia que a oposição decidir adoptar: mais obstrucionismo, como até agora, ou mais compromisso. Dada a divisão interna da bancada republicana, ainda refém do Tea Party, este último caminho parece ser o mais difícil. A polarização do país sugere que não existe consenso para a aplicação de muitas das políticas da Casa Branca, mas a verdade é que o Presidente conseguiu aprovar um pacote de estímulo económico, uma reforma do sistema regulatório e o chamado Obamacare, contra a oposição republicana.

Também é de esperar que Obama tenha retirado lições importantes da condução de alguns dos dossiers que ficaram incompletos ou sem solução e que o Presidente já indicou querer fechar no segundo mandato. Na política interna, a reforma da imigração, abandonada por cálculo político nos primeiros quatro anos, será seguramente tornada uma prioridade, tal como a questão energética, com o que ela implica de combate ao aquecimento global, e a redefinição da política orçamental, nomeadamente pela reforma do código fiscal.

Na política externa, o Presidente continuará a confrontar-se com a urgente crise na Síria e com a ambiguidade do regime iraniano, sob pressão internacional por causa do programa nuclear. Mas o problema mais bicudo nas suas mãos ainda é o processo de paz entre Israel e a Palestina.Do discurso de vitória de Obama em Chicago podem retirar-se as grandes linhas da sua futura acção governativa. Sem grandes detalhes, o Presidente enumerou a redução do défice e o equilíbrio das contas públicas, a reforma da imigração e as alterações climáticas/independência energética. “Vocês votaram na acção, não na politiquice do costume”, sublinhou, num sinal de que está determinado em avançar em todas estas frentes.

Para já, não é possível saber se o processo legislativo avançará de imediato, ou se a Administração vai ser cautelosa e esperar por uma eventual recomposição do Congresso em dois anos. Se for assim, o Presidente poderá dedicar mais atenção à sua vasta agenda internacional, que tem no fim da guerra no Afeganistão mais um sucesso anunciado.

 

 

publico.pt

Os comentários estão fechados.

Publicidades
© 2012 - 2018: Notícias do Norte | Todos os direitos reservados.