Fonseca Soares: “O teatro não pode desaparecer”

19/03/2018 07:02 - Modificado em 19/03/2018 11:46
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Homenageado com o mais importante e antigo galardão do teatro cabo-verdiano, José Eduardo Fonseca Soares irá receber este ano, o Prémio de Mérito Teatral 2018, cuja entrega será feita no Dia Mundial de Teatro, 27 Março, no Mindelo.

Considerado um dos grandes nomes do teatro mindelense a ser distinguido este ano na cena do teatro nacional este amante do teatro, já conta com cerca de 40 anos ao serviço das artes cênicas. Jornalista, actor e encenador diz que esta distinção é antes de mais uma emoção de sentir que entre pares existe um reconhecimento, e que este reconhecimento possui um valor emocional maior pelo facto de ser entre companheiros.

“Sobretudo uma espécie de mostrar e reconhecer o contributo dado ao teatro e também de que tenho estado neste mundo, algo que como todos sabemos tem sido feito de forma amadora, mas com muito amor, é uma vontade de estar ali. Um reconhecimento que pode chegar ou não e está tudo bem, mas ao chegar é uma emoção forte” desabafa.

Em Maio de 2012 estreou a peça teatral Teorema do Silêncio e este ano e participa na peça “Cronicas do Mindelo”, do mindelense Roca Vera Cruz, que se estreia no próximo fim-de-semana e que neste momento o elenco se encontra na fase final dos ensaios. “Uma peça que é antes de mais, uma festa do teatro de Grupo de Teatro do Centro Cultural do Mindelo pelos seus 25 anos e que ao mesmo tempo é uma festa do Mindelo” explica Fonseca Soares que afirma ainda que é também, uma tentativa de “apanhar a parte especial de Mindelo que tem humor, mas também os problemas, a miséria onde ao mesmo tempo o humor é sempre constante”, traduz.

Confira a entrevista. 

Notícias do Norte – Como e que descobriu o bicho do teatro?

Fonseca Soares – Surge ainda jovem no liceu e depois continuou na radio onde comecei bem cedo, desde dos meus 15 anos, onde havia um programa a dedicado a teatro radiofônico que eram peças que vinham de fora pré gravados de capítulos. E aquilo despertava o meu interesse e em casa brincava com essa ideia de actuar e no liceu surgiu a ideia de formar um grupo que passou a ser chamado posteriormente de Grupo de iniciação teatral, ainda antes da independência de Cabo Verde e fizemos uma peça que andou por todas as ilhas na altura. Me lembro de ter feito o papel de um agente da PIDE.

Notícias do Norte – Como se sente no mundo do teatro? Como actor e encenador?

Fonseca Soares – Um gozo, uma satisfação, uma forma de sentir bem com nós mesmos. Para mim estar no palco, não é sentir bem com os holofotes em cima. É algo de que gosto, que faco por amor as artes cénicas, de se sentir satisfeito comigo mesmo, de se sentir como um elemento de um projecto, de uma ideia e também de encarar o teatro como algo necessário na vida das pessoas, como uma forma de escape, como forma de mensagem de ajudar a estar melhor e ser melhor na vida real,

Agora em relação a encenação, não me considero encenador, apesar de já ter feito este papel algumas vezes. É uma coisa que é preciso dedicar, estudar, ter um dom. Já encenei algumas pecas sobretudo no âmbito do teatro infantil, mas temos bons encenadores em Cabo Verde.

No entanto é preciso fazer de tudo para que o teatro não desapareça, o teatro não pode desaparecer, porque o que for preciso fazer é para ser feito, e é nesta óptica que posso fazer encenação de alguma peça, caso haja a necessidade.

Notícia do Norte – Que estilo de teatro faz?

Fonseca Soares – Gosto de fazer teatro. Muitos, se calhar pelo meu aspecto de ser tímido tem a ideia que não tenho apetência para a comédia, se bem que na maior parte das vezes tenho feito personagens mais dramáticos, embora tenho feito também alguns personagens no teatro infantil. Mais que a parte pedagógica é fazer com que as crianças captem e gostem.

Não tenho uma apetência especial para dizer que é para comédia ou drama, gosto de fazer teatro e o mais importante é procurar a partir das minhas experiencias, das minhas memórias, da minha maneira de estar, trabalhar na construção do personagem.

Notícias do Norte – Acredita que o teatro é um espaço de reflexão politica e social?

Fonseca Soares – Naturalmente. Não tem o papel de “panfletagem”,mas espelha a vida, a nossa maneira de ser, os males da sociedade e em certa medida traz a ideia de fazer reflectir sobre a vida.

Notícia do Norte – Como é trabalhar no teatro em São Vicente?

Fonseca Soares – Torna cada vez mais fácil. Antes existiam poucos grupos e a preocupação era ter uma sala ou sede para fazer os ensaios e apresentar uma peça que era fazer, nota-se ainda que os jovens estão cada vez mais virados para o teatro.

Hoje me dia é sobretudo aquela vontade de fazer teatro, na procura da melhor qualidade. E com muito trabalho e muita dedicação estamos a ver os resultados do que se tornou o teatro em São Vicente e em Cabo Verde de uma forma geral.

Notícias do Norte – O que instigou esta mudança?

Fonseca Soares – Na minha opinião, a esta mudança teve o seu ponto alto nas escolas de formação que foram surgindo, bem como a forma como as pessoas começaram a encarar o teatro, a criticar e isso exigiu uma qualidade maior. O facto de muitos grupos fazerem as suas próprias peças, entre outros.

Com as formações e cada um com a sua escola, suas ideias. Isso porque tem mil e uma formas de fazer o teatro. Tem gosto para tudo e com isso posso afirmar que o teatro está de boa saúde nas últimas duas décadas, pelo facto de estar mais constante, e todas as ilhas tem contribuído para este bom teatro.

Notícias do Norte – Quando está em cena, o que procura transmitir em palco?

Fonseca Soares – Isso varia consoante o estilo de peças, consoante o público. Mas de uma forma geral é sobretudo fazer com que o ser humano veja a si mesmo, fazer com que as pessoas reflictam sobre os seus problemas e sobretudo não dar mensagem concreta de “panfletárias”, mas fazer com que olhe a si mesmo e pensar sobre si mesmo e gozar consigo mesmo.

Mas para alem disso, uma peça de teatro é um espectáculo e deve ser um objecto de arte e ao mesmo tempo entretenimento.

Notícia do Norte – Como é que gostaria que o público sentisse o teatro?

Fonseca Soares – O publico é livre de sentir, de gostar ou não, mas um dos aspecto é ter respeito pelo trabalho de determinado grupo que esta no palco, que não estejam atentos a peça. Fora isso é livre de gostar, de reclamar, de criticar, porque é através de críticas que melhoramos.

Notícia do Norte – Fala-nos dos seus espectáculos? Pode precisar em quantas peças já trabalhou

Fonseca Soares – Não tenho esta preocupação de os contabilizar, mas são muitas. Por exemplo ainda antes da independência foram duas peças e o terceiro não chegou a ser feito. Depois com o “Atelier Teatro Acácia”, fizemos umas duas peças.

Sempre tive uma maneira aberta de estar no teatro, isso porque acredito que não devemos estar fechados de que somos de um grupo. Teatro é partilha é colectivo é dar e conhecer.

Mas essa não é uma forma de dizer que são muitos por isso perdi a conta, é algo com que não me preocupo mesmo.

Notícias do Norte – Mais  um “Março mês do teatro”, a décima oitava edição, qual é o balanço que faz?

Fonseca Soares – O Março mês de teatro, desde que que foi criado pela Associação Mindelact, foi sobretudo fazer com que durante este mês, os grupos de teatro de São Vicente e Cabo Verde, não só procurasse mostrar o que tem feito, mas também falar de teatro, discutir teatro. Porque são essas as ideias que estão assentes neste projecto, e os objectivos têm sido cumpridos. Cada vez tem tido um pouco para todas as ilhas.

No entanto varia de intensidade e quantidade de ano para ano, mas continua sempre nesta ideia, por isso reafirmo que o balanço tem sido positivo.

Prémio Mérito Teatral 2018

A Associação Artística e Cultural Mindelact distinguiu José Eduardo Fonseca Soares “pelo seu percurso enquanto jornalista, técnico, ator, encenador e dramaturgo, sendo, sem qualquer dúvida, uma das figuras mais emblemáticas da história do teatro cabo-verdiano.”

Ainda, segundo a referida associação, a proposta foi votada em sede de Assembleia-Geral da Associação e contou com o parecer favorável unânime e uma forte aclamação.

Tchá, como é conhecido pelos amigos, na rádio e no teatro, receberá o galardão no próximo dia 27 de Março, dia mundial do teatro, em cerimónia oficial que se realiza, como habitualmente, no pátio do Centro Cultural do Mindelo.

Este prémio tem como objectivo principal servir de incentivo para aqueles que, de uma forma ou de outra, têm contribuído para o melhoramento do teatro cabo-verdiano.

De 1999 a esta parte foram premiados, entre outros, Juventude em Marcha (produção teatral), Mário Matos (investigação) do Centro Cultural Português do Mindelo – IC, Francisco Fragoso (encenação) da Escola Salesiana de Artes e Ofícios, o jornal A Semana e a Rádio de Cabo Verde (promoção), Público do Mindelo, Cine-Teatro Éden Park (infra-estrutura), Grupo Otaca, Banco Comercial do Atlântico e os artistas Luísa Queirós e César Fortes.

 

 

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