Doentes mentais: Falta atenção à saúde mental de quem vive em situação de risco

1/03/2018 00:56 - Modificado em 1/03/2018 00:56
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“Já não é sequer notícia falar sobre a questão dos doentes mentais e o consequente abandono”, afirmação feita por uma moradora que diariamente, há quase dez anos segundo conta, acompanha o drama de uma vizinha que sofre de problemas mentais.

O assunto foi, mais uma vez, abordado por uma jovem recém-licenciada em psicologia que, no passado fim-de-semana, passou por um momento que considera “caricato” e com muita falta de “empatia” para com as pessoas que sofrem este tipo de doenças.

Segundo o relato desta jovem, no dia 23 deste mês, a caminho de casa, deparou-se com uma mulher sentada no chão com uma perna ferida e com marcas de queimaduras numa parte do corpo. Ao dar-se conta da situação, ligou para os serviços de emergência a solicitar uma ambulância, uma vez que era uma situação de urgência e a mulher parecia estar cheia de dores, para lhe prestarem socorro. A mesma conta que passou horas atrás dela de modo a poder actualizar o local onde se encontrava, para quando a ambulância chegasse, o que não aconteceu.

De acordo com a mesma, os serviços afirmaram que estavam ocupados, o que a deixou incrédula e, depois de várias tentativas, deslocou-se a casa da doente, na Ilha da Madeira na Ribeira Bote, com o intuito de obter ajuda, algo que não encontrou, uma vez que o sobrinho, o único, segundo os vizinhos que se ocupa dela e outra vizinha que há anos que luta para que ela possa ter algum tipo de acompanhamento, não estavam em casa.

Em entrevista com a referida vizinha, que mora mesmo à frente da doente e que preferimos manter o anonimato, esta conta que o primeiro sinal aconteceu diante dela. “Ela estava com um tina de peixe na cabeça e, de um momento para o outro, parou e arremessou a tina para uma senhora e, desde então, é só piorar”, conta a senhora que também se mostra indignada para com a forma como alguns familiares lidam com a situação, bem como as instituições de quem já “correu” atrás.

Actualmente, “Nilza”, como é chamada, encontra-se internada no HBS depois de ter sido encontrada a andar nua pelas ruas da cidade e, posteriormente, foi conduzida ao hospital. “Ultimamente, ela apanhou o hábito de andar completamente nua”, relata a vizinha, que não tem nenhum laço de parentesco com ela e que, no entanto, se sente impelida a ajudar com alimentos, roupas e naquilo que lhe é possível.

“Nos últimos anos, a minha luta tem sido tentar que ela seja integrada no Centro de Apoio aos Doentes Mentais (CADM) da Câmara Municipal de São Vicente, de forma a ter um maior apoio e não ficar constantemente a ser internada no hospital e depois de passar o período estabelecido, regressar para as ruas e estar à mercê de todo o tipo de situações, como o consumo de álcool, estupefacientes e de vários tipos de violência e até já foi abusada sexualmente algumas vezes. De vez em quando alguns jovens entram no quarto dela para abusarem dela”. Por causa disso, pede-se mais atenção das famílias e das autoridades bem como um centro de acolhimento maior para atender este tipo de doentes.

“Tem sido internada diversas vezes. Tem 37 anos, quero que ela seja metida no centro social de Vila Nova”, desabafa esta senhora que reconhece que não têm nenhum laço de parentesco, mas que não gosta de a ver naquela situação.

Por outro lado, a coordenadora do Centro de Apoio aos Doentes Mentais, questionada sobre a forma de actuação do centro nestas situações, deixa transparecer que o centro nada pode fazer.

É que segundo esta psicóloga, este projecto foi feito para acolher as pessoas com problemas mentais que andavam a deambular pelas ruas. “A maioria dos pacientes que hoje vivem aqui vivia na rua. E aqui funciona como se fosse a casa deles; não é um centro para acolher doentes mentais para, depois de recuperados, irem para as próprias casas. Começámos com quatro pacientes e hoje são 45 e o centro está lotado e já houve tempos em que tivemos mais. Para além deles, existem os que vêm cá fazer as refeições”, explica esta técnica de saúde.

Questionada sobre o papel da família nestas situações, Lenilda Brito diz que não sabem como agir. “Temos de encontrar uma solução para este problema, a fim de dotar as famílias de capacidade e competências necessárias para poderem lidar com a doença”, disse, afirmando que há também necessidade de uma sociedade mais informada sobre a saúde mental e, com isso, promover a saúde mental.

No seu entender, o centro trabalha numa perspectiva comunitária e não como uma instituição onde esses doentes têm de ser internados e abandonados aos técnicos de saúde. “É preciso envolver as famílias. E temos conseguido isso através de visitas pelo que também não queremos que alguns familiares vejam o centro como refúgio, ou seja, quando os doentes entram é como se a responsabilidade fosse, a partir daquele momento, única e exclusivamente do centro”, diz.

Conta ainda que há bem pouco tempo o Serviço Social da CMSV resgatou um senhor das ruas com graves problemas mentais. “Existe um processo para entrar no centro e, para além disso, há uma lista de espera enorme e não conseguimos dar vazão a este problema por ser um centro pequeno e também pelas condições que possui”.

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