Mãe e madrasta: uma parceria possível

1/02/2018 01:15 - Modificado em 1/02/2018 01:15
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Uma é nada da outra, oficialmente. Mas a relação entre essas duas mulheres pode ajudar muito a construir o feminismo nosso de cada dia

A dualidade mãe versus madrasta, estilo “bem contra o mal”, é coisa antiga – sabe aquela pitada de conto de fadas nas nossas vidas? Há quem tente superar a madrasta da Cinderela invertendo o jogo, dizendo que tem mãe má e madrasta boa. Há quem prefira neologismos como boadrasta ou mãedrasta. E tem quem consiga enxergar, para além dos estereótipos, seres humanos tentando acertar em seus relacionamentos e em busca da simples e pura felicidade.

Relações humanas, aliás, são complexas quase que por definição. Quando envolvem amor, ex-amor e crianças, chegam a nos deixar sem ar para respirar tão fundo. Muitas vezes falta lenço também. Vale lembrar: nem sempre a simpatia entre mãe e madrasta é imediata, e não precisa virar melhor amiga. Mas boas histórias – e uma dose de terapia relacional – estão aí para lembrar que dá, sim, para derrubar mais essa fronteira e enxergar a outra mulher como aliada.

Com açúcar e empatia – a parceria de Daniela e Cecília
Empatia e sororidade ainda não eram termos em voga 16 anos atrás, quando a técnica de laboratório Daniela Anunciação, 39 anos, conheceu a tradutora Cecília Santos, 51, mãe do seu enteado. Mas foi com essa munição – e uma máquina de algodão doce – que ela chegou na festa de 6 anos do Lucas e na vida deles. “Eu sempre achei que a mulher tem que apoiar a outra mulher”, conta Daniela. “Com respeito ao filho, ao passado, e se colocando no lugar do outro, não tem como dar errado”, aconselha.
Cecília e Luiz estavam separados há dois anos. Muitas vezes, ele deixava de buscar o filho nos fins de semana. Daniela passou a cobrar dele as obrigações paternas, inclusive financeiras.

“Eu sou muito grata à Dani por ter aproximado os dois. E o Lucas acabou se tornando muito próximo a ela. Sabe segredinhos que você não conta pra mãe?”, revela Cecília.
O tempo passou e a relação delas evoluiu para amizade. 17 anos depois daquele algodão doce, foi Cecília quem fez o bolo do nono aniversário do caçula de Daniela. “As mães vivem sobrecarregadas de responsabilidades. A chave aqui é generosidade para dividir e confiança para aceitar a divisão. A gente precisa do outro, da outra”, conclui Cecília.

A maturidade dos vinte e poucos anos de Kamila e Joana
A história da técnica em enfermagem Kamila Paiva, 25 anos, e da assistente administrativa Joana Souza, 22, começou com brigas e mágoas. Kamila se separou de Waldeir quando estava grávida; ele casou com Joana, que engravidou pouco tempo depois; o casamento de Joana e Waldeir acabou, e ele reatou com Kamila. Kamila, que já era mãe de Alice, virou madrasta de Isabela. “Implicávamos muito uma com a outra até chegarmos à conclusão que tínhamos em comum o amor pela Isabela”, resume Kamila. Para a Joana, colocar-se no lugar de madrasta não foi apenas um exercício de imaginação – por um tempo, viveram papéis invertidos (e ela também foi madrasta de um menino).  “A Kamila demonstrou tanto amor e afeto pela minha filha que ganhou minha confiança. Comecei a ter um olhar de admiração por ela”, contou Joana.

Hoje, as duas decidem juntas vários aspectos da educação das meninas. Em alguns casos, preferem conversar entre elas, pela facilidade do entendimento. Mesmo assim, Kamila frisa: “a mãe vai sempre ter contato com o pai, querendo ou não. É preciso ter maturidade para isso”. As filhas crescem tendo como exemplo duas mulheres que se respeitam. Isso também é feminismo na prática, certo?

Dicas de terapia relacional para todos os adultos dessa relação
Se existe mãe e madrasta, existe também um pai que precisa assumir seu papel sempre. Talvez também tenha um padrasto. São as famílias-mosaico, cada vez mais comuns. No meio de tantos adultos, aprendendo o mundo e as relações, está a criança. Os problemas para as crianças acontecem, principalmente, quando os conflitos da separação perduram no tempo, nota a terapeuta relacional Simone Bambini Negozio, docente do Instituto de Terapia Familiar de São Paulo. “Se mãe ou pai estão inseguros, ameaçados pela entrada de uma terceira pessoa, a criança terá dificuldade em se vincular a ela, pois se verá presa num conflito de lealdade”, explica.

Acusações há para todos os lados: mães reclamam de valores diferentes ou de madrastas que atrapalham a comunicação com o pai; madrastas dizem que mães usam os filhos para manipularem o ex-marido; as duas acusam pais que se eximem de suas obrigações transferindo-as para uma ou outra. Lidar com atitudes e valores distintos é importante – e pode ser até enriquecedor. As comparações vão acontecer:  “As crianças percebem e apontam as diferenças”, contemporiza Simone. A terapeuta ainda tranquiliza as mães preocupadas com isso: “O que aprendem com os pais tem um valor imenso, e as novas condutas que percebem das  madrastas e padrastos, logo serão reconhecidas como diferenças”.  De outro lado, lembra que a madrasta também é um adulto importante na vida da criança e participa da educação da criança pela presença e pelo exemplo.

Para viver essa formação familiar de forma harmônica e feliz, reunimos uma listinha de dicas preciosas: 
1. Todos têm impacto nessa relação – é o que se chama de mutualidade. Antes de só apontar os defeitos da outra, é bom lembrar que as suas atitudes geram reações 😉
2. O exercício de aceitação e respeito é uma grande lição para as crianças. Mais um bom motivo para investir nele!
3. Lembre-se que vocês são os adultos – e deixem as crianças agirem como crianças. Às vezes elas só precisam de tempo e ver que vocês estão tranquilos para aceitar o novo adulto na sua vida
4. Evite triangular com as crianças as questōes dos adultos. A posição de intermediário é muito ruim para elas (não são mensageiras, viu?).
5. Não fale mal de mãe, pai, madrasta e padrasto. O preço dessa atitude é grave – além de gerar sofrimento nas crianças, pode gerar processos legais de alienação parental. Por isso, mesmo que a relação não seja das melhores, cuidado com isso, ok?
6. Tente criar um canal: do que a mãe precisa? Quais as dúvidas ou dificuldades da madrasta? Muitas vezes uma conversa é o jeito mais simples de resolver pequenos problemas do dia a dia.

http://revistaglamour.globo.com/Na-Real/noticia/2018/01/mae-e-madrasta-uma-parceria-possivel.html

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