A PONTE ENTRE A CULTURA E A CIVILIZAÇÃO

29/01/2018 05:21 - Modificado em 29/01/2018 05:21
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     Os termos Cultura e Civilização em título revestem aqui o sentido epistemológico que lhe confere Oswald Spengler (1880-1936) no seu livro “O Declínio do Ocidente”, e mesmo Nietzsche, com a sua crítica violenta aos valores do mundo ocidental.

A Cultura é entendida como um complexo de ideias e valores éticos e estéticos criados e cultivados pelas elites intelectuais das comunidades, configurando uma visão particular do homem, da vida e do mundo. Tudo se exprime basicamente na Filosofia, nas Ciências e nas Artes. Desta sabedoria o homem foi fazendo as suas interpretações e aplicações práticas, visando os aspectos utilitários e funcionais do seu modo de viver, no seio de sociedades estruturadas e reguladas por normas. E assim surgiram as civilizações, com os seus padrões de desenvolvimento e os seus interesses vitais, estes nem sempre, ou raramente, coincidindo com os de comunidades ou nações vizinhas em disputa de espaços limítrofes. É claro que os germes da conflitualidade, ontem como hoje, radicam no seio das próprias comunidades, opondo classes ou grupos diferentes, mas é na relação com o outro, o estranho, o desconhecido, que emerge a natureza obscura, contraditória, conflituosa e violenta do ser humano. A escala das confrontações é variável e circunstancial, indo de questões menores passíveis de resolução pela negociação e pela diplomacia, a conflitos bélicos de grandes proporções e devastadoras consequências, envolvendo nações e coligações de nações.

É neste complexo de realizações, idealizações e ambições de índole material que se traduz a Civilização como a conhecemos. Ela é a expressão do mundo material que emana da Cultura, ou seja, do mundo das ideias. No entanto, há uma relação de causalidade entre uma e outra, ou, melhor dizendo, ambas têm a sua origem num mesmo legado intelectual. Mas com uma diferença significativa na sua natureza intrínseca. Enquanto a Cultura é de estirpe genuinamente espiritual, isto é, intelectual e volitiva, a Civilização é do domínio emotivo, instintivo e imediatista. Enquanto a Cultura se atém a uma atitude sistematicamente reflexiva, crítica, inovadora e renovadora, questionando os fundamentos da essência do ser para melhor perspectivar a sua evolução e o seu futuro, a Civilização é o respaldo de uma atitude de aceitação dogmática, de um automatismo utilitarista, de um ajustamento a princípios que não questiona e procura simplesmente converter em fórmulas de aplicação prática.

Quando se diz Civilização, está obviamente em causa o mundo ocidental e cristão (legado das culturas greco-latina e judaico-cristã), e com razão, já que ele é que dominou o percurso trans-histórico da humanidade nos dois últimos milénios. Para o bem e para o mal, convenhamos, ostentando duas faces distintas e contraditórias: o progresso material e altos padrões de vida, fruto das ciências e das inovações tecnológicas; o protagonismo dos conflitos bélicos mais dilacerantes da história.

É aqui que entra Spengler e o seu livro “O Declínio do Ocidente”, editado logo a seguir à I Guerra Mundial, com a tese de que a cultura (subentenda-se, civilização) ocidental havia perdido o seu ciclo vital e caminhava irreversivelmente para o fim, à semelhança do que acontecera com outras anteriores que tiveram o seu apogeu – como a babilónica, a egípcia, a grega e a romana. Aquele filósofo e historiador, perante os sinais que emite este nosso mundo actual, teria porventura razões acrescidas para revalidar inequivocamente a sua tese. Do mesmo modo, Nietzsche certamente que o secundaria com a visão ainda mais radical da sua filosofia moral expressa nas suas dissertações em “Vontade de Poder”, em que estabelece a relação entre Cultura e Civilização, preconizando que o desenvolvimento desta conduzirá a uma decadência cultural.

De facto, o que vemos acontecer no mundo em nada nos tranquiliza. Dos escombros da II Guerra Mundial pretendeu-se construir uma nova ordem mundial, promissora de paz, mas ela não surtiu o efeito desejado. Presa por arames durante o período da chamada Guerra fria, teve ao menos a virtude de evitar um conflito declarado entre as duas grandes potências do sistema bipolar. Ruído o Bloco Leste, entrou-se no actual sistema multipolar, que é contemporâneo de uma globalização sob a égide de um neoliberalismo que sobrevaloriza o capital e a lógica do negócio, em detrimento da Cultura no sentido que aqui lhe reconhecemos, ou seja, a dignificação do ser humano como um valor supremo ou o objectivo principal da marcha civilizacional. Só para citar um exemplo, quando uma fábrica multinacional fecha as suas portas num país europeu ou americano para as reabrir onde pode maximizar os seus lucros, por recurso a mão-de-obra muito mais barata e em condições infra-humanas, quase de escravidão, não se pode dizer que a civilização esteja no bom caminho e que esta globalização sirva os valores e os princípios que enformam a Cultura.

Bastará olhar para a qualidade média dos actuais e recentes actores da cena mundial para se perceber que a sociedade humana não soube ou não consegue renovar o cardápio de princípios orientadores da liderança política que o actual progresso material exige. E quando, sobretudo, se vê ao leme da potência mundial mais poderosa uma criatura da estirpe de Donald Trump, instala-se então a intranquilidade. Que confiança pode inspirar um homem cuja palavra de ordem é “America First”, que constrói muros na fronteira com o seu vizinho a sul, que rasga acordos internacionais de cooperação assinados pelo seu antecessor, que trata com desdém xenófobo e racista povos de outras etnias e quadrantes geográficos?

Para compreender a dinâmica das forças vitais do planeta e reagir aos seus desafios, não basta o progresso tecnológico e o desenvolvimento material. É preciso olhar atentamente para a Cultura, renovando as suas valorações éticas, morais e estéticas, para que o homem não fique refém do mundo artificial das suas criações. Só assim se habilita a interagir harmoniosamente com o mundo natural e a respeitar a vida e a dignidade humanas como um valor absoluto.

 

Tomar, 28 de Janeiro de 2017

Adriano Miranda Lima

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