Domínio dos computadores sobre os humanos “é quase uma inevitabilidade”

22/01/2018 23:45 - Modificado em 22/01/2018 23:45

O engenheiro eletrotécnico David Carvalhão, especialista na área da tecnologia que participa hoje na conferência Talk a Bit, disse à Lusa que o domínio dos computadores sobre os humanos, num futuro próximo, “é quase uma inevitabilidade”.

“Vamos, a pouco e pouco, entregar de livre vontade a esmagadora maioria do poder de decisão aos automatismos e computadores”, afirmou David Carvalhão, acrescentando que esta é uma transição gradual, já em curso, da qual “a maioria das pessoas não está consciente”.

David Carvalhão, parceiro na empresa de tecnologias Vigil365, falava a propósito da 6.ª edição da conferência Talk a Bit, que se realiza hoje, na Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto (FEUP).

“[Os computadores e autómatos] não vão tomar o poder dos humanos pela força, como é habitualmente antevisto pela ficção científica, mas sim porque estamos a criar uma sociedade de tal forma complexa que vai superar a capacidade cognitiva dos seres humanos para a gerirem”, defendeu.

Embora acredite que os humanos ainda controlem o desenvolvimento da tecnologia, o especialista considera que existem casos em que esse controlo não é absoluto.

Exemplo disso é o ‘deep learning’, um tipo de inteligência artificial no qual as decisões tomadas não estão definidas à partida, mas vão evoluindo com o tempo, que é utilizada em aplicações com “elevado impacto humano”, como carros autónomos ou sistemas de investimento em bolsa.

“Não sabemos como funciona este conceito. Apenas sabemos que, na maioria dos casos, dá o resultado que pretendemos e que esse resultado é estatisticamente satisfatório”, esclareceu, questionando: “Podemos dizer que controlamos algo que não sabemos exatamente como funciona?”.

Segundo o engenheiro eletrotécnico, o que diferencia a atual revolução tecnológica das anteriores é a substituição da atividade humana, não só ao nível do trabalho físico, mas também de trabalho cognitivo.

“Qualquer instância em que a tomada de decisão possa ser feita de forma mais rápida ou economicamente eficiente vai ter um elevadíssimo impacto”, indicou, assumindo como maior receio o uso desta tecnologia, a curto prazo, em aplicações militares.

“É já tema de discussão e experimentação a criação de robôs assassinos, completamente autónomos, que decidem por si o tirar ou não a vida a um ser humano”, referiu.

Também para André Lago, um dos organizadores da Talk a Bit, a tecnologia caminha “a um ritmo cada vez mais acelerado para se aproximar ao máximo do comportamento humano, aumentando rapidamente a quantidade de tarefas em que estes podem ser substituídos por máquinas”.

Neste movimento, “vemos as máquinas a substituir o trabalho de humanos, como já acontece nos ‘call centers’ e nos postos de atendimento”, apontou, adiantando que, no futuro, profissões relacionadas com o ensino e com a medicina poderão também ser realizadas por computadores.

“Acredito que, num futuro bastante próximo, a condução começará a ser substituída por veículos completamente autónomos e que, muito em breve, o ser humano se torne numa espécie interplanetária”, afirmou André Lago.

Para o organizador, a área da saúde é aquela que, a nível social, mais irá beneficiar da evolução tecnológica.

Os avanços recentes na deteção, prevenção e tratamento de doenças, que permitem uma diminuição gradual do custo associado a essas técnicas e, consequentemente, facilitam o acesso de mais pessoas a tratamentos e cuidados médicos de qualidade, sustentam essa opinião, indicou.

A Talk a Bit, que surgiu em 2013, é organizada anualmente por estudantes finalistas de Engenharia de Software da FEUP. Visa a partilha e a discussão de tópicos atuais relativos ao impacto social da tecnologia.

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