CONSUMIDORES VÍTIMAS DE FRAUDES  

17/01/2018 05:22 - Modificado em 17/01/2018 05:22
| Comentários fechados em CONSUMIDORES VÍTIMAS DE FRAUDES  

Dedico este artigo à Associação de Defesa dos Consumidores (ADECO), a que pertenço desde o seu nascimento, pelo trabalho louvável de informação e desmistificação que vem desenvolvendo sobre o que consumimos e dos seus produtores. Servir-me-ei do recente livro Ciência e os Seus Inimigos, Ed. Gradiva, dos autores de que já vos falei em tempos, Carlos Fiolhais, Prof. de Física na Universidade de Coimbra, e David Marçal, Prof. de Bioquímica na Universidade de Lisboa.

De notar que o mundo vai sendo subvertido pelos meios de comunicação social com casos de pseudociência como a homeopatia, as terapias ditas alternativas, a astrologia, a magia, que assumem foros de veracidade ocupando páginas de jornais e tempo de antena nas rádios e televisões, em detrimento da ciência e do conhecimento por aumentarem o número de consumidores e audiências, o que interessa aos que pagam esse tipo de publicidade e aos que recebem o pagamento, com desprezo total pelo público.

As terapias alternativas são um autêntico logro, por serem pseudociência que agrupam a naturopatia, osteopatia, acupunctura, homeopatia, etc. A Entidade Reguladora da Comunicação e o Instituto Gulbenkian de Ciência informam que apenas 0,8% do tempo do telejornal em horário nobre é dedicado à ciência, quando a pseudociência tem direito a horário nobre, a que chamam “acreditar”, onde vemos especialistas em medicina popular, cartomantes, endireitas, médiuns, exorcistas, etc. Em Espanha, o Colégio de Médicos determinou o fim de todos os cursos e actividades relacionadas com terapias alternativas, por falta de suporte científico, o mesmo tendo acontecido no Reino Unido, quando, em Portugal, foi produzida, no Governo de Passos Coelho, legislação permitindo tais actividades com foros de ciência.

Atente-se no que se passa entre nós relativamente à dificuldade da ADECO em obter alguns minutos da RTC para transmitir informações úteis aos consumidores e desmistificar fraudes, mesmo fornecendo programas gravados nos seus serviços, quando não há limite de tempo para repetições de jogos de futebol, festivais, publicidade enganosa, notícias e entrevistas sobre escândalos e banalidades, o que, de resto, acontece também em Portugal, de que sofremos os efeitos colaterais por os canais televisivos portugueses serem vistos em Cabo Verde e consumirmos jornais portugueses.

A eleição de Roland Trump nos EUA não melhorou a situação, pelo contrário, piorou-a, estimulando a ignorância, a estupidez e o obscurantismo por ele não acreditar na ciência e se recusar a procurar o conhecimento. “Donald Trump é o exemplo da ascensão da ignorância ao mais alto nível”, por ser a ignorância em assuntos tão importantes como a política internacional, a geografia, a economia, a ciência e a tecnologia. Trump está no polo oposto do Papa Francisco na sua encíclica Laudado Sí (Louvado sejas), baseada na melhor ciência de que dispomos (o Papa Francisco teve formação secundária em Química Técnica e chegou a realizar profissionalmente análises químicas antes de entrar para o seminário). Nessa encíclica são nítidas as preocupações ecológicas, tanto relativamente às alterações climáticas, como a outros prejuízos ao Planeta. Em entrevistas não se coíbe de dizer verdades que incomodam muita gente. Por exemplo, sobre os emigrantes interrogou-se: “por que saem das suas terras? Por falta de trabalho, ou por causa da guerra. Falta de trabalho porque foram explorados. A Europa explorou a África”. O Papa Francisco continua abertamente a favorecer e defender o bom acolhimento dos migrantes, ao contrário de Trump que constrói muros na fronteira com o México, expulsa os imigrantes, fecha as fronteiras a imigrantes vindos dos “países de merda ou das latrinas”, como declarou recentemente.

Vamos falar um pouco, como lhes chamaram os autores do livro referido, de vendilhões, exploradores do medo, obscurantistas e de cientistas tresmalhados, alguns cujas façanhas, na realidade fraudes, até podem ser encontradas em livros meus, indivíduos e empresas que deveriam ser rigidamente controlados ou presos, mas que estão por aí vivendo à tripa forra à custa do sofrimento dos que consomem os seus produtos.

Na defesa do interesse da sociedade, as autoridades reguladoras do consumo e da publicidade não deveriam permitir mensagens publicitárias que se sabe serem falsas à luz da ciência. Os meios de comunicação não deveriam dar tempo de antena a ideias erradas ou suspeitas e a produtos que se sabe não funcionam, por isso ser cumplicidade a fraudes. Infelizmente, tal não acontece, até porque muitas dessas empresas produtoras subornam essas instituições de controlo ou as capturam com o seu colossal poder financeiro. Daí a necessidade de a sociedade civil dispor de instituições não-governamentais do tipo da Adeco geridas por gente tutanamente honesta, incorruptível em defesa dos cidadãos consumidores e do país.

Os produtos ditos naturais, que gozam de enorme fama, podem ser prejudiciais. Em remédios à base de plantas originárias da India e China, sob o nome de medicina Ayuruética, também utilizadas nos EUA por pessoas vindas desses países, constatou-se uma concentração elevada de chumbo, muito prejudicial à saúde. São plantas da família das Aristolóquias. A Food and Drug Administration (FDA), o organismo que nos EUA regula a indústria alimentar e farmacêutica, considera suspeita a designação de “natural” e há que ter cuidado com isso.

Actualmente, encontramos nos mini e supermercados grande número de artigos com a etiqueta sem glúten. O glúten é uma associação de proteínas de vários cereais como o trigo, cevada, centeio e aveia que provocam, nalgumas pessoas, reacções do tipo alérgico, semelhantes às de doentes com doença celíaca (que têm diarreia e outros sintomas ao comerem algo contendo glúten), ou que manifestam sensibilidade especial ao glúten sem ser doença celíaca. O delírio anti glúten levou exploradores a etiquetar produtos que não têm glúten (farinhas de arroz, milho, mandioca, sumo de beterraba, leite ou atum) de isentas de glúten, como se tivessem sido sujeitos a extracção de glúten, isso para poderem vendê-los mais caros. Temos aí um exemplo de publicidade enganosa, a mesma da promoção do Calcitrin para o tratamento da osteoporose, como suplemento alimentar para escapar à legislação de controlo farmacêutico (não se vende em farmácias). A propaganda do Calcitrin é feita por artistas famosas, mas ninguém esclarece que excesso de cálcio prejudica gravemente os rins e pode levar a lesões cardio-circulatórias. O mesmo tipo de publicidade incide sobre os antioxidantes, em sumos de frutos vermelhos, em cápsulas e outras formas. Aqui também, como são suplementos alimentares, a vigilância farmacêutica não pode actuar, embora se saiba que excesso de antioxidantes pode levar à diminuição da resistência a infecções, por o oxigénio e outros oxidantes sanguíneos serem necessários ao sistema imunitário para destruir os micróbios. Não há necessidade de antioxidantes quando, na nossa alimentação, ingerimos saladas, hortaliça ou frutos. É mesmo contraproducente o excesso de antioxidantes.

Num artigo recente falei da multa aplicada, de dezenas de milhões de dólares, pela FDA americana à empresa Danone por publicidade enganosa relativa a dois produtos: o yogurte Activia, cujos Bifidus, garante a empresa, regulam o trânsito intestinal, e os milhões de L. casei imunitas do Actimel protegem contra as constipações e gripes. Nos EUA deixaram de poder propagandear essas “virtudes”, mas nos países em que a legislação a esse respeito não existe ou não actua, a Danone continua a utilizar a mesma publicidade enganosa. São publicidades idênticas à bondade da banha de cobra.      

Relativamente aos cosméticos, as fraudes são do mesmo tipo e sujeitas à moda de momento, geralmente cosméticos hidratantes antirrugas. Em boa verdade até se pode fazer hidratantes em casa, juntando ao óleo, água. Por não se conseguir misturar água e óleo, há que utilizar um emulsionante. A habilidade dos artistas é utilizarem vários tipos de óleos e emulsionantes e vão variando os nomes e marcas.

Doenças e mal-estar que certas pessoas experimentam e atribuem a redes sem fio (wi-fi) e de alta tensão, são imaginárias, visto a radiação wi-fi, de telemóveis e alta tensão e mesmo dos aparelhos de micro-ondas (que só produzem calor) não serem ionizantes (não são raios gama, raios X ou ultravioletas) e por isso, de princípio, são bastante seguros, não prejudiciais à saúde, como nos garante a OMS após estudo aturado.

Uma fraude de ex-médico e ex-investigador inglês, A. Wakefield, que chegou a publicar na revista científica médica Lancet um estudo em que “demonstrou” que a vacina tríplice seria causa directa do autismo, provocou pânico e levou muitos pais a abandonar a vacinação dos filhos. Também se lançou a suspeita de que uma componente das vacinas que contém mercúrio (metal tóxico para o organismo), era causa do autismo. Afinal, o conservante, sal de mercúrio, é mínimo e foi substituído, há bastante tempo, por outro conservante. A situação agravou-se com um filme (Vaxxed) sobre o assunto interpretado pelo famoso actor Roberto de Niro, que tem um filho autista. Entrementes, veio a provar-se a fraude do ex-médico, que falseou o estudo publicado na Lancet, para receber a soma de 400.000 libras de um escritório de advogados que estava processando os laboratórios que fabricam vacinas, a pedido das famílias de autistas, por serem responsáveis pela doença das crianças. A suspensão da vacinação de algumas crianças teve consequências graves, visto terem surgido vários casos de doenças já praticamente erradicadas pela vacinação que provocaram algumas mortes.

Sobre os Organismos Geneticamente Modificados (OGM) publiquei recentemente artigo, revendo algumas noções. Também sobre os pesticidas e adubos químicos já nos pronunciámos, chamando a atenção para o perigo do uso de pesticidas baratos, que já não se utilizam nos países desenvolvidos, por serem muito tóxicos e conservarem essa actividade durante muitos anos, mas que se vendem nos países subdesenvolvidos, onde não há leis de vigilância e controlo desses produtos. Sobre os adubos químicos há que salientar o seu interesse por terem permitido produzir quatro vezes mais alimentos do que antes.

Parede, Janeiro de 2018                                                                    Arsénio Fermino de Pina

                                                                                                    (Pediatra e sócio honorário da Adeco)

Os comentários estão fechados.

Publicidades
© 2012 - 2018: Notícias do Norte | Todos os direitos reservados.