Nacos da história do tempo colonial

22/11/2017 02:27 - Modificado em 22/11/2017 02:27

                                         Entretenho-me a vasculhar a História e aprovo o que escreveu o nosso ex-Presidente da República, António Mascarenhas, na obra monumental do historiador patrício, João Nobre de Oliveira, A Imprensa Cabo-Verdiana, 1920-1975, de a História ser “um contributo valioso para o conhecimento da evolução da sociedade”. Esta obra deve ser lida por todos os cabo-verdianos e encantou-me conhecê-la por nos dar um retrato fiel dos nossos maiores, os bodonas da nossa intelligentsia, que os mais novos e menos jovens desconhecem (Sena Barcelos, Dr. Roberto Duarte Silva, Dr. José Júlio Dias, Senador Vera Cruz, Loff de Vasconcelos, Dr. Francisco Hopffer, Juvenal Cabral, Cónego Feixeira, Eugénio Tavares, Abílio Macedo, Pedro Cardoso, José Lopes da Silva, João Barbosa Vicente, Sérvulo Medina, Dr. Martinho Nobre de Melo antes de se comprometer com o regime salazarista, Dr. Adriano Duarte Silva, Dr. Baltasar Lopes, Dr. Aurélio Gonçalves, Jorge Barbosa, etc.) nos fins do século XIX e início do século XX na luta em defesa da nossa terra, para a solução do sofrimento e condição do nosso povo, valorizando a sua resistência e grandeza. Bastas vezes, tanto esses pré-claridosos como claridosos foram mal interpretados e julgados, por desconhecimento da sua luta, têmpera e caracter e dos condicionalismos da época em que viveram; não se pode julgar as pessoas e os factos do passado como se passassem na actualidade, isto é, fora do contexto do seu tempo. Terem feito mais de acordo com o que agora pensamos, não era possível, e quando alguns tentaram fazê-lo, por exemplo, no tempo das mortandades por fomes de dezenas de milhares de patrícios sem que o Governo colonial se importasse, tão-somente por terem solicitado apoio dos nossos emigrantes nos EUA, foram presos e enviados para o Sul e a prisão do Tarrafal, construído em 1934 segundo o modelo do campo nazi de concentração de Dachau.

Hoje, pela minha condição de médico com valência sanitarista e infantil, vou falar-vos das condições higiénicas vividas nos finais do século XIX e princípios do séc. XX, o que nos dá uma ideia da vida em épocas recuadas em países mais civilizados, europeu e americano. Encontrei factos interessantes no livro do escritor Luís Ribeiro, Histórias do Tejo, em que fala das calhandreiras, o que me fez recordar o que conheci em S. Vicente na década de quarenta cinquenta, o chamado “esgoto aéreo”, levado a cabo por mulheres que transportavam latas com dejectos, à noite, para vazar no Caizim, e das partidas que a miudagem lhes pregava com fios segurados, uma criança de cada lado da rua, à altura das latas, levando à queda destas no meio da rua. Nas outras ilhas, tanto em vilas como a nível do campo, havia as chamadas “casinhas” para a satisfação das necessidades fisiológicas prementes e banhos, e em muito pucos lugares casas de banho com fossa, como encontrei no Mindelo e Praia, num pequeno núcleo da parte central citadina, nas ilhas Brava e Fogo, de existência mais antiga, por influência dos nossos emigrantes regressados dos Estados Unidos, que construíam residências modernas com belas casas de banho.

Em Lisboa, antes de haver saneamento básico, para limpar a suja e malcheirosa capital, instituíram-se as calhandreiras, escravas africanas que iam, de casa em casa, recolher as imundices e despejá-las no Tejo, obrigatoriamente entre o Cais do Sodré e Santos, badalando uma campainha que traziam para anunciar a sua chegada. As escravas levavam à cabeça uns enormes cestos de vime com tampa que serviam de esconderijo aos grandes potes para onde esvaziavam os bacios das casas. Esses potes tinham o nome de calhandras; daí o nome da profissão. Em 1550 viviam em Lisboa cerca de 10.000 escravos, equivalente a 10% da população. Com a eliminação da escravatura esses escravos diluíram-se na população.

Isso acontecia em Lisboa na época áurea dos descobrimentos. No início do século XV, Lisboa estrebuchava com tal falta de higiene que a situação descambava para um grave problema de saúde pública, propício para o alastramento de todo o tipo de epidemias. As pessoas viviam entre galinhas, porcos, vacas, cabras e carneiros, sem tomarem banho nem terem qualquer noção da importância da higiene e da existência de micróbios. Despejavam os bacios onde calhava, muitas vezes das janelas para a rua, avisando -“lá vai água” – ou faziam as necessidades directamente na rua. Somente por altura de festas religiosas e procissões é que as autoridades municipais mandavam limpar as ruas, com o contributo solidário da Igreja para aliviar a situação; historicamente, os líderes cristãos defendiam que o baptismo era o único banho que o homem devia tomar em toda a vida; estando pura a alma cristã, era tudo quanto bastava; pouca importância se dava à higiene do corpo, e os perfumes ajudavam a camuflar os maus cheiros, persistindo, no entanto, no chamado ultramar, sob a forma de trabalhos forçados dos indígenas na construção de estradas, pontes e outras obras.

Em 1550 não havia, em Lisboa, mais do que quatro ”homens que limpavam as ruas”, para uma população superior a cem mil habitantes. A solução chegaria com a lucrativa receita dos descobrimentos: a escravatura. Esta só terminaria, em Portugal, no final do século XVIII, por decreto do Marquês de Pombal, porém persistindo nas colónias. E, mesmo em Portugal continental, a lei não foi imediatamente aplicada; somente em 1876 a escravatura terminou de vez.

Toda essa situação de falta de saneamento e de cuidados higiénicos públicos e privados prolongaram-se por séculos; muito tardiamente se foi resolvendo, tanto em Portugal como noutros países europeus; o fabuloso Palácio de Versailles, em Paris, por exemplo, apesar do seu luxo, foi construído sem casas de banho nem retretes.

Vindo de Moçambique, onde beneficiava de todos os requisitos da modernidade no capítulo do saneamento e higiene a nível público e privado, para estudar em Lisboa, morei num quarto com o meu irmão Viriato, na Rua da Imprensa Nacional, portanto, no centro de Lisboa. Para o primeiro banho, informou-me o irmão de que teria de avisar a dona da casa, sem mais me precisar. Imaginei, pela necessidade do aviso prévio, que seria banho com sais. Afinal o banho era em tina num pequeno quarto interior; a retrete era improvisada numa varanda na parte posterior do prédio, prova de que, inicialmente, a casa não dispunha disso, embora não fosse muito antiga, igual às da maioria das casas lisboetas e do resto do país.

As condições e práticas actuais, tanto na Europa como entre nós, confirmam-nos a evolução do saneamento geral e da higiene pessoal, isso graças aos avanços da Ciência e da Tecnologia que, entrementes, se desembaraçaram da Teologia, dado que o crescimento científico desenvolve-se quando se separa do religioso. Daí o atraso dos árabes, que se regem por algo copiado do Levítico do Velho Testamento. Nas descobertas científicas de outrora dos muçulmanos no domínio da Álgebra, do Algorítmo e da Óptica, a religião não interferia no trabalho dos sábios nem dos filósofos. Infelizmente, a faceta dogmática religiosa instalou-se a partir do século XIII, prevalecendo, até à data, o dogma religioso sobre a ciência, o que explica o obscurantismo e as barbaridades cometidas pelos extremistas islamitas.

Parede, Novembro de 2017

 

 

 

(Pediatra e sócio honorário da Adeco)

 

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