MC Godel : “ entregar-me à música sem pressão do mercado”

3/11/2017 00:57 - Modificado em 3/11/2017 00:57
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Filho da ilha das montanhas, da pacata cidade do Porto Novo, Zona do Bairro, surge MC Godel, que utiliza a sua paixão pela música, o Rap, como forma de intervenção nos problemas sociais que assolam a cidade e a ilha que o viu nascer. Males que faz questão de traduzir nas suas letras.

Diz que a principal característica como rapper é a legítima linguagem de Santo Antão que traz nas suas músicas e que ajuda a abranger um público mais diferenciado desde crianças até aos mais velhos.

Para comprovar isso, em Julho de 2016, este jovem artista, de nome próprio Daniel Neves, lança no Porto Novo o seu primeiro trabalho discográfico, EP intitulado “Assalt Mental”. Um trabalho que traz as vivências do dia-a-dia do país, com um toque abstracto e escuro.

Com 25 anos, divide a sua paixão em dois, tanto pelo rap como pelo mar. A sintonia entre ambos é aquilo que faz da sua vida o melhor.

Confira a entrevista:

Notícias do Norte – Quem é MC Godel? E qual a razão do nome Godel?

MC Godel – Esta alcunha surgiu pela boca de um filho de um vizinho que na época tinha apenas 4 anos e eu 13 anos. Ele não conseguia pronunciar Daniel e, só conseguia dizer Godel, e os vizinhos logo adoptaram esse nome até hoje. Para mim, esse nome significa raiz da minha zona e dos meus próximos.

NN – O que inspira as suas letras?

MC Godel – As mensagens que trago na minha música são a realidade que vivemos no nosso quotidiano, problemas sociais que, por vezes, têm mais que um culpado, mas sempre é a maioria que sofre com eles, além de expor as minhas opiniões sobre o meu ponto de vista usando a liberdade de expressão que é um direito valioso muito pouco usado no nosso país.

NN – Como foi fazer o EP “Assalt Mental”, o que pode falar dessa obra?

MC Godel – Este trabalho discográfico, composto por sete faixas musicais, foi fruto de 10 anos de pesquisas e de vivências do universo da música RAP. Foi um processo de levantamento de arquivos escritos de alguns anos, foi um processo selectivo pelo facto de ter sido o meu primeiro lançamento desde há 7 anos sem dar a cara num palco que na época era uma das formas encontradas para a divulgação do trabalho.

A divulgação, tendo em conta as possibilidades, tem sido boa. Já a aceitação tem sido boa e rápida porque eu represento o povo e uso uma linguagem bem compreensível e legítima.

Essa aceitação representa agradecimento e inspiração para que venham mais trabalhos.

NN – Se pudesse definir este álbum numa frase, qual seria?

MC Godel – Numa palavra: NÓIS.

NN – Como tem sido a sua carreira?

MC Godel – Tem sido uma experiência que exige atenção, dedicação e investimento para alcançar os objectivos, tem sido boa devido ao esforço aplicado nela sabendo que em Cabo Verde temos muita carência em termos de promoção de música e de artistas, principalmente, música que traz a realidade na qual vivemos (rap).

NN – O que o levou à escolha do género rap?

MC Godel – O ritmo Rap foi o primeiro em que me identifiquei e gostei e ouvindo o rap nacional percebi que era mesmo uma cultura expressiva que me fazia sentir em casa.

NN – Conte um pouco sobre a sua trajectória, desde que descobriu o rap e começou a escrever os primeiro versos até agora.

MC Godel – Desde que conheci o rap muita coisa mudou sobre a forma de pensar e de julgar os factos, mas só depois de algum tempo é que comecei a colocar algumas frases no papel. Na época, com a influência do que ouvia, eram bastante agressivas e uniformes, mas em pouco tempo vi a responsabilidade que era preciso ter nas letras e comecei a ter mais atenção nas mensagens e com poucas condições de apoio, só consegui gravar 3 ou 4 músicas com o meu grupo Bola de Fogo, que teve de se ocultar do cenário por alguns anos devido à viagem de 2 membros do grupo. Fiquei só no meio de dificuldades e preconceitos pelo estilo na época, mas em 2015 decidi que já era hora de apresentar ao público as minhas ideias e então comecei a trabalhar no EP Assalt Mental que veio a sair em Julho de 2016.

NN – O que o motiva como artista?

MC Godel – O que me motiva é esperança que tenho e que o público tem colocado em mim durante este tempo. As pessoas próximas de mim apoiam-me, para além dos fãs seguidores que acreditam em mim.

NN – Quais são as suas influências na música?

MC Godel – As minhas influências na música não mudaram muito: é o rap crioulo e algum rap da lusofonia, nomeadamente Racionais MCs, Expavi, Azagaia, Jó Muhamad, MC Seiva e Valete.

NN – Diz que tem no forno um novo trabalho, tem ideia de quando será lançado? O que irá adicionar à sua carreira?

MC Godel – Já tenho um trabalho nos meus planos, mas não tenho ideia de quando será apresentado ao público porque irá ser um trabalho maior e objectivo do que o actual, na intenção de superar e trazer ao povo e aos fãs algo de preciso, que é o que eles esperam de mim, e esforçar-me-ei para que esse próximo seja aceite com muita compreensão e emoção.

NN – Quais são os seus planos para o futuro?

MC Godel – Os planos para o futuro são continuar a investir e entregar-me à música sem pressão do mercado, porque é uma música de grande responsabilidade, exige tempo, atenção, dedicação e pensamentos livres e objectivos.

NN – Como vê o panorama musical em Cabo Verde, principalmente para os rappers? E no Porto Novo?

MC Godel – O panorama da música em Cabo Verde é fraco e dividido. Mesmo tendo talento e dedicação são poucos os que vivem exclusivamente da música, mas já se notam algumas diferenças ao longo dos anos em que tínhamos muita dificuldade, inclusive no Rap.

No Porto Novo já há alguns rappers com responsabilidade no próprio trabalho e isso é importante para que possam ter retorno emocional e material, mas também há bastante carência de ambiente para a produção (estúdio) e de promoção, nomeadamente, a Câmara Municipal que não promove esse estilo rap.

Outras paixões.

A minha paixão é tanta pelo rap como pelo bodyboard. Adoro o mar e só de o ver já é um passatempo, ouvindo o rap, então, melhor ainda. Pratico o bodyboard, faço caminhadas e alguns trabalhos sociais e ecológicos quando é a época da desova das tartarugas marinhas, além de praticar o snorkeling.

 

 

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