Val Xalino “é uma miséria o que está a acontecer na música de Cabo Verde!”

2/11/2017 00:09 - Modificado em 2/11/2017 00:10

Esta é uma preocupação que Val Xalino carrega como cabo-verdiano e músico depois de andar pelo mundo. Já esteve em mais de noventa países depois de ter deixado Cabo Verde nos anos 70 do século passado. Com a sapiência de quem escreve e lê a música, Xalino é categórico. “Houve transformação na música de Cabo Verde, mas evolução não!”.

Valdemiro Silva, de seu nome próprio, mais conhecido no meio musical e entre os mais próximos como Val Xalino, herdou a alcunha Xalino do avô do pai Armando João, um português que nas ilhas, onde quer que chegasse, só bebia chá e ficou conhecido por Xalino.

Val encontrou a música em casa e, ainda criança, passava boa parte do tempo vendo os mais velhos a tocar e prestando atenção. Foi aprendendo alguma coisa de violão, conhecimento que aprimorou rapidamente porque era sempre corrigido pelos mais velhos.

Menino nascido na Zona de Djidssal, aos quinze anos já estava focado no que queria da vida. Ainda a estudar no Liceu Velho, à noite e três vezes por semana, ia para as aulas de Cabotagem para obter uma cédula marítima, porque via no mar a única saída para fugir da guerra em Angola. Quando saía à noite, dizia à mãe, Maria Clara Fortes, Nha Biinha, que ia para ensaio de música.

Conseguida a cédula, inscreveu-se na Capitania dos Portos e ficou à espera da sorte para que fosse embarcar num vapor qualquer. Aos dezassete anos foi chamado para se pôr a bordo de um navio grego. Na bagagem levou  algumas roupas, um violão “mariadinho” como diz e que carinhosamente chamava de “Beleza”, não por afinidade ao músico autor da morna “Eclipse” e outras, mas pela leveza espiritual que sentia quando nele fazia alguns acordes.

Com ele embarcou também a imagem da mãe que levou as mãos à cabeça quando lhe disse que foi chamado para um vapor grego. Passado o susto, a mãe disse-lhe “faz o que achares melhor!”.

“No início foi muito duro”, contou ao Notícias do Norte. Doze horas diárias de trabalho entre chuva e vento, dias sem comer, mas a vontade de vencer era maior que as provações da vida.

Após  sete anos de vida de marinheiro, sabia que se ia fixar num país e sonhava com o Brasil. Depois de andar pelo mundo, então marinheiro numa embarcação sueca, decidiu aventurar-se na terra firme e fixou residência na Suécia onde passou a viver da música por ironia do destino, após ter sido descoberto por B. B King, um grande cantor de blues, na altura famoso em Gotemburgo, a segunda cidade da Suécia.

O convite surgiu por acaso, num dia em que estava numa casa de música a treinar alguns solos. Quando pensou que ia levar um raspanete por estar naquela casa, foi convidado no momento a integrar um grupo de blues que precisava de um guitarrista e foi tocar juntamente com King Djoje, um artista americano que antes tocara com Jimmy Hendrix.

Depois de dois anos em tournée pela Escandinávia, resolveu parar porque não suportava o álcool e o tabaco abundantes nas salas por onde tocavam. Aproveitou a paragem para aprender solfejo, a tocar piano, enquanto trabalhava numa fábrica de peças da marca Volvo.

Val Xalino então constituiu família ao se casar com uma professora universitária que o incentivou a estudar e, três anos após, apercebeu-se que se tinha formado como educador social.

Porque na altura, o Estado estava a apostar em técnicos com conhecimento de outras culturas para transmitir à juventude. Logo começou a trabalhar como pedagogo com jovens, utilizando a música para os reintegrar, realizando um sonho de criança do qual há muito havia desistido. Ser Professor!

Hoje Val Xalino é reformado, pai de dois filhos, lançou dois discos de vinil nos anos oitenta, tem no mercado seis CD desta era digital sendo o último “Ness caminhada”, editado este ano. Um trabalho de originais da sua autoria e do filho Roberto Xalino, com a excepção da faixa dez, “Ina” da autoria de Djô D’Eloi. Agora, vive o sonho de poder integrar um projecto que o faça andar por estas Ilhas tocando, cantando e contando a estória desta Terra aos deficientes e às camadas mais desfavorecidas.

Carlos Flôr

  1. Maria José

    Bonita história e um bom recado para os jovens. Palmas para Vale Xalino.

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