Procura-se. Onde estão eles? Simplesmente sumiram!

17/10/2017 23:59 - Modificado em 17/10/2017 23:59

Devido a actualidade do tema voltamos a publicar este artigo que foi publicado em 2014. As situações mantém-se.  Os resultados das buscas de desaparecidos em São Vicente são nulos .

Desapareceram. Simplesmente sumiram e nunca mais se soube nada dessas pessoas. Nem uma explicação. Entres estes casos estão duas crianças: Willy que desapareceu há 14 anos e Yasmira há 17 anos. Kuvic está desaparecido desde o dia 28 de Março de 2008. Recentemente, Lutcha saiu para ir ao cabeleireiro e nunca mais voltou. Alfredo Bandeira de 49 anos, morador na localidade de Salamansa, São Vicente, fazia parte da tripulação do navio de carga Rotterdam que desapareceu das águas de Cabo Verde quando seguia viagem para a ilha da Boa Vista. DjackDjunuta era cozinheiro no navio TerryTres: pura e simplesmente desapareceu do navio que estava numa ilha deserta. Onde estão? Vivos ou mortos? Ninguém sabe de nada, apenas o drama dos familiares que choram uma dor que “desatina sem doer”. Mas que dá forças para ir buscar a tal fé que move montanhas e acreditar que podem estar vivos e que um dia hão-de voltar.

 

Willy: Rapto? Venda? Onde está o rapaz?

Willy desapareceu há onze anos. O menino, que na altura tinha seis anos, sumiu sem deixar rastos. A PJ que tomou conta do caso nunca encontrou pistas do garoto. E a sociedade nunca entendeu como é que uma criança pôde desaparecer de uma ilha sem deixar rastos e muito menos o silêncio das autoridades. O certo é que o silêncio caiu sobre Willy e a pergunta ficou sem resposta: onde está o Willy?

Há onze anos que Jacinto Mariano vive um drama que não se apaga da sua memória: o desaparecimento do seu filho, William Mariano, conhecido por “Willy”. Jacinto salienta que o desaparecimento de “Willy” continua a ser um mistério e defende que o filho foi raptado mas que a PJ arquivou o caso sem realizar qualquer investigação.

No dia 4 de Março de 2002, Jacinto Mariano recebeu a notícia de que o seu filho William Mariano, de seis anos, tinha desaparecido na zona de Chã D´Alecrim, ilha de São Vicente quando brincava com um grupo de crianças. Mariano realizou diligências para encontrar a criança mas não conseguiu descobrir o seu paradeiro, por isso, denunciou o caso à Polícia Judiciária.
Jacinto diz não entender a razão que levou ao desaparecimento do filho: “o meu filho vivia com a mãe na Ribeirinha e eu ia visitá-lo à casa da minha ex-companheira. Só que num fim-de-semana levaram-no para o bairro de Ribeira Funda, em Chã D´Alecrim. Ele saiu à rua para brincar e foi raptado por alguém; agora não entendo porque levaram o Willy e as outras crianças ficaram, talvez porque ele era desconhecido nesse local”.
O entrevistado sublinha que efectuou buscas em vários bairros da ilha e que ao encontrar dificuldades para descobrir o paradeiro do filho, dirigiu-se à Polícia Judiciária para solicitar meios para que fosse realizada uma investigação.
Mas Jacinto Mariano afirma que com o passar dos dias, a PJ meteu o caso do desaparecimento de William nos arquivos. “Vivo um drama porque raptaram o meu filho e estou há 11 anos à espera que a Polícia Judiciária me diga qual foi o resultado da averiguação que fizeram à volta do desaparecimento do meu filho. É certo que até hoje ele continua desaparecido e a PJ nada fez”.

Yasmira: Desaparecida há 14 anos

Yasmira, conhecida por Mamila, desapareceu no dia 1 de Janeiro de 2000. Teresa, a mãe de Mamila, acredita que a filha foi raptada. Como a esperança é a última a morrer, ela tem a certeza que Mamila está viva, mas fora de Cabo Verde.

Teresa acredita que a filha vai voltar. Enquanto espera para reabraçar a filha, Teresa chora, mas sonha com a filha vestida de branco, no reencontro onde as duas se abraçarão. Um abraço que espera há catorze anos. A mãe de Mamila afirma que ela foi a primeira a desaparecer, um mês e quinze dias antes de Willy.
Mamila desapareceu a 1 de Janeiro de 2000 quando foi à Ribeirinha dar um recado em casa das tias, mas não regressou a casa da mãe. Teresa conta que Mamila e a sua irmã encontraram-se e caminharam juntas por pouco tempo: “ela e a minha outra filha Suzana encontraram-se na estrada e vieram juntas um bocadinho”. Suzana seguiu o caminho para a morada e Yasmira entrou para Vila Nova para ir para casa, “entrou na rua de Joãozinho Manco” e, a partir dali nunca mais a viram e Teresa afirma que dali, faltava pouco caminho para ela chegar a casa.
Quando as tias de Mamila e o filho mais pequeno de Teresa chegaram em Vila Nova, ficaram a saber que a filha tinha desaparecido. “Eu perguntei-lhes onde está a Mamila e elas responderam logo que ela tinha dado o recado e voltado para casa”. Teresa começou logo a chorar, iniciaram as buscar pela zona de Vila Nova, juntamente com os vizinhos e familiares.
Depois das buscas sem sucesso, a mãe de Mamila foi à rádio Nova e à Polícia Judiciária. Na Judiciária, Teresa foi informada que como estavam em tempo de festa, Mamila era capaz de estar nalgum lugar e que depois voltaria para casa. Conta Teresa argumentando que os filhos não costumavam sair de casa sem ela saber e muito menos não saber a hora que voltavam: “é casa escola, escola casa”.
Mesmo com uma pessoa desaparecida, a Polícia Judiciária não apareceu e no quarto dia, Teresa, a filha Nita e alguns vizinhos foram à Polícia Judiciária, andaram por todas as ruas do Mindelo, praias de mar e poços mas nunca encontraram Mamila.
Como a esperança é a última a morrer, Teresa tem vontade de encontrar a filha um dia. Questionada se já foi a um curandeiro, a mãe de Mamila afirma: “nunca fui porque não acredito nessas coisas. As pessoas dão esperança e consolo”, mas espera não morrer sem encontrar a filha.
Teresa sonha que “ela está num bonito campo de flores. Sonhei com ela bonita, onde um grupo de pessoas confessavam que a tinham apanhado” e ainda sonha com a filha vestida de branco: “todos os dias sonho com a minha filha e levanto-me e sento-me na cama e respondo à minha filha”, mas sempre desaparece nos sonhos.
Com muita fé, todos os anos quando Mamila faz anos, Teresa faz comida para dar às crianças. E no dia do seu desaparecimento, Teresa sente-se mal e tem de ser internada no hospital.

O coração de mãe diz que a filha está viva e Teresa acredita que a filha foi levada para fora do país, “acho que não a deixaram em Cabo Verde”. Para ela, a pessoa que fez isso deveria ter-lhe dito que gostou da filha e que gostaria de a levar para fora do país. Ela tê-la-ia dado para que pudesse ter uma vida melhor.

 

Desapareceu há seis anos: O que aconteceu a Kuvic?

Um homem de 54 anos, conhecido por Kuvic está desaparecido desde o dia 28 de Março de 2008. Saiu de casa por volta das 9 horas e nunca mais regressou.

De acordo com uma amiga, Kuvic foi visto no comício de encerramento da campanha de Isaura Gomes para as eleições autárquicas de 2008. Chia revela que ele tinha sido simpatizante ferrenho do PAICV, mas que estava a apoiar o MpD levando pessoas a votar nesse partido, porque tinham-lhe oferecido um espaço no Mercado Municipal para montar um negócio.
Julinha, a mulher de Kuvic, diz que ouviu o marido falar desse espaço que lhe iriam conceder, mas não levou o assunto a sério e não acredita que isso tenha alguma coisa a ver com o seu desaparecimento.

Kuvic saiu com a “roupa que tinha no corpo”

De acordo com a mulher, “ele chegou quase de manhã em casa, o que não era seu hábito, estava embriagado, deitou-se e dormiu”. Julinha afirma que não viu o marido sair de casa no dia 28 de Março. Mas sabe que ele não levou os documentos, nem tão pouco as roupas ou outros pertences. Apenas saiu, como fazia todos os dias. O certo é que Kuvic nunca mais foi visto e já lá vão seis anos.
Chia afirma que muitos amigos emigrantes diziam-lhe que Kuvic estava vivo e que estava em Espanha. Um deles prometeu, na próxima viajem, trazer uma foto dele e do Kuvic, mas o mensageiro não voltou porque… morreu e o mistério do desaparecimento de Kuvic continua.

Desaparecimento de Lutcha: Muitas dúvidas e poucas certezas

Maria de Lourdes, de 40 anos, conhecida por “Lutcha” continua desaparecida desde o dia 16 de Dezembro de 2013. Volvidos seis meses sobre o seu desaparecimento, só resta a angústia que consome os familiares.

Maria de Lourdes vivia na localidade de Cruz João Évora, São Vicente, com o marido e quatro filhos. A cidadã que sofre de problemas de depressão saiu de casa para arranjar o cabelo num salão de beleza em Monte Sossego. Porém, até hoje, “Lutcha” não chegou a casa, situação que levou a família ao desespero. Segundo o companheiro de “Lutcha”, Moisés Andrade, esta saiu de casa por volta das 14:30h, rumo à zona de Monte Sossego para procurar os serviços de uma cabeleireira. Ao sair de casa, Maria de Lourdes não apresentou sinais de que sofria de algum problema, pelo contrário, “deixou a residência da família de forma descontraída e entusiasmada”.

É que Maria de Lourdes “simplesmente desapareceu sem deixar rastos. Ninguém sabe por onde anda esta cidadã que deixou quatro filhos, de entre eles, um bebé de um ano que ficou sob a guarda do marido, Moisés Andrade”.
Nesse período surgiram informações sobre o seu paradeiro, mas que no final vieram a ser confirmadas pelas autoridades e familiares como “boatos”. A família foi mantendo a esperança de encontrar Maria de Lourdes, mas com o passar dos dias, dos meses a esperança foi-se desvanecendo.
O que aconteceu ao tripulante do cargueiro Terry Tres?
Depois de realizarem buscas na ilha de Santa Luzia, as autoridades marítimas e a agência Polar não encontraram qualquer vestígio do corpo do tripulante Jorge “DjackDjunuta” dos Santos. De acordo com os familiares, volvidos cerca de seis meses, as esperanças de encontrar o cidadão que trabalhava como cozinheiro no navio TerryTres desvaneceram. Sem vestígios do corpo no mar ou na zona costeira, a angústia apropriou-se da família que, em caso de confirmação da morte, esperava resgatar o corpo do tripulante para realizar o funeral.

O desaparecimento de Jorge dos Santos ocorreu no dia 26 de Dezembro de 2013 quando o cidadão trabalhava a bordo do TerryTres, navio encalhado em Santa Luzia. Volvidos seis meses, o paradeiro do tripulante continua a ser um mistério. Morador na localidade de Alto Miramar, “DjackDjunuta” de 49 anos fazia parte da tripulação de segurança que a agência Polar colocou a bordo da embarcação que se encontra encalhada na Praia Francisca.
Segundo as autoridades, “sendo a ilha de Santa Luzia tão pequena, foi revistada de uma ponta à outra, sem que houvessem sinais de Jorge. A hipótese de ter saído não tem cabimento porque não tinha meios para o fazer”. O certo é que o corpo nunca foi encontrado, tendo sido realizadas todas as operações de busca para esclarecer o desaparecimento do tripulante.

 

  1. Clara Medina

    Para além das fracas possibilidades técnicas e humanas de investigação da Polícia Judiciária falta na cultura cabo-verdiana a mentalidade de colaborar com a Polícia como acontece em outras sociedades mais evoluídas.
    Os vizinhos são um factor muito importante na investigação pois é simplesmente um pequeno detalhe suficiente para esclarecer a verdade sobre o crime.
    Mas os vizinhos em Cabo Verde mesmo tendo uma suspeita e mesmo podendo fazer uma denúncia anonimamente preferem manter o silêncio.
    Também outro incentivo e que o Ministério Público devia criar é premiar financeiramente denúncias que conduzem ao sucesso da investigação.

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