Japonesa morreu após um mês com duas folgas e 159 horas de trabalho extra

6/10/2017 01:24 - Modificado em 6/10/2017 01:24
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Repórter da NHK, a empresa pública de radiodifusão japonesa, Miwa Sado cobria em Julho de 2013 as eleições da assembleia de Tóquio e as eleições nacionais para a câmara alta do Parlamento japonês. Três dias após o plebiscito para o órgão governamental japonês, que se deu a 21 de Julho de 2013, a jornalista de política morreu. No mês anterior à sua morte, a jovem de 31 anos tinha tirado apenas duas folgas, além de ter trabalhado 159 horas a mais. A notícia da sua morte só se tornou pública no Japão esta semana, quando a agência de notícias japonesa Kyodo News divulgou o caso na quarta-feira.

Segundo um artigo de 1997 publicado na revista International Journal of Health Services, o primeiro caso identificado de morte por excesso de trabalho no Japão deu-se em 1969: um trabalhador do departamento de entrega de um jornal, casado, de 29 anos, morreu de ataque cardíaco. Na década seguinte, o número de casos semelhantes foi suficientemente alto para se criar uma palavra japonesa que significa “morte por excesso de trabalho” – “karoshi”. No final da década de 1980, esta palavra já era usual na sociedade japonesa.

Karoshi não é um termo puramente médico mas um termo médico-social que se refere a fatalidades ou à incapacidade de trabalho devido a um ataque cardiovascular (que pode ser um acidente vascular cerebral, um enfarte do miocárdio ou uma falha cardíaca) agravado por uma carga de trabalhado excessiva ou por muitas horas de trabalho”, explica a Organização Internacional do Trabalho (OIT).

“O fenómeno foi identificado primeiro no Japão, e a palavra foi adoptada internacionalmente. (…) O karoshi tornou-se num problema social importante no Japão”, adianta o artigo da OIT de Abril de 2013, que dá ainda números sobre o fenómeno naquele país. Nos últimos anos da década de 1990, os casos de karoshi situavam-se entre os 40 e os 60 por ano. Mas em 2002, o número subiu a pique para 160, ficando sempre acima dos 140 até 2008. Nos anos seguintes desceu, ficando entre os 100 e os 120. É difícil identificar o excesso de trabalho como a causa de morte de alguém, por isso é possível que os verdadeiros números anuais de karoshi estejam bastante acima do que é oficialmente registado.

O jornal britânico The Guardian explicava que um caso de suicídio de uma mulher em 2015, associado a excesso de trabalho, obrigou o primeiro-ministro japonês, Shinzo Abe, a discutir a cultura de trabalho nipónica que, muitas vezes, obriga os empregados a fazerem horas extraordinárias para demonstrar dedicação à empresa, “mesmo que haja poucas provas que isto melhore a produtividade”, escreve o jornal britânico.

A recuperação económica do Japão, após a crise económica da década de 1990, terá sido feita também às custas de trabalhadores que ficaram sem tempo para a família, para os amigos, para os hobbies: para uma vida além do escritório. Segundo o Governo japonês, um em cada cinco trabalhadores está em risco de karoshi.

Para a NHK, a morte de Sado reflecte “um problema para a nossa organização como um todo, incluindo o sistema de trabalho e como as eleições foram cobertas”, disse Masahiko Yamauchi, um responsável sénior da empresa pública, citado pela Kyodo News. A divulgação da sua morte só foi feita agora, quatro anos depois, por respeito à sua família, acrescentou o responsável.

“Mesmo hoje continuamos sem acreditar que a morte da nossa filha seja real”, disseram os pais de Sado, num comunicado publicado pela NHK, pedindo uma mudança na situação do trabalho no país: “Esperamos que a tristeza de uma família mergulhada no luto não seja desperdiçada.

 

In Publico

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