POST :  DA BAZOFARIA À UTOPIA, E VICE-VERSA

1/08/2017 02:00 - Modificado em 1/08/2017 02:00
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O antigo jornalista  e companheiros de armas  Tozé Barbosa, que nos idos  dos anos 80 teorizou  sobre o nacional – porreirismo inventado e alimentado por Pedro Pires e  companhia ilimitada , volta a meter o pau nos nacional –porreiristas  que querem manter a TACV  a voar  sem apresentar  uma solução que não seja  ideológica com base na bazofaria  e utopia , Barbosa passa com mestria pela história  da administração da TACV , Apresenta números  e estratégias seguidas  e deixa claro que no caso desse sorvedouro de recursos publico foram-se os anéis e sequer se consegui safar os dedos .

Eduino Santos

 

 

DA BAZOFARIA À UTOPIA, E VICE-VERSA

Na ordem do dia, a manifestação do Movimento “Vamos todos defender a nossa TACV – Orgulho Nacional” – palavra de ordem dos organizadores e seus incondicionais apoiantes.

Mas, tentemos compreender a causa das coisas. Na origem deste movimento resgatador há, naturalmente, vários factores, cada um com as suas razões, o seu peso e as suas conveniências.

Desde logo a compreensível incerteza e angústia de muitos trabalhadores quanto ao seu futuro. Mas também a menos compreensível reclamação de quem se viu subitamente desmamado das perversas conveniências do estado em que a coisa estava, abeirando os limites da delinquência politicamente sustentada.

E convenhamos. Estes últimos não podem alegar surpresa pelo desenlace fatal para as suas insaciáveis ambições. Sabiam ou deveriam imaginar que o tal tubinho (tubão) da ex-ministra das Finanças não poderia continuar a irrigar as contas de uns poucos que tão bem se fizeram pagar pelos maus serviços que prestaram.

A isto se junta o factor ideológico, renitente em entender que o Estado, incompetente, irresponsável e relapso, por causa das mais espúrias interferências, deve deixar de ser o dono da TACV.

Factor ideológico que, na falta de razões pragmáticas e racionais, se assume como elemento catalisador de uma notável disposição combativa e contestatária que constitui um estado de espírito que anda muito exaltado nestes dias em que se discute, não sei bem se o Estado ou o mau estado da Nação.

Esse mesmo factor ideológico que, por sua vez, é sustentado e vitaminado pela repetida celebração da bandeira da Companhia, orgulho de toda a Nação a cruzar os céus de vários continentes.

Aproximando e afastando a Diáspora que, fiel à refinada ingratidão do cabo-verdiano, nunca esteve um único dia sem barafustar, e até insultar, contra os maus serviços e os preços de exploração.

Face a esta realidade indesmentível, trata-se de uma celebração de orgulho tão desafinada e contraditória que só é compreensível considerando o feitiço da realidade virtual ou aumentada, inventada em Cabo Verde muito antes dos programadores informáticos o terem feito para aprisionar as pessoas ao ecrã de um telemóvel.

Como se não houvesse amanhã, como se não houvesse mais mundo. Mas, a verdade é que há muitos amanhãs, uns que cantam, outros que choram, podemos ter certeza.

E sobretudo muito mais mundo para além do pequeno mundo da TACV, visto pelas lentas embaciadas das disputas partidárias que transformam o óptimo em péssimo, ou vice-versa, por via de um simples discurso que nem sequer precisa de justificar suas razões.

E foi assim, depois de tantos abalos nas suas estruturas, que a TACV desabou com estrondo e sem conserto, sensivelmente entre os idos de 2014 a 2015.

Neste curto período, a TACV vendeu UM ATR42-500, DOIS ATR72-500 e UM Boeing 737-800. Vendas rápidas e eficazes, bonificadas com a entrega à ASA dos equipamentos de assistência aeroportuária por conta do pagamento de dívidas acumuladas.

Como se costuma dizer, foram-se os anéis… Mas, os dedos nem por isso se salvaram. A situação continuou tão complicada que a Companhia teve de reduzir linhas e frequências e adoptar medidas de contenção de danos. Contenção de danos?

De facto, não se compreende como é que uma Administração, que apostou tão fortemente na gestão danosa, tivesse resolvido, de repente, alterar a sua orientação estratégica, ou seja, tomar medidas de contenção de danos quando os danos é que eram o objectivo.

Em todo o caso, quanto aos prejuízos a meta foi cumprida e ultrapassada. Atingiu uns bárbaros 3.44 milhões de contos, devidos em grande parte à eficácia na redução dos resultados operacionais em 2.7 milhões de contos, ou seja, um desempenho na ordem dos 213% para baixo, claro está.

Apesar, ou por causa disso, a TACV conseguiu alcançar resultados extraordinariamente notáveis e muito acima do desempenho médio das mais capacitadas companhias aéreas internacionais.

Difícil de conseguir, mas muito fácil de explicar. Operando no ramo de negócio do transporte aéreo – venda de passagens – a TACV procedeu a um inesperado retoque na sua missão. Foi assim que, para além de passagens, passou também a vender aviões e até equipamentos de handlling.

Com pleno êxito e sem equipa de venda num mercado tão disputado. Isto é obra! E só não reconhece quem não quer ver ou sempre foi contra a TACV.

E, diga-se de passagem, com o apoio activo ou passivo de todos os decisores políticos do país e de cada um de nós, cidadãos de fraco entendimento que mais facilmente se mobilizam para correr atrás da corneta de uma qualquer tabanca partidária do que para defender os interesses da cidadania e do País.

E agora, depois de compreendermos um pouco da coisa, será que podemos tentar compreender o espírito da própria coisa?

Como é que perante todas as situações conhecidas e com números de meter medo, haja gente a alimentar uma ideia tão desconchavada como a de “trazer de volta a nossa TACV”?

Como é que alguém se deixa levar pelo inebriante perfume de utopia que dá força à ideia de um resgate que tem tanto de anacrónico, como de irrealista?

Como é que as pessoas justificam perante si mesmas tanta basofaria em relação à nossa querida companhia quando não perdem uma única oportunidade de malhar nela sem respeito nem consideração?

Inconsciência? Fingimento? Cara de pau? Bazofaria sem noção do ridículo? Utopia de quem pensa que pode revogar a lei gravidade? Conveniência e conivência políticas? Laços comestíveis?

Mas, há o outro lado da moeda. Risco fiscal? Aumento de impostos para pagar as dívidas indevidamente contraídas? Desvio de recursos que poderiam atender a outros e melhores projectos de desenvolvimento? Boa gestão da coisa pública?

Nada disso. Afinal o que é que isso importa? O que é que isto tudo significa, comparando com o orgulho de termos a nossa companhia de bandeira?

A questão tem de colocar-se em outros termos. Mesmo sem frota, com mais encargos, com mais dívidas e sem dinheiro para encomendar mais estudos, (que saudades dos tempos em que se gastavam mais de 700 mil contos!) o certo é que a TACV é a nossa Companhia Bandeira, Orgulho Nacional, Património laboriosamente construído e repetidamente escaqueirado ao longo de muitos anos.

Por isso, nada de hesitações. Vamos defender, vamos trazer de volta a nossa TACV porque com a auto-estima do cabo-verdiano ninguém brinca. Entendeu ou é preciso desenhar?

Falei e disse, penso eu.
30/07/17

 

 

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