Nobel da Paz para a União Europeia: uma decisão “moral e política”

14/10/2012 22:33 - Modificado em 14/10/2012 22:33
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O Comité Nobel atribuiu o Prémio da Paz à União Europeia pelo seu papel na promoção da unidade e da reconciliação. Mas foi um histórico e emocionado Jacques Delors, antigo presidente da Comissão Europeia, quem melhor entendeu a decisão — é um prémio moral e político.

 

O prémio da Paz distingue “a pessoa que tiver feito mais ou melhor pela união entre nações, abolição ou redução de exércitos e pela promoção da paz”, como deixou escrito Alfred Nobel. Já foi atribuído a 124 indivíduos ou organizações, sempre pelo que fizeram, por um trabalho passado. Este ano, porém, as justificações oficiais apontam também para o futuro. E a leitura que Delors fez do texto do Comité Nobel é certeira.

 

“É um prémio moral no sentido em que saúda os países que, reconhecendo a sua atitude do passado, fizeram a paz entre eles. É um prémio político porque surge num momento em que há muitas críticas, muitas estatísticas, prognósticos desfavoráveis à UE”, disse. Apesar de os últimos anos terem sido extremamente difíceis — prosseguiu Delors —, o prémio mostra que “os valores da solidariedade e da confiança podem ajudar a fazer um mundo melhor”.

 

Ou seja, o Comité Nobel olhou para o que fez nascer a união económica e política — duas guerras mundiais — e quis dizer que é da maior importância a existência de uma instituição agregadora num novo momento de grande fractura. A Europa está em profunda crise financeira e social e em alguns países os ingredientes políticos e as disparidades vão fazendo eclodir momentos de grande violência.

 

Diplomacia de influência

 

A União Europeia tem as suas raízes na Comunidade Europeia do Carvão e do Aço, nascida em 1951 em Paris e que criou uma integração económica entre países que se tinham enfrentado na II Guerra Mundial — França, Itália, República Federal Alemã, Bélgica, Holanda e Luxemburgo. Os grandes inspiradores do projecto foram Robert Schuman e Jean Monnet. Anos mais tarde, o clube seria alargado e passaria a chamar-se Comunidade Económica Europeia antes de se tornar União.

 

Falando em Oslo, a capital da Noruega, Thorbjørn Jagland, o presidente do Comité Nobel (e também o secretário-geral do Conselho da Europa, uma dupla função que já lhe foi criticada), disse que a União Europeia foi a força promotora da aproximação da Alemanha e da França, foi um elemento essencial a seguir à guerra sangrenta nas Balcãs nos anos 1990, foi um agregador de jovens democracias (como a grega, a portuguesa e a espanhola) e um unificador depois da queda do muro de Berlim.

 

A AFP descodificou a mensagem atrás de todos estes exemplos: a UE é um jogador poderoso dentro do chamado soft power (a diplomacia de influência), e foi também este lado que foi premiado. E há outros exemplos desse poder, prosseguia a AFP que ouviu uma analista do Centro para a Reforma da Europa, Katinka Barysch: a Turquia é um país que beneficiou dessa “influência positiva” que a Europa tem. Aboliu a pena de morte, fez grandes reformas e foi estimulada quando abriu negociações com vista à adesão”. (As negociações estão, de momento, em ponto morto).

 

“A mensagem aqui é que temos que ter em mente o que este continente já conseguiu e não permitir que ele volte a desintegrar-se”, disse Jagland. O antigo chanceler alemão Helmut Kohl, reagiu no mesmo sentido dizendo que o Comité Nobel foi “muito sensato” em ter atribuído o Nobel da Paz este ano à UE. “Encoraja-nos a manter apertados todos os laços apesar das dificuldades e dos problemas que ainda temos que ultrapassar”.

 

Salvar o euro?

 

Já no período de perguntas e respostas após o anuncio, foi perguntado ao presidente do Comité Nobel — que é um defensor da entrada da Noruega na União Europeia — se estava a tentar salvar o euro. De acordo com o jornal The Guardian, Jagland disse que os membros do Comité não pertencem a países da UE e que o prémio não deve ser visto como uma tentativa de retirar a Europa do buraco de problemas em que caiu.

 

A seguir considerou que os habitantes da Grécia, de Portugal e da Irlanda (os países com empréstimos e com a sua gestão financeira a ser avaliada pelo Banco Mundial, Fundo Monetário Internacional e Banco Central Europeu) têm “empatia” pela ideia de Europa, tendo beneficiado dela e não querendo perder o que “já alcançaram”. “Muitos podem criticar as actuais políticas, mas a questão aqui é diferente.”O prémio, que será entregue no dia 10 de Dezembro em Oslo, poderá ser recebido por um ou por todos os presidentes das três principais instituições comunitárias (o português Durão Barroso é presidente da Comissão Europeia; o belga Herman van Rompuy é presidnete do Conselho Europeu e o alemão Martin Schulz preside ao Parlamento Europeu. O destino dos cerca de 930 mil euros que vêm com o diploma do Nobel da Paz ainda é desconhecido. A questão “ainda não foi debatida ou decidida”, mas sê-lo-á brevemente entre “as três instituições”, disse a porta-voz da Comissão Europeia, Pia Ahrenkilde.

 

“É uma grande honra para a totalidade dos 500 milhões de cidadãos da UE, para todos os Estados membros e todas as instituições europeias”, disse Durão Barroso sobre o prémio que considerou “um reconhecimento justificado de um projecto único que trabalha para o benefício dos seus cidadãos mas também para o benefício de todo o mundo”.

 

 

 

cm.pt

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