Angola: Crise alastra-se entre companhias aéreas

17/07/2017 01:01 - Modificado em 17/07/2017 01:01

A informação, compilada este sábado (15.07) pela agência Lusa, resulta de uma análise ao relatório e contas de 2016 da TAP, em que a companhia aérea portuguesa reconhece as dificuldades no repatriamento de depósitos em moeda nacional angolana, provenientes das operações em Luanda, para onde voa diariamente.

Por este motivo, a TAP estaria a comprar dívida pública angolana, indexada ao dólar, para se precaver de novas desvalorizações do kwanza, face às dificuldades em repatriar dividendos bloqueados em Angola, que já ascendem a 100 milhões de euros.

A transportadora refere que as vendas para Angola caíram cerca de 20% em 2016, face ao ano anterior, situação “acompanhada de uma redução da oferta de voos muito significativa”.

Além disso, a empresa portuguesa, que em Luanda já deixou de aceitar moeda nacional angolana para pagar viagens com início fora daquele país africano, identifica que teve de “mitigar problemas relacionados com a acumulação de valores pendentes de autorização de transferência para Portugal”.

“Mais de metade dos valores depositados em Angola, em final de 2016, estavam salvaguardados de novas desvalorizações cambiais, como a que sucedeu em janeiro de 2016, visto ter sido utilizada uma parte dos depósitos em kwanzas para a aquisição de obrigações do tesouro angolano indexadas ao valor do dólar”, refere a companhia.

Em concreto, a TAP afirma ter subscrito, no decorrer do exercício de 2016 e utilizando mais de metade dos depósitos que tinha então retidos nos bancos angolanos, Obrigações do Tesouro de Angola no montante total de 6.899 milhões de kwanzas (39,6 milhões de euros), “correspondentes à taxa de câmbio original de 165,074 kwanzas por dólar”.

Estas obrigações têm como data de maturidade 06 de dezembro de 2018 e encontram-se indexadas ao valor do dólar, não sujeitas por isso a eventuais novas desvalorização do kwanza.

Além destes títulos, a TAP fechou o ano de 2016 com depósitos bancários em Angola no montante de 35,9 milhões de euros, os quais não consegue repatriar.

Em crise desde 2014

Angola vive, desde finais de 2014, uma profunda crise financeira, económica e cambial decorrente da quebra para metade nas receitas com a exportação de petróleo, tendo desvalorizado o kwanza, face ao dólar, em 23,4% em 2015 e mais 18,4% ainda no primeiro semestre deste ano.

A taxa de câmbio oficial cifra-se atualmente nos 166 kwanzas (93 cêntimos de euro) por cada dólar, quando antes do início da crise das receitas do petróleo, ainda em 2014, era de 100 kwanzas.

Somando depósitos e títulos soberanos angolanos, a TAP tinha em Angola, retidos, sem conseguir repatriar, a 31 de dezembro de 2016, cerca de 75,5 milhões de euros.

Dados recolhidos pela Lusa junto à empresa portuguesa apontam que esse valor subiu mais 25 milhões de euros só no primeiro semestre de 2017, ascendendo já a 100 milhões de euros, sendo esta a verba total da companhia retida em Angola.

Emirates cancelou contrato com a TAAG

A transportadora aérea Emirates anunciou na segunda-feira (10.07) o “fim imediato” do contrato de concessão para gestão da companhia de bandeira angolana TAAG face “às dificuldades prolongadas que tem enfrentado no repatriamento das receitas” das vendas em Angola.

Informações não confirmadas pela companhia árabe indicam que a dívida total angolana à Emirates ascende a 340 milhões de dólares (300 milhões de euros).

Numa declaração enviada à Lusa, em Luanda, a transportadora refere igualmente que está a “tomar medidas no sentido de reduzir a sua presença em Angola” e que vai reduzir de cinco para três o número de frequências semanais para Luanda.

“Esta questão tem-se mantido sem solução, apesar de inúmeros pedidos feitos às autoridades competentes e garantias de que medidas seriam tomadas”, refere a companhia árabe.

Na quinta-feira (13.07), a Casa Civil do Presidente angolano comunicou que um decreto de José Eduardo dos Santos afastou a administração da transportadora aérea estatal TAAG, liderada por Peter Hill, depois da decisão dos árabes da Emirates de se retirarem da gestão daquela companhia.

Várias operadoras aéreas queixam-se da dificuldade em repatriar dividendos das vendas em Angola, por falta de divisas, e nos últimos meses cancelaram ligações para Luanda ou colocaram limitações nas vendas.

Agência Lusa

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