ONU diz que ataques dos EUA em Raqqa estão a provocar um número “enorme” de vítimas civis

15/06/2017 01:22 - Modificado em 15/06/2017 01:22
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A ofensiva contra o Daesh na sua capital na Síria, Raqqa, está a causar uma “perda enorme de vidas civis”, declarou esta quarta-feira o presidente da comissão de inquérito do Conselho de Direitos Humanos das Nações Unidas.

A ofensiva está a ser realizada por uma aliança entre milícias árabes e curdas apoiadas pela coligação liderada pelos Estados Unidos, que apoia as forças terrestres com ataques aéreos.

“Notamos em particular que a intensificação dos ataques aéreos, que permitem o avanço das SDF [Forças Democráticas da Síria], resultaram não só numa enorme perda de vidas civis, mas também levou 160 mil civis a deixar as suas casas e a ficarem deslocados”, disse Paulo Pinheiro, presidente da comissão de inquérito do Conselho de Direitos Humanos da ONU, citado pela agência Reuters.

O responsável da ONU não deu números exactos sobre os mortos civis dos ataques na cidade, tomada pelo grupo islamista Daesh no início de 2014.

Paulo Pinheiro reconhece a importância de libertar a cidade do domínio do grupo que tem sido responsável por inúmeras atrocidades, apontando as cometidas sobre as mulheres e raparigas yazidi, “que estão escravizadas sexualmente há quase três anos, algo que faz parte de um genocídio em curso”, cita a estação de televisão pan-árabe Al-Jazira.

Mas avisa que isso não pode ser feito às custas da vida de outros civis que não têm culpa de se encontrar em zonas tomadas pelo grupo islamista.

Também a Human Rights Watch tinha mencionado a necessidade de proteger os civis durante a ofensiva: “A batalha de Raqqa não pode ser feita só para derrotar o ISIS [Daesh], mas também proteger e ajudar os civis que sofreram às mãos do ISIS nos últimos três anos e meio”, disse a vice responsável da organização ao jornal norte-americano San Francisco Chronicle.

Segundo um relatório do Comité Internacional da Cruz Vermelha (CICV), as cidades estão a ser o principal local de morte de civis na Síria, Iraque e também no Iémen: nos últimos cinco anos, 70% das mortes de civis na Síria e no Iraque ocorreram em cidades.

O relatório, I Saw My City Die (Vi a Minha Cidade Morrer), conclui que esta é uma consequência da dificuldade de distinguir alvos civis e militares – ou, pior, do atingir intencional de civis. “As partes em confronto devem reconhecer o impacto nas pessoas que esperam por acabar por governar”, disse o director regional do CICV no Médio Oriente, Robert Mardini. “Conseguirão os vencedores manter a paz se as pessoas sentirem que não respeitaram a lei nem a humanidade básica dos cidadãos locais?”, pergunta.

“As consequências vão durar gerações”, antevê Madrini. É provável que “estas cidades sejam simplesmente incubadoras para mais violência no futuro”.

Fósforo branco
A Human Rights Watch expressou, por outro lado, preocupação com o uso de fósforo branco pela coligação liderada pelos EUA contra o Daesh. Segundo a HRW, o uso do fósforo branco em zonas muito populasas levanta questões sobre a protecção de civis.

O fósforo branco é uma substância altamente inflamável que em contacto com a pele pode causar queimaduras até ao osso, e quando explode lança pedaços num grande raio à sua volta. Também a inalação pode causar a morte. O seu uso devia ser restrito a acções como iluminar um campo de batalha, provocar uma cortina de fumo e disfarçar movimentos, ou ainda destruir alvos militares desertos. A sua utilização em zonas perto de civis está proibida pelas Convenções de Genebra.

Os Estados Unidos admitiram o uso de fósforo branco mas em Mossul, no Iraque, a outra cidade-bastião do Daesh. “Usámos fósforo branco para fazer cortinas de fumo e retirar civis com segurança”, disse à rádio pública norte-americana NPR o general neozelandês Hugh McAslan. Foi a primeira admissão do uso da substância num contexto destes.

Mossul, tomada pelo Daesh em 2014, foi o local de onde o movimento proclamou um califado em parte do território do Iraque e da Síria.

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