Merkel persona non grata em Atenas

10/10/2012 11:56 - Modificado em 10/10/2012 11:56
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A recepção do povo grego à chanceler alemã foi, como já era esperado, péssima. As autoridades já sabiam que ia ser assim, e por isso foram destacados 7000 polícias para estar hoje em Atenas. Todas as zonas por onde Merkel passou, e o resto em volta, foram fechadas a carros, pessoas e sobretudo protestos. Merkel disse que quer “que a Grécia se mantenha no euro”.

 

Nesta terça-feira juntaram-se cerca de 50 mil pessoas no centro de Atenas para receber Merkel em Atenas. A recepção não foi das melhores: a praça Syntagma dividiu-se em gritos contra o memorando de entendimento com a troika e cartazes dirigidos em alemão a Merkel. Diziam, alguns, “Fora com o Quarto Reich” e “Não és bem-vinda”. Foram queimadas várias bandeiras nazis e houve até um grupo de quatro homens vestidos com fardas das tropas de Hitler, as SS, que circularam num jipe descapotável ao longo da praça Syntagma, o centro dos protestos.

 

Prevendo a hostilidade dos manifestantes em reacção à visita de Merkel a Atenas, as autoridades destacaram 7000 polícias para patrulhar as ruas de Atenas. No passado dia 26 de Setembro, aquando da última greve geral grega, já tinham estado um número invulgar de polícias nas ruas: 3000. Na véspera da visita de Merkel a Atenas, a AFP citou fontes das autoridades que falaram em helicópteros para vigiar as ruas e canhões de água para controlar os manifestantes.

 

A manifestação foi, na sua grande parte, pacífica, conta o jornal grego Kathimerini. A excepção foi um grupo de cerca de 30 manifestantes, que atiraram pedras e cocktails molotov à polícia. As autoridades responderam com balas de borracha, bastonadas e granadas de gás lacrimogéneo.

 

Foram detidas mais de 50 pessoas e ficaram feridas outras 32, das quais se contam dois polícias. Os confrontos aconteceram sobretudo na praça Syntagma, onde também se situa o parlamento grego. As ruas que passavam para as traseiras do parlamento foram bloqueadas com vedações de ferro com mais de três metros de altura, por cordões policiais e também por carrinhas da polícia anti-motim.

 

“Não sei o que a minha visita significa para os gregos”

 

Mal o avião de Merkel aterrou em Atenas, duas bandeiras, uma alemã e outra grega, foram abanadas pelos pilotos, em sinal de união e abertura para o diálogo entre as duas nações.

 

Na conferência de imprensa, após ter-se reunido com o primeiro-ministro grego, Antonis Samaras, foi perguntado a Merkel qual foi o propósito da sua visita a Atenas e o que é que ela achava que esta significava para os gregos. Merkel respondeu: “Eu vim cá para compreender a situação no terreno. Ver a situação de perto leva a uma melhor compreensão. Quanto àquilo que a minha visita significa para os gregos, isso não sei”.

 

A chanceler afirmou também que “há progressos diários” na Grécia, e que “já foi percorrido muito caminho” no caminho da recuperação grega. “Este esforço deve ir até ao fim, porque senão as circunstâncias tornar-se-ão ainda mais dramáticas”, disse Merkel, que garantiu desejar “que a Grécia se mantenha no euro”. “Nós temos uma moeda comum, e se alguém não está bem nela, então ninguém está bem. Há passos importantes que têm de ser dados, mas ainda não acabámos. Mas há uma luz no fundo do túnel”, afirmou ainda a chanceler alemã.

 

Já o primeiro-ministro grego, Antonis Samaras, garantiu que a Grécia vai “tomar as medidas que devíamos ter tomado há muito tempo”. Contou ainda que, em conversa com Merkel, lhe disse que “o povo grego sangra, mas está determinado a permanecer no euro”. Samaras disse ainda que durante a sua visita “Merkel mostrou respeito pelos sacrifícios que temos feito, e é da opinião que eles não devem ser desperdiçados”, concluindo que “a Grécia vai sair desta crise ainda mais forte”.

 

De seguida, Merkel reuniu-se com o Presidente grego, Karolas Papoulias. O socialista disse a Merkel que “é preciso pensar em medidas que tragam esperança à pessoas e que façam face ao desemprego dos jovens e das mulheres”. Merkel garantiu-lhe ser “amiga e parceira” da Grécia e que visitou Atenas para “resolver os problemas”.

 

Além de Samaras, Papoulias e outros gregos que encontrou num encontro da Câmara de Negócios Alemães e Gregos, Merkel não terá visto muitos mais cidadãos do país que visitava. Isto porque as zonas por onde Merkel passou foram fechadas a carros, pessoas e sobretudo a manifestações. Segundo os cálculos do PÚBLICO, as zonas bloqueadas ultrapassam os 20 metros quadrados, juntando-se ainda uma avenida de 2,5 quilómetros de distância.Visita de Merkel foi “tarde demais”

 

Esta foi a primeira visita da chanceler alemã à Grécia desde 2007. Entretanto, a Grécia assinou dois memorandos de entendimento com a troika (um 2010 e outro em 2012), vai no seu quinto consecutivo de recessão económica e tem uma taxa de desemprego que ronda os 24%.

 

As palavras que chegam a Atenas desde Berlim são directas e inflexíveis quanto à certeza de que a austeridade é o caminho para a solução do problema da dívida grega. Como reacção, não passa uma semana em que pelo menos um jornal grego não tenha na capa uma montagem de Angela Merkel vestida com uma farda nazi.

 

Recentemente, o ministro das finanças alemão, Wolfgang Schäuble, deu uma entrevista à estação televisiva alemã ZDF em que disse, a propósito da visita de Merkel a Atenas, que “a chanceler alemã não vai discutir com a Grécia assuntos sobre os quais a troika tem de se pronunciar antes”.

 

Schäuble fez estas declarações à vista das negociações que ainda decorrem entre o governo grego e a troika. O governo grego terá de cortar 11,5 mil milhões em despesa nos próximos dois anos e terá ainda de aumentar a carga fiscal em 2 milhões de euros em igual período. Sem estas medidas, a Grécia não receberá a próxima tranche do empréstimo (31 mil milhões), sem a qual não terá dinheiro para chegar até ao fim do mês de Novembro.

 

Muitos argumentam que a visita de Merkel foi um jogada política fútil, mas também existe quem veja nesta deslocação um esforço de aproximar os seus países. No jornal grego Kathimerini, o colunista Ilias Siakantaris escrevia: “A visita de Angela Merkel a Atenas aconteceu tarde demais, como quando algumas bandas de rock vêm tocar à Grécia bem depois do seu pico de forma”.

 

 

 

 

publico.pt

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