António Monteiro:  é altura o  Estado fazer justiça às vítimas de prisão e tortura na de Junho de 1977  

13/06/2017 00:49 - Modificado em 13/06/2017 01:28

 Decorridos 40 anos, António Monteiro diz que já é altura de o Estado de Cabo Verde fazer justiça às vítimas de prisão e tortura na sequência dos acontecimentos de Junho de 1977. “Gostaria de lembrar aqui uma pessoa como o sr. João Baptista Monteiro (Djony) que era um simples estivador que foi preso, lembro-me também do Carrasco, do Naxá, pessoas que estão ainda vivas e que vêm ao longo de todos esses anos procurando que se faça justiça para as pessoas que foram presas na altura e muitas delas torturadas”.

Se ainda não se fez justiça às vítimas de S.Vicente, diz Monteiro, não foi por culpa da UCID que já em 2007, em duas intervenções no Parlamento, trouxe à baila esta questão. “Nós, a UCID levamos esta preocupação ao Parlamento e lembro-me que era numa altura em que se estava mais uma vez a tratar do estatuto dos combatentes da liberdade da pátria, em que fiz uma intervenção apelando que se fizesse justiça às pessoas que em Junho de 1977, em São Vicente, e em 31 de Agosto de 1981, em Santo Antão, que até hoje não viram a justiça feita para o lado deles”, aponta Monteiro.

Acrescenta que o então primeiro-ministro não reagiu de forma negativa à sua intervenção e que a UCID comprometeu-se então a preparar um projecto de lei para ser apresentado ao Parlamento para que  se repusesse a justiça. “Estamos num país de brandos costumes, por isso a justiça deverá ser feita. Deveremos reconhecer o mal que esses cidadãos sofreram por pensarem diferente, ou por não se reverem na forma como a política era feita em Cabo Verde e por causa disso sofreram na pele as agruras da vida e estranho-me que passos todos estes anos, realmente não se fez essa justiça”, lastima António Monteiro.

O presidente da UCID diz acreditar que com o novo governo do MpD que deveria ter feito justiça na década de 1991/2001, mas que por várias razões não o fez, poderá agora, com a chamada de atenção que a própria sociedade civil faz, através do Expresso das Ilhas, retomar esta matéria para que se possa repor finalmente a verdade e indemnizar as pessoas pelos maus-tratos e pelas torturas de que foram alvo.

“Aqui devo fazer mea-culpa ou uma culpa inteira, porque na altura em trouxemos a questão por duas vezes ao Parlamento fiquei de contactar juristas para nos preparar um projecto de lei, mas infelizmente acabou por não se concretiza. Mas deixo aqui o compromisso de preparar um projecto de lei a apresentar ao Parlamento visando a reposição da verdade em relação às vítimas de 1977 e de 1981”, anuncia.

 

Fonte ; expressodasilhas

 

  1. Carvoeiro

    Caro Monteiro, também cito Léla Pires, Manuel Pinto, Augusto Évora, António Pinto, Ildo de Tita, Alexandre Tereza, João Leite, Manuel de Bia… agricultores, comerciantes ou professores da Ribeira das Patas, Santo Antão, presos em 1977 pelo PAIGC. Portanto é preciso relembrar essas pessoas, para não ficarem ignoradas perante a insistência na referência a presos de São Vicente sem qualquer referência ao epicentro da resistência em Santo Anão, que foi originariamente Ribeira das Patas, aliás localidade com cerca de 2500 pessoas que votam quase sempre acima de 75% contra o PAICV em todas as eleições havidas, em parte em virtude da sua resistência que causou a dor de muitas famílias em 1977.

  2. Clara Medina

    “Um povo que não conhece a sua história está condenado a repeti-la” (Edmund Burke)
    Aqui está o perigo. O povo cabo-verdiano, claro está, infelizmente uma grande maioria não está interessado em conhecer a sua história.
    Está mais fascinado em repetir e papaguear falsas passagens da história muitas vezes que não passam de ficção do que se informar e investigar a realidade histórica. Tenho a impressão que a realidade histórica é tão chocante que as pessoas preferem nega-la e desconhecê-la mas é um comportamento de avestruz.
    Grande iniciativa destes jornais, que eu saiba Expresso e Notícias do Norte, por retirarem do baú do esquecimento estes tristes episódios dum período negro da nossa História.Para os praticantes destes crimes seria até uma espécie de purificação da sua alma e os aliviaria de um imenso remorso que decerto os aflige diariamente e também um alívio do seu sofrimento quando chegar a hora de serem chamados para o Juízo Final.
    O Estado de Cabo Verde, que vangloria de ser um Estado de Direito, só poderá usufruir deste título, quando entre outros, pedir perdão à essas vítimas inocentes dum grupo de satânicos e sadistas.
    Apesar de um pouco tarde, nunca é demasiadamente tarde para o Estado de Cabo Verde declarar a sua “mea culpa”.

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