4 de junho 1977 “ Os interrogados tinham de responder “sim” a tudo. Se negassem, levavam  choques elétricos” .

6/06/2017 00:43 - Modificado em 6/06/2017 07:59

No dia  4 de Junho , quarenta anos  que um grupo de sanvicentinos iniciou uma descida ao inferno. Um inferno de torturas .Prisões arbitrárias . Humilhações, Vidas destruídas. E sobretudo de um silêncio  cúmplice  que de tanto silêncio  nos faz acreditar  que nada “de grave aconteceu” no dia 4 de Junho de 1977  na cidade do Mindelo .Mas aconteceu . Pacatos cidadãos , que  se cometeram algum crime , mesmo no entender do regime do partido único , foi espalhar panfletos contra a “unidade Guiné-Cabo Verde “, foram presos e torturados

Publicamos na íntegra depoimentos das vitimas que foram publicados no jornal Expresso das Ilhas

Adelino Leite

é preso e deixado incomunicável e sem alimento por dias. Segue depois para interrogatório onde leva choques eléctricos durante horas. A cena repete-se dias depois. Os interrogadores faziam as perguntas e davam as respostas, os interrogados tinham de responder “sim” a tudo. Se negassem, levavam um choque. Fica preso durante oito meses, sem culpa formada e sem julgamento. Quando é libertado, ameaçam-no com o regresso à cadeia se contasse o que lhe tinha acontecido.
Mário Leite

é preso e passa os primeiros dias sem direito a água nem comida. Quando se queixa da sede, trazem-lhe água numa lata com fezes (o mesmo procedimento é descrito por outros prisioneiros). Fica preso durante 41 dias, “dias de sofrimento e de maus tratos, que eu não desejo nem ao pior dos inimigos”, como dirá mais tarde.
João da Cruz Lima

é preso e fica incomunicável por 45 dias. É interrogado numa sala onde a máquina de choques eléctricos está presente, como um aviso (João da Cruz Lima nunca refere que foi torturado, provavelmente porque estava doente quando foi preso). Feitas as perguntas e dadas as respostas, o inquisidor escrevia-as à sua maneira. “Terminado o interrogatório, feito à maneira deles, sem a presença de um defensor jurídico, foi-me dado um documento para assinar”.
Augusto de Melo

conhece as prisões logo a seguir ao 25 de Abril. Como se recusa a aderir a uma greve anunciada pelo PAIGC é preso, levado para o Tarrafal, em Santiago, e mais tarde para Caxias, em Portugal. Libertado nove meses depois, regressa a Cabo Verde só em Janeiro de 1976, e continua a ser vigiado pelo PAIGC. Em 1977 participa, de forma pouco activa, na distribuição de panfletos onde se mostravam contra a unidade Guiné/Cabo Verde (ironicamente, a história dar-lhes-ia razão três anos depois), se opunham à presença de russos e cubanos no arquipélago e aconselhavam o Partido Único a voltar para o mato. É preso e torturado com choques eléctricos durante horas, “nunca na minha vida imaginei sequer que houvesse um desespero igual feito por cabo-verdianos e para cabo-verdianos”. Quando adoece e pede um médico, as autoridades dizem-lhe que só havia médicos cubanos e russos, como tinham escrito nos panfletos que não os queriam, fica sem consulta. Augusto de Melo é libertado em Janeiro de 1979.

 

  1. Zona libertada

    Quem viveu em S.Vicente nessa época sabe que os referidos elementos da UDC foram apanhados com explosivos e pretendiam fazerexplodir a Jaida e a Electra.OsrMelo foi enviado para Portugal para a prisão de Caxias pelo MFA.Como é que um partido podia enviar presos para Caxias.Investiguem ,antes de escrever asneiras.

  2. Diniz da Graca

    Nunca eh tarde para trazaer a tona a HISTORIA dos cidadoes Sanvicentinos e contar as novas geracoes o periodo NEGRO de 1977. em que foram humilhados, presos, torurados e maltratados pelos “algozes” do PAIGC, ou oportunistas que actuavam em seu nome, so por que discordavam do rumo que os homens do MATO queriam impor a CAVO VERDE.
    De lamentar, que ate hoje nao se tenha lancado ums discussao (sem racores) sobre o sucedido, e, homenagear a coragem de Lulu Marques Toi de Forro, Titimo Baxer, Lela Veneno, Mario Leite, e muitos e muitos outros. !

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